Angola. Em nome do futuro

Mala de viagem (6). Um retrato muito pessoal de Angola.

A ideia era explorar a hipótese de um plano de desenvolvimento turístico para Luena. Foi necessário fazer uma prospeção antecipada à cidade. Cheguei à antiga vila Luso, fundada em 1956, que passou para Luena após a Independência de Angola. Foi meu cicerone Salvador, investigador e historiador. Começámos pela zona norte, que inicia na estação do Caminho-de-Ferro de Benguela, ao centro da cidade, no antigo Luso Hotel. Percebia-se que concetualmente estávamos na presença de uma Cidade Jardim. Dividida por avenidas, com árvores e acácias vindas de Benguela, era propícia para acomodar turistas provenientes das América e Europa, por via do litoral angolano. E zarpar África adentro, à boleia do Caminho-de-Ferro de Benguela, rumo aos Congos, à Zâmbia, à Tanzânia e à África do Sul. A via-férrea chegara, em 1913, àquela zona e, em 1929, à fronteira com a Rodésia do Norte, atual Zâmbia. Por isso, a génese de Luena remonta às urbes criadas ao longo das linhas de caminho‐de‐ferro, em especial as de Benguela, com uma rede urbana hierarquizada de ruas e praças, baseada numa estrutura em quadrícula. O crescimento de Luena media-se, na época, mais em termos demográficos e menos em infraestruturas, sobretudo no que à habitação diz respeito, assistindo-se, também, à autoconstrução clandestina. Ali estávamos junto ao Luso Hotel, tomado de assalto por diferentes famílias, mas onde ainda se nota o desenho moderno da autoria do arquiteto Luís Talequim da Silva. Deveria ser o coração e o símbolo desta cidade, mas Salvador confessou que as autoridades comunistas pouco relevam estes marcos históricos. Preferem o Monumento à Paz, no interior do Jardim Lenine e do Parque de Reserva Natural. Expliquei que as diretrizes do plano poderiam passar pela recuperação da mística imagem de uma cidade turística de outros tempos, resolvendo os problemas reais estruturantes, designadamente, a sobrelotação de uma cidade projetada para muitos menos habitantes e um projeto de infraestruturas integradas, com destaque para o sistema de macrodrenagem para permitir a evacuação das águas até ao rio, que se encontra a menos de um quilómetro da cidade. Uma nova centralidade também seria importante, tal como preparar terrenos para quem quisesse construir residências e manter a essência histórica colonial preservada. Apertámos as mãos um do outro, como irmãos munidos do mesmo objetivo, eu como técnico português, ele como estudioso de Moxico, desde o início dos anos 70. Ele é proveniente de Cazombo, vila do Alto Zambeze, e foi desde tenra idade que começou a interessar-se pela cultura angolana, em particular a do leste do país.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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