Proibir os carros para acabar com os acidentes

Mais de 300 mil acidentes de carro fizeram na última década meio milhão de feridos - grande parte deles em estado grave e com consequências para a vida - e milhares de mortos nas estradas portuguesas. São números negros que as associações que lutam pela segurança rodoviária realçam ano após ano, pedindo esforços adicionais na legislação, na fiscalização, na manutenção das vias e sinalética, na atenção das autoridades e até a colaboração dos construtores automóveis. E com efeitos crescentemente eficazes, porque aprendidos e incorporados na realidade - do uso do cinto de segurança aos airbags. O que nunca lhes passou pela cabeça foi pedir que se proibisse a circulação de veículos motorizados. Todos temos consciência de que seria medida artificial e de efeitos limitados ao tempo dessa proibição, um paliativo de efeito pífio que apenas poderia justificar-se enquanto resposta a uma situação urgentíssima, muito bem demarcada e limitada no tempo e no espaço - até mesmo pelo que implicaria de agressão a liberdades individuais.

É porém o equivalente que está em causa quando o país, subitamente doutorado em covid - e sem ter novas infeções, casos graves ou mortes para alimentar os seus mais negros presságios e ilustradas discussões -, à falta de um dérbi de resultado polémico, discute a possibilidade de adiar o regresso à vida porque a taxa de contágios da pandemia está em rápida propagação.

Pasme-se: quando as pessoas começam a circular, os vírus que transmitem também o fazem. Então, trancas à porta!, vaticina-se, esquecendo ou ignorando que o confinamento não é remédio contra doenças, mas medida de emergência excecional para aliviar os seus efeitos nos sistemas de saúde quando estes se veem sujeitos a demasiado stress.

Uma pena que não haja uma décima parte a preocupar-se com a gordura que lhe entope as veias (que provoca um AVC por segundo no mundo), com a hipertensão e a obesidade (que matam de enfarte 10 mil portugueses por ano), com a doença mental que afeta um em cada cinco portugueses (pior, só a Irlanda do Norte). Ou mesmo - se essas razões de padecimento e morte são notícia antiga - com o que aí vem de pobreza, falências, desemprego e crise económica e social, efeitos secundários mas certos da covid e dos confinamentos que se exigiram.

Enquanto não garantimos a proteção dos mais frágeis pela inoculação, é ainda necessário tomar cuidados especiais. O que não é preciso - nem saudável - é decretar sucessivos encerramentos e proibir a torto e a direito como forma de controlar a pandemia. De controlar as pessoas. Fazê-lo, além de cilindrar o pouco que resta da esperança e da capacidade de sobrevivência do país, só desresponsabiliza os portugueses. Que têm de aprender a viver com esta doença, como aprenderam a conviver com as demais, a confiar no sistema de saúde também no que respeita à covid, a acreditar no potencial da vacinação, a assumir o risco pelos seus comportamentos. Como assumem cada vez que acendem um cigarro, deitam metade do saleiro na sopa ou optam por passar o tempo livre alapados à frente da televisão em vez de fazer exercício.

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