Antecipar é preciso

Se a pandemia poderia ter sido evitada, como alertaram ontem peritos mandatados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), imagine-se o que poderia ter sido acautelado na noite em que o Sporting se sagrou campeão! Vamos ao primeiro tema, a pandemia: segundo os entendidos e personalidades que compõem o Painel Independente, a convite da OMS, é urgente fazer vastas reformas dos sistemas de alerta e prevenção para evitar novas pandemias. Num relatório, o mesmo painel considera que a OMS demorou demasiado tempo a fazer soar o alerta e que teria sido possível evitar a catástrofe classificada como "Chernobyl do século XXI", que já custou a vida a pelo menos 3,3 milhões de pessoas e provocou uma crise económica mundial. "É claro que a combinação de más escolhas estratégicas, falta de vontade de atacar as desigualdades e um sistema mal coordenado criaram um cocktail tóxico que permitiu à pandemia transformar-se numa crise humana catastrófica", revela o mesmo relatório. Um ataque feroz às autoridades de saúde mundiais. Os peritos reforçam: "Muito tempo se passou" entre a notificação de um foco epidémico na China, na segunda quinzena de dezembro de 2019, e a declaração, a 30 de janeiro pela OMS, de uma emergência de saúde pública de âmbito internacional. Isto enquanto a China foi acusada de camuflar a epidemia.

O grupo de especialistas recomenda o lançamento de um novo sistema mundial de vigilância, baseado numa "transparência total". "Propomos que a OMS passe a publicar em tempo real todas as informações de que dispõe sem a permissão dos governos", explicou Michel Kazatchkine, membro do Painel Independente. "É preciso também que os 194 estados membros da ONU permitam à OMS desenvolver uma investigação num país onde exista um foco infeccioso", rematou.

Se tudo isto poderia ter sido evitado, não se compreende como não foi possível acautelar a concentração de adeptos do Sporting em redor do Estádio de Alvalade e da rotunda do Marquês de Pombal. Alguém falhou em todo o processo e isso ficou claro pelas imagens televisivas a que todos os portugueses assistiram. A segurança e a saúde ficaram em causa. Veremos os resultados deste aglomerado de adeptos daqui a uma ou duas semanas. O R(t) (índice de transmissibilidade) está a subir e ajuntamentos como este em nada contribuem para o controlo da pandemia.

Não estiveram bem os adeptos do clube, nem a polícia, nem o ministro da Administração Interna. Corria nas redes sociais e noutros fóruns a divulgação antecipada desta concentração de adeptos e nada foi feito a não ser, já como último recurso, deitar mãos às balas de borracha. Não planear, não prevenir e não antecipar é um problema crónico em Portugal, em várias frentes: nos negócios e na economia, na saúde e na política e até no desporto.

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