Centenas de famílias pedem ajuda à Deco para saber onde cortar

Há dezenas de pedidos de ajuda para renegociar créditos junto da banca. Prestação da casa é a última coisa que os portugueses deixam de pagar

Primeiro foram as famílias a recibos verdes a bater à porta da Deco com pedidos de ajuda, agora, desde que foi declarado o estado de emergência, o telefone não para de tocar com pedidos de ajuda para fazer esticar um orçamento familiar cada vez mais curto e para lidar com a queda abrupta de rendimentos.

"De há três semanas a esta parte têm sido algumas centenas de chamadas", adianta Natália Nunes, coordenadora do gabinete de proteção financeira da Deco. Pedem informação, mas sobretudo apoio para saber onde começar a cortar.

Os sinais da crise bateram primeiro à porta das famílias em situação de maior precariedade. "Já temos algumas dezenas de pedidos de ajuda para intervir junto dos bancos para renegociar os créditos", descreve Natália Nunes. "São famílias com recibos verdes que viram os rendimentos reduzidos e estão com muita dificuldade em honrar os compromissos, como crédito à habitação, mas também ao consumo e cartões de crédito."

"Com o evoluir da situação vão surgir outras situações", admite. "Temos muitas pessoas que trabalham em pequenas empresas que fecharam e ficaram sem emprego, não sabem se vão ou não ser postas em lay-off ou se vão ter empresa para onde regressar findo o Estado de Emergência, que não sabem a quem recorrer, nem se no fim do mês vão ter rendimento", relata Natália Nunes. "Há um grande desespero."

Segundo dados do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social revelados sábado à noite, até 6 de março cerca de 60 mil empresas já tinham aderido ao regime simplificado de lay-off, abrangendo 171 589 trabalhadores, que viram o seu salário base reduzir-se em 30%. De fora dessa contabilização, estão itens como as comissões auferidas com vendas, componente importante do salário de muitos trabalhadores na área do retalho, o que significa que a perda de rendimento poderá ser muito superior.

Quem liga, procura muita informação sobre as moratórias previstas no crédito à habitação e nas rendas, sobretudo porque muitos não entendem em que situações se aplica ou que condições existem. As medidas são um "balão de oxigénio" para as famílias, reconhece a responsável da Deco, mas deixa um alerta. "Não nos podemos esquecer que é temporário. Não há garantias que depois da crise haverá emprego... e daqui a seis meses terão de retomar os pagamentos", lembra. Por isso, a Deco recomenda que, caso decida aderir, veja com o seu banco as opções que tem em cima da mesa e que mais se ajustam às suas necessidades.

O que fazer?

"No crédito à habitação a regra (da moratória) é a mesma: seis meses sem pagar prestação, com os juros a continuar a contar. Mas o consumidor pode optar por fazer o pagamento dos juros ou de parte do capital", descreve. Se tem um crédito à habitação, ou outro, e está confrontado com uma situação em que teme que não consiga cumprir com os seus compromissos, a responsável da Deco tem um conselho: fale com o seu banco.

"Um dos grandes conselhos a quem tem créditos é que entrem em contacto com o banco o mais rapidamente possível, para encontrar uma solução e não adiar a situação entrando em incumprimento", aconselha Natália Nunes. "Há que ponderar soluções agora e atuar já." E lembra que "não é só o crédito à habitação que faz parte das responsabilidades".

Perante a quebra de rendimento, por onde começam as famílias a cortar? Qual é a fatura que deixam de pagar? Natália Nunes explica que são os pequenos luxos, como restaurantes ou cafés - "o que não se coloca nesta fase porque estão encerrados" -, mas também cortam na compra de roupa e sapatos. "As pessoas resistem até à última a deixar de pagar a prestação da casa, da água, da luz e do gás. Fazem ginástica com o orçamento, levam o pagamento até ao limite do prazo, porque se não pagam há interrupção, e o último mesmo é o crédito à habitação".

As medidas de emergência aprovadas pelo governo e publicadas no fim de semana retiram algum peso a este aperto, já que proíbem o corte desses serviços essenciais. "Durante o estado de emergência e no mês subsequente, não é permitida a suspensão do fornecimento de água, energia elétrica, gás natural e comunicações eletrónicas", diz a lei, prevendo que para quem tenha visto os rendimentos reduzidos o pagamento de prestações atrasadas aos operadores de telecomunicações seja feito mediante um plano acordado com o cliente e que arranque apenas dois meses depois do fim do estado de emergência.

"O que vimos na última grande crise é que as pessoas continuam a ir ao supermercado, mas cortam em determinados produtos que trocam por opções mais baratas. Na carne e no peixe, que têm preços mais elevados, corta-se muito", descreve. E também na farmácia. "Na crise de 2011-2012, as pessoas de mais idade deixaram de aviar receitas."

Para quem tem filhos em colégios, "o expectável" é que, com estes em casa, "haja redução do valor" da mensalidade, "mas os miúdos mais cedo ou mais tarde, terão de regressar à escola". Por isso, antes que as contas sejam apenas de subtrair, o melhor é "fazer uma análise criteriosa das despesas".

"Uma boa opção é fazer um orçamento familiar, ver para onde está a ir o dinheiro, para melhor perceber onde pode reduzir, como renegociar pacotes de telecomunicações", aponta Natália Nunes. Com as novas regras de emergência a ditar que os contratos podem ser cancelados sem custos, deixando os clientes de ficar amarrados à fidelização, isto torna-se mais fácil.

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