Uma crónica bairrista na Costa da Caparica

É certo que o verão tem estado fresco... Confesso que parece estranho começar uma crónica num jornal sério assim, para os cânones do jornalismo cá do burgo, mas talvez seja esse um dos problemas do jornalismo cá do burgo, o de viver numa bolha, longe do que interessa de facto, e sem falar para pessoas comuns - e aí estão os números dos artigos mais lidos online para o confirmar.

Regressando portanto ao tema que é mais importante do que parece à primeira vista: é certo que o verão tem estado fresco... mas quem tem ido à praia na Costa da Caparica, sobretudo às últimas praias, as que têm nomes poéticos como Sereia, Morena, Rainha, Castelo e etc... tem notado a revolução que por ali vai. É uma revolução que leva anos de atraso - e muita paciência de quem passou longas horas em filas, naquelas estradas de pó e pedra, à chegada ou à saída da praia.

Em pleno verão estão a mudar os acessos à Costa da Caparica. As obras estão no terreno porque a Câmara Municipal de Almada avançou com as competências que passaram a ser suas e pôs mãos à obra. Retiraram-se árvores, alargaram-se estradas, vai organizar-se o estacionamento, que será a pagar. Acabou-se o caos e, de certa forma, a inconsciência que parecia crónica - bastava pensar no que poderia ali acontecer e na falta de segurança, se houvesse uma emergência, para fugir dali a correr.

E a Costa da Caparica não é lugar para se fugir dali a correr. Para quem é de Lisboa, é certo, mas também para quem é do país inteiro. É lugar para amar e aproveitar. É uma das razões por que Lisboa é uma das melhores cidades do mundo para se viver. Ali, a uns minutos de distância do centro de duas grandes cidades (Lisboa e Almada) entre as dunas, as arribas e o mar batido e fresco, no imenso areal plano - mesmo muito plano quando a maré está baixa. Uma praia a perder de vista, deserta, um bar cool ou um tasco de pescadores, tudo isto no espaço de alguns quilómetros, à escolha - não há muito a concorrer com isto, pelo menos no mundo civilizado e a uns quantos quilómetros pelo asfalto.

A revolução que está a chegar às praias da Caparica não pode ficar pelo ordenamento do trânsito. Há um plano, ainda anterior, apresentado pelo governo que incluía a proteção das dunas e a redução do fluxo de pessoas. Um plano polémico, é certo, e que levou com a oposição dos concessionários das praias. E que está em debate, ainda.

A costa portuguesa é uma das nossas maiores riquezas - tal como a nossa floresta também era. E a costa é, também, uma das zonas mais sensíveis às mudanças climáticas e mais em risco de catástrofe ambiental - com consequências em cadeia. O que já foi feito na Costa da Caparica - destruição de dunas, rateio da área verde - tem de ser analisado e revertido.

Não podemos ter o ambiente na lapela e depois não querer mudar hábitos no sentido de o preservar. Preservar a costa tem de implicar mudar hábitos e refazer o que se desfez: as dunas da costa que foram comidas pelas esplanadas, por exemplo. Preservar tudo isto implica mudar hábitos, de forma que muitas vezes será fazer revoluções no estado das coisas como sempre as conhecemos. Se nada foi feito até agora na Costa da Caparica, além da burocracia, era porque não era fácil fazê-lo. Porque não dava votos, e talvez atraísse ódios.

Agora que as obras estão no terreno - e não levantaram nenhuma oposição que se conhecesse, é altura de inverter as coisas. O pior que podia acontecer era que o debate - e a ação - parassem por aqui. É preciso que se saiba que gostamos de mais das nossas praias para que o permitíssemos.

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