O papel

O primeiro grande efeito da luta contra a emergência climática é que a nova geringonça, a geringonça 2.0, vai ser sem papel, paperfree, pense na floresta não imprima este acordo. Vai ser como aqueles casais, que têm as alegrias e desolações dos outros todos, mas que não são casados de papel passado e por isso tentam convencer os outros, e sobretudo a si próprios, de que é diferente. O segundo efeito é que vai atribuir um papel relevante a André Silva na política nacional.

A imprensa vai falar do papel do acordo, do acordo sem papel, as pessoas vão falar do papel, vai tudo falar do papel. Mas o papel não interessa nada, o que interessa é o que não está no papel, ou porque está na cloud e nós não sabemos, ou porque não está porque ninguém sabe o que lá poderia estar a começar pelos próprios. Se assim for, sem papel, ou é uma estabilidade secreta ou, pior, uma estabilidade de intenções, programática, uma promessa de promessa, uma promessa de nada; no fundo, o Bloco com o PS agarrado pelos orçamentos. Pelo menos pelo segundo e pelo terceiro, que o primeiro vai ter de passar e Catarina Martins já disse ao que veio, umas frechadas na saúde privada (os funcionários públicos e aposentados, nas salas de espera da Fundação Champalimaud gostavam de perceber melhor o que isto quer dizer) e a desprivatização, renacionalização, ou nacionalização, como queiram, dos CTT - o que, tendo em conta o que se vai lendo nos jornais, até é capaz de nem desinteressar aos privados que se veem com uma empresa na mão sujeita a muitos dos constrangimentos da ação pública.

O PAN pode querer ou não papel, até para se diferenciar, mas André Silva vai assumir um grande papel. Gosto sempre de elogiar o PAN porque não há melhor forma de acordar os trolls de uma certa direita e de uma certa esquerda: e mais uma prova de que o PAN é um partido muito mais político do que diz e do que se pensa é que a única declaração política na noite das eleições, uma semana atrás, saiu da boca de André Silva. Enquanto Costa falava para o Bloco e para o PCP, encurralando-os ou tentando, dizendo se não queriam a maioria absoluta do PS é porque agora me querem ajudar na estabilidade, estabilidade, estabilidade, repetir estabilidade. Enquanto Rio falava da vitória sobre uma derrota teórica ainda mais humilhante do que aquela que aconteceu, enquanto Cristas com honra saiu depressa de cena, enquanto Catarina Martins falou para Costa, passando por cima dos 50 mil votos perdidos, nessa noite, a única ideia política saiu de André Silva quando disse que tinha acabado a maioria conservadora no Parlamento entre PSD, CDS e PCP. E isto foi talvez a coisa mais importante que foi dita e a mais importante que aconteceu, e o mundo parece que não quis ouvir. Eu explico: André Silva estava a dizer, sobretudo ao PS e ao Bloco, mas também ao Presidente, que agora não há desculpas para não se aprovar aquilo que o PAN considerar legislação transformadora da sociedade, aquele tipo de coisas que esbarravam sempre na direita mais PC. Penso que não concretizou, mas está por certo a pensar em temas como eutanásia, procriação medicamente assistida/maternidade de substituição e uma série de outros temas que esbarraram historicamente com os partidos referidos. Não estou aqui a dizer se isto é bom ou mau (será, como tudo na vida, bom nuns casos, maus noutros), mas apenas a realçar que a coisa que verdadeiramente mudou foi apontada por André Silva. Que se prepara para um papel relevante na política nacional. E, porque a voz é parte do papel, sou só eu que acho que André Silva a falar por vezes lembra Ramalho Eanes no tom, na pronúncia, até no tipo de frases?

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