"O mistério da vida cumpre-se em cada homem de uma forma única"

Ouvi um dia um padre dizer que existiam mais de sete mil milhões de formas de chegar ao céu, uma por cada um de nós. Foi uma frase que me emocionou e que me impressionou, porque há nela, nessa ideia de sete mil milhões de caminhos para chegar a Deus, um singular sentido ecuménico.

Há na humanidade, onde se cruzam milhões de projetos de felicidade, condicionados por territórios, por guerras, por famílias, por afetos, por religiões, por venturas, tantas e tantas formas de olhar para o bem, que sempre me questionei sobre a existência de um caminho único: de que forma pessoas em contextos tão diferentes, pecadoras porque humanas, podem encontrar esse caminho; de que forma esse caminho único pode fazer-lhes sentido na sua diferença?

Talvez por isso, na política, me tenha aproximado do liberalismo, olhando para a liberdade como instrumento harmonizador da diversidade, como único princípio capaz de fazer coexistir os projetos de felicidade de milhões de pessoas livres e iguais, todas filhas de Deus: que deve um Estado fazer, um governo, quando no seu território coexistem milhões de pessoas, cada uma com as suas aspirações, com a sua forma de chegar ao bem?

A resposta não pode senão ser a liberdade, tê-la como meridiano. Porque só a liberdade permite que cada um de nós, em igualdade, possa dar de nós, fazer por nós, realizar-se como entender, respeitando todos, dando a todos o espaço para encontrar o seu caminho.

Mas a liberdade não é assética. Ela é também condição do bem, porque o bem imposto, como regra, em coação, pode materializar-se, mas não resulta do amor. Fazer o bem porque a lei manda não é fazer o bem: é cumprir a lei.

E não pode o Estado, de forma alguma, chamar a si a função de apontar esse caminho do bem, discriminando, hierarquizando, uniformizando, inclusivamente julgando, como se houvesse, entre nós, quem estivesse investido desse poder, desse poder contra a degenerescência, desse poder da sabedoria universal, de quem sabe, por saber, que o caminho único é este.

Insurgi-me sempre contra essas tentações totalitárias, contra a insuportável superioridade moral, e procurei sempre afirmar a primazia da liberdade, desde logo a dos outros, porque na dos outros vejo a minha.

Vivemos, porém, num tempo em que a liberdade parece valer menos do que as certezas morais de quem nos rodeia.

E por isso me conforta recolher na lapidar Agustina, que ao aceitar o doutoramento honoris causa pela Università degli Studi di Roma "Tor Vergata", escreveu: "O mistério da vida cumpre-se em cada homem de uma forma única. A harmonia depende possivelmente de que deveríamos impor menos as fórmulas de felicidade, que é bom senso de raros, e aceitar, redimensionando-a pela responsabilidade própria, a incoerência de todos."

Advogado

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