Toda a política é internacional

A invasão turca ao norte da Síria é muito mais do que um provável massacre aos curdos. É o corolário de omissões e incapacidades duradouras das potências euro-americanas, de novos alinhamentos entre Washington e Moscovo, do livre-arbítrio das decisões da Casa Branca, dos efeitos desta ordem internacional em mudança. Porque toda a política é internacional.

A facilidade com que um país decide entrar com o seu exército por um vizinho dentro diz bem como o sistema de poder arbitrário está a substituir um sistema de regras. Então se acompanharmos isto de um veto conjunto entre EUA e Rússia a uma condenação à Turquia pelo Conselho de Segurança, facilmente percebemos que vivemos tempos bizarros. A investida turca no nordeste da Síria serve o propósito de criar uma zona-tampão capaz de destruir os enclaves curdos em consolidação durante a longa guerra civil síria, não resulta de nenhuma crise de segurança iminente causada pelos curdos em território turco. Essa zona-tampão será moldada à custa de muitas vidas civis, da libertação de milhares de presos do ISIS e destruirá o esforço de tantos e tantos curdos que lutaram no terreno para que o califado tivesse vida curta. Infelizmente, parece que a deles pode durar ainda menos. Para o sucesso dessa dinâmica de contenção islamista protagonizada pelas milícias curdas foram fundamentais os apoios americanos e europeus, mas, como a história nem sempre protege os audazes, acabaram por ser os primeiros a estender a passadeira à invasão e os últimos a mostrar mais uma vez que a falência do processo de integração da Turquia na UE teve como maior efeito a impotência comunitária em influenciar o seu comportamento. Esta relação tende a agravar-se com o tempo.

As guerras nas várias Sírias que hoje subsistem vão tendo avanços e recuos. Assad reergueu-se numa faixa do território à custa de centenas de milhares de mortos, as bolsas do ISIS foram sendo dinamitadas mas não expurgadas no espaço e sobretudo no ideal revolucionário espalhado pelo mundo, e a progressiva federalização de milícias numa única frente (Forças Democráticas da Síria), com as tropas curdas incluídas, permitiu que territórios a norte e a nordeste da Síria ficassem de certa maneira acomodados à oposição, na hipótese de um dia existir um diálogo com Assad capaz de replicar, por exemplo, o que foi feito na Bósnia, salvaguardando assim os mínimos indispensáveis à conivência nacional. O que a investida turca pode acelerar é um pedido de auxílio curdo a Damasco, uma vez que nem os EUA nem os europeus estão disponíveis para os ajudar. Se as Forças Democráticas da Síria vierem a acompanhar esse passo, então podemos dizer que a Turquia acabou a contribuir para a vitória de Assad no xadrez interno sírio, mesmo tendo sido uma das vozes mais audíveis com vista ao seu derrube. O passo em falso de Erdogan pode não ficar por aqui, dado que não garante qualquer boa relação com a vizinha Síria a médio prazo e permite a Teerão reforçar ainda mais a sua posição junto de Damasco, desta feita num quadro em que os EUA objetivamente não querem estar, não procuram influenciar, e em que o acordo de monitorização nuclear iraniano perdeu força política com a retirada de Washington, deixando o Irão mais solto.

Além disso, Ancara colocou-se numa posição quase pária dentro da NATO, dividindo mais uma vez europeus, canadianos e americanos, deixando a estes o roteiro exclusivo de condescendência por omissão. Por outras palavras, não existe nenhum ganho estratégico para a Turquia com esta intervenção no nordeste sírio. O único propósito é interno, depois de o partido de Erdogan ter perdido (à segunda tentativa) as municipais em Istambul e, na dinâmica de consolidação de poder autoritário, Erdogan estar permanentemente tentado a encontrar inimigos em tudo o que mexe. Nesta lógica, o único ganho aparente, embora com custos humanitários elevados, virá do envio de uma parte dos refugiados sírios que estão na Turquia para a zona-tampão entretanto criada, aliviando assim a pressão interna.

Em Washington, a bizarria processual de Trump vai na sua enésima versão. No meio de um turbilhão de tuítes contraditórios, ameaças à destruição da economia de um aliado (Turquia), ataques à imprensa, vitimização face ao impeachment, retirada e posterior manutenção das duas centenas de tropas especiais no norte da Síria, a decisão de permitir um massacre aos curdos foi tomada após um telefonema com Erdogan, sobre a qual ninguém das chefias militares foi tida ou achada. O prémio da Casa Branca à iniciativa de Erdogan foi o anúncio da sua visita a Washington em novembro e a cereja no topo do bolo o veto conjunto com Moscovo à resolução na ONU proposta por europeus, condenando a ação turca. Pela primeira vez, os senadores republicanos deixaram de lado a patética bajulação a Trump e saltaram das cadeiras.

As iniciativas externas de Trump têm um único foco e não passa nem pela paz nem mesmo pela consolidação de um estatuto de primazia americana nas várias esferas da geopolítica atual. O seu grande objetivo é continuar a gerar apoio na sua base de indefetíveis, que considera suficiente para atacar o ciclo eleitoral do próximo ano. O anúncio de retiradas de tropas (da Europa, da Síria ou de qualquer outro sítio), mesmo que embrulhado numa confusão argumentativa de 280 caracteres, serve esse propósito: ir ao encontro da grelha nacionalista que desdenha compromissos militares e diplomáticos com aliados estruturais ou parceiros conjunturais, e criar a ilusão de poupança ao contribuinte, quando o que gera é mais insegurança potencial ao território dos EUA, aos aliados e risco acrescido aos americanos no exterior. O livre-arbítrio do processo de decisão de Trump aproxima-o do perfil autoritário de muitos chefes de Estado atuais, não fosse o caso de eles mesmos terem mecanismos de decisão mais sofisticados do que o presidente americano. Com ou sem os factos que o impeachment vai levantando, Trump é uma ameaça à democracia e à segurança nacional. É para travar casos como este que a Constituição americana foi desenhada. Não resta muito tempo, mas a consciência dos republicanos no Senado também está em avaliação.

Reparem como praticamente não mencionei a UE neste artigo. Sem instrumentos à altura do sistema de poder que está em consolidação entre as grandes potências, a União está focada no seu papel geoeconómico, poder que manifestamente possui nos campos comercial, de ajuda ao desenvolvimento e regulatório. Essa estratégia, assumida pela nova Comissão, está correta, mas o mundo além-fronteiras é bem mais cru e sujo do que isso e precisa de ser acompanhado com as demais dimensões do poder. A diplomacia apenas assente na proclamação de princípios ou em sanções económicas tem os limites contados. Sem músculo militar, a União Europeia nunca vai conseguir influenciar positivamente as várias esferas da globalização. E a guerra vai continuar a ser uma delas.

Investigador universitário

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