As presidenciais e a crise

As presidenciais vão acontecer algures entre janeiro e fevereiro, era difícil encontrar pior altura para umas eleições.

Apesar dos sinais já não enganarem ninguém, como a queda brutal do produto interno bruto, a subida do desemprego, entre outros, ainda vivemos sob a anestesia das moratórias e dos lay-offs.

Porém, quem aterrasse em Portugal vindo de um planeta distante pensaria que, no essencial, está tudo ótimo. Tão bem que vemos figuras, muito relevantes da nossa comunidade, preocupadíssimas com uma magna questão relacionada com a obrigatoriedade ou não de uma disciplina na escola pública.

Nada se compara, no entanto, à alienação dos nossos principais atores políticos em atividade. E não estou a pensar em figuras que, à falta de melhor, se dedicam a espalhar boatos em redes sociais, como é o caso do deputado europeu Nuno Melo. Assistir a guerras do Alecrim e da Manjerona promovidas pelo primeiro-ministro em entrevistas e a taticismos serôdios dos seus ex-camaradas de geringonça é de bradar aos céus.

Aqui há uns meses, Rui Rio falava de um governo de salvação nacional. Como acontece muito ao líder do PSD, as suas palavras foram mal interpretadas e passou a ideia de que ele tinha feito um apelo a uma espécie de governo que reunisse um grupo de iluminados. A mensagem era bem clara e só quem anda, lá está, a viver numa realidade paralela é que não entende.

De facto, a crise económica que estamos a viver, e que se aprofundará nos próximos tempos, obrigará a uma governação de medidas excecionais. Vão ser necessárias medidas muito impopulares e vão ser pedidos sacrifícios enormes, mesmo com a imprescindível ajuda da União Europeia.

Pensar que se pode atravessar este inferno com um governo sem apoio maioritário no Parlamento e sem a consciência por parte da oposição da situação está para lá do irresponsável, é criminoso.

O PS, o BE e o PCP foram muito lestos a fazer um acordo quando apenas queriam tirar o poder ao PSD, mas só encontram problemas entre eles quando é preciso mesmo salvar o país.

Sim, é fundamental que a esquerda se entenda e desta vez de uma forma séria, ou seja, com todos os partidos no conselho de ministros. Já se sabe que não é um possível um acordo sobre as grandes questões, mas não será um governo nas circunstâncias que vamos viver que poderia fazer as reformas que sendo urgentes e não vão poder ser feitas nos tempos mais próximos.

Aqui surge um verdadeiro paradoxo: um acordo de governo entre o PS e o PSD seria no curto prazo melhor para o país. Permitiria trabalhar nas reformas estruturais que só com um entendimento entre os dois partidos se conseguem alcançar. Mas a realidade do jogo democrático não permite uma solução que reúna os dois partidos no executivo, sobretudo na atual conjuntura. Se a alternativa no centro-direita, neste momento, não existe, uma ida dos social-democratas para o governo faria muito provavelmente implodir o partido e com ele o nosso sistema partidário, que já está suficientemente débil.

Não consigo imaginar melhor forma de destruir a confiança nos partidos e nos nossos principais políticos do que somar a uma crise económica e social uma crise política.

Esteja o cenário político mais estável ou não, o período de campanha para as presidenciais vai coincidir temporalmente com falências em massa, desemprego brutal, serviços públicos com problemas e a pandemia longe de estar debelada. É o cenário ideal para os populismos mais desenfreados. E, apesar de raízes e intenções muito diferentes (não comparo a pessoa de bem que é Ana Gomes com André Ventura, mesmo tendo presente que a ex-deputada europeia tem defendido posições claramente contra o Estado de direito), o facto é que há duas candidaturas com esse perfil.

As eleições presidenciais vão ter um cenário difícil, mas também pode ser a altura para os portugueses renegarem o facilitismo do discurso populista. Que haja pelo menos um candidato que corporize o equilíbrio e a defesa das instituições. Nunca precisámos tanto dele.

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