Ursula, temos um problema

Ursula von der Leyen irá a votos no Parlamento Europeu já na terça-feira. Que condições tem para ter sucesso? Que margem ainda tem até lá? E que opções em cima da mesa? Falamos de legitimidade democrática, mas também de opções políticas com impactos tremendos nas nossas vidas. Estaremos conscientes disso?

Ursula von der Leyen está longe de ter garantida a aprovação do Parlamento Europeu para poder assumir a presidência da Comissão Europeia. Se o processo que a fez emergir como o nome apontado pelo Conselho Europeu crispou ainda mais a imprescindível base mínima parlamentar (376 eurodeputados), a sua prestação ao longo desta semana nas reuniões com os sociais-democratas e os verdes também não ajudou. Neste momento, parecem apenas garantidas as bancadas conservadora e liberal, insuficientes para a sua aprovação (290 no total). Os Verdes confirmaram o voto contra e a bancada nacionalista onde predominam os polacos também já manifestou a sua desilusão por não ter conseguido nenhum lugar de destaque nas comissões parlamentares entretanto alvo das escolhas para as lideranças. Em última análise, Ursula von der Leyen tem duas escapatórias até terça-feira, quando se submeter à votação parlamentar.

A primeira é, até lá, apostar numa negociação sólida com os sociais-democratas para consolidar uma agenda mais convergente do que até aqui. Para tal, Von der Leyen não pode apenas pensar em trocar o apoio desses 154 deputados pela primeira vice-presidência da Comissão atribuída a Frans Timmermans. Precisa, sim, de articular uma agenda no discurso que fará no plenário na manhã da votação, em que dê ênfase a metas mais ambiciosas de descarbonização da economia europeia, assumindo um roteiro humanista para o acolhimento de refugiados e uma renovada política de asilo comum - dois temas que podem também colher apoios entre os deputados dos Verdes -, bem como um compromisso para alocar mais investimento comunitário em políticas sociais e, ainda, acelerar a reforma da arquitetura da zona euro. Se conseguir articular uma agenda pró-europeia que faça pontes mínimas entre conservadores, liberais e social-democratas, pode ficar mais próxima da sua aprovação. Se, com isso, empurrar de uma vez por todas o Fidesz para fora do PPE, então a sua nomeação pelo Conselho não terá sido em vão.

Nenhuma Comissão, sobretudo para lidar com outra capacidade com esta era de competição geopolítica frontal entre grandes potências em que nos encontramos, pode entrar em funções com uma margem curta de aprovação e um roteiro desarticulado nas suas prioridades estratégicas. O ideal seria ter as quatro maiores bancadas ao seu lado, qualquer coisa como 70% do Parlamento Europeu, uma frente certamente heterogénea mas com força suficiente para lidar com os nacionalistas, sobretudo aqueles apoiados financeiramente pelo Kremlin, o principal interessado na desagregação da UE. Para que tal aconteça, o colégio de comissários teria de espelhar essa heterogeneidade, incluindo, além de liberais, conservadores e sociais-democratas (como já acontece), também representantes dos Verdes. O problema é que são os governos nacionais quem indicam os comissários e não existe nenhum nos 28 Estados membros onde os Verdes tenham tamanha capacidade de influência.

A segunda escapatória para Von der Leyen tentar a aprovação parlamentar seria apostar no voto das bancadas à direita do PPE, cedendo para isso aos interesses de Salvini, Le Pen e dos nacionalistas polacos. O seu discurso teria, por isso, de ser diametralmente diferente, além de pouco genuíno, dadas as posições públicas que Ursula von der Leyen assumiu nos últimos anos a favor da entrada de refugiados na Alemanha ou criticando a violação da separação de poderes e do Estado de direito na Polónia e na Hungria. Se houve político na Alemanha que ergueu mais do que uma vez a sua voz contra esse rolo compressor aos princípios da União Europeia foi a ministra da Defesa alemã. Ou seja, teríamos de assistir a uma tremenda cambalhota ideológica seguida de um mortal à retaguarda absolutamente indigno e ao mesmo tempo sonhar com a manutenção do apoio dos liberais. Sendo isto manifestamente improvável, dado que Macron só existe politicamente como contraponto à agenda nacionalista, essa tentativa amarraria o PPE a Orbán, fugindo de Merkel. Depois do falhanço total na escolha de Manfred Weber, oficializar a orbanização da sua agenda seria partir a bancada em definitivo, obrigando PSD e CDS também a definir o seu caminho. Vale a pena lembrar que não existe disciplina de voto para a eleição do presidente da Comissão e que mesmo a tradicional "indicação" transmitida por cada grupo é frequentemente violada pelos deputados.

À primeira vista, tudo isto parece mais um capítulo da cozinha europeia do que política feita a pensar nos problemas da União (e são muitos) ou numa agenda capaz de valorizar os seus méritos (também muitos). Não discuto a perceção. Porém, ao contrário das profecias robóticas sobre o futuro do trabalho, a política vai continuar a ter de ser feita por pessoas, de preferência com alguma qualidade política, e para as pessoas. Discutir perfis, processos de legitimação, programas políticos, cedências negociais, vínculos estratégicos, reputação institucional, clivagens partidárias, pertinência discursiva, impacto das palavras e opções ideológicas é a coisa mais natural em democracia. E a mais saudável, já agora. Desligarmo-nos disto é que torna a condução das políticas públicas pouco ou nada escrutinável e uma porta aberta ao nativismo dos populismos que andam aí à solta e que, ao contrário do que muitos dizem, estão presentes no espaço público português. Aliás, tudo o que foi escrito neste artigo é pura política nacional, mesmo que pareça apenas mais um capítulo da bolha de Bruxelas.

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