Preços da eletricidade em alta vão afetar faturas das famílias

Os preços estão em máximos históricos no mercado grossista e vão obrigar as empresas a subir os preços da luz. A conclusão é da consultora IMF.

"Os preços da energia elétrica em Portugal [no mercado grossista] continuam a trajetória ascendente descontrolada, encontrando-se agora quase 60% acima dos valores registados no início do ano." A continuar assim, os efeitos vão fazer-se sentir nas faturas das famílias. A análise é da consultora IMF - Informação de Mercados Financeiros, com base nos preços por megawatt/hora (MWh) registados no mercado grossista de eletricidade, que têm vindo a registar máximos históricos. Os dados mais recentes apontam para um valor médio diário de 75,39 euros por MWh tanto em Portugal como em Espanha, de acordo com dados do operador do mercado elétrico ibérico OMIE.

Dados da REN confirmam a tendência: na semana passada, o preço médio da eletricidade no mercado grossista foi de 70,8 euros por MWh (48% acima face ao mesmo período de 2017) e no mês de agosto a média de preços alcançou os 64 euros por MWh, o mais alto no espaço de mais de um ano e meio.

"Se não houver alteração neste cenário, mais tarde ou mais cedo o preço da eletricidade vai subir, quer para as empresas quer para os particulares. As empresas vão ser obrigadas a subir os preços porque estão a vender e a comprar mais caro no mercado. Para quem produz eletricidade com carvão e gás, a produção está a sair mais cara", garante Ricardo Marques, analista da IMF.

Janeiro traz aumento?

Há um ano, o aumento dos preços da luz para as famílias também era antecipado, mas por um motivo diferente: mais de 80% do país estava em seca severa e as empresas viam-se obrigadas a recorrer ao carvão e ao gás natural para produzir eletricidade, aumentando os custos de produção.

Resultado? Em dezembro de 2017, a EDP anunciou um aumento de 2,5% nas tarifas para o ano seguinte, contrariando a indicação da ERSE para o mercado regulado, onde os preços desceram 0,2% em 2018. O contexto agora é diferente mas o resultado final arrisca ser o mesmo, com os consumidores a verem subir de novo as contas da luz já em janeiro. Contactada pelo DN/Dinheiro Vivo, a EDP diz que "é prematuro falar sobre os preços para 2019". Fonte oficial da empresa diz que "os preços altos no mercado grossista prejudicam a EDP e a generalidade dos agentes que atuam no setor elétrico".

E acrescenta: "Do ponto de vista da atividade de comercialização de eletricidade, preços mais altos são sempre um fator negativo. Do ponto de vista da atividade de geração de eletricidade, preços mais altos não significam necessariamente melhores margens para os centros eletroprodutores, uma vez que os preços altos são consequência de preços de combustíveis e CO2 mais caros, ou seja, custos mais elevados para a geração."

Os preços do gás natural subiram 25%, os preços do carvão subiram 30 a 40%

Também a Goldenergy "não tem previsto neste momento qualquer aumento dos preços de venda de eletricidade". Endesa e Iberdrola não quiseram comentar. "A Goldenergy tem uma politica sólida de aquisição de energia em mercados organizados e com antecedência temos conseguido evitar flutuações de preços não previstas. Neste momento, ainda não tivemos qualquer influência desta persistente alta de preços. Não prevemos nenhum motivo para que os preços não venham a convergir para preços médios dos últimos anos", disse Nuno Moreira, CEO da Goldenergy.

O que está a acontecer com os preços no mercado grossista tem uma explicação. "Apesar da produção com origem nas renováveis ter aumentado neste ano, o que não é produzido desta forma ficou muito mais caro do que no ano passado. Os preços do gás natural subiram 25%, os preços do carvão subiram 30% a 40%, e os preços a pagar pelas licenças de CO2 aumentaram quatro vezes. O petróleo a subir, e as paragens de centrais nucleares, levou a um preço mais alto", diz Ricardo Marques, sublinhando: "O principal motivo para estas fortes subidas tem sido a evolução dos preços das licenças para a emissão de CO2, que ao longo das últimas semanas continuaram a registar máximos de dez anos."

Preocupação ibérica

Os preços "anormalmente altos" da eletricidade preocupam os governos de Lisboa e de Madrid, que ordenaram já uma investigação. A ministra espanhola Teresa Ribera irá ao Parlamento no dia 19 de setembro tentar explicar a situação, mas por cá não há qualquer previsão de que o governo vá fazer o mesmo. Para já, cabe à ERSE dar seguimento à investigação formal em curso sobre os preços no mercado grossista de eletricidade, ainda sem data para apresentar conclusões. O regulador pede que se evitem conclusões precipitadas: "É importante ter em conta que as condições de formação do preço em mercado são influenciadas por múltiplos fatores, pelo que devem ser evitados paralelismos com outras evoluções do preço no passado dependendo apenas das condições climatéricas."

"Os preços de energia em mercado grossista são, de facto, uma referência determinante para os custos de aprovisionamento de energia por parte dos comercializadores", reconhece fonte oficial da ERSE em declarações ao DN/Dinheiro Vivo, lembrando que "o impacto nos consumidores do aumento do preço de mercado grossista é, em parte, compensado pela diminuição do sobrecusto da PRE [energias renováveis] e, portanto, pela diminuição da tarifa de acesso."

De acordo com a análise da consultora IMF, "em Portugal, durante o mês de agosto, a produção de energia térmica foi responsável por 67% de toda a produção energética do país. Este valor contrasta com os 50% no acumulado de 2018. Esta maior fatia acaba por ser normal, visto que o verão é um período com menos chuva e vento, forçando a maior utilização de combustíveis fósseis, reforçando a tendência de subida do preço".

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.