Vox, a extrema-direita que cresce em Espanha

Partido de Santiago Abascal fez uma demonstração de força, enchendo o Palácio Vistalegre com mais de dez mil apoiantes. Defende a unidade de Espanha e é contra a imigração e o feminismo que "converte os homens em culpados pelo facto de serem homens".

O Palácio Vistalegre, uma praça de touros em Madrid transformada em sala multiusos, assistiu em 2014 ao nascimento do Podemos, um partido lançado a partir do movimento dos indignados que foi o terceiro mais votado nas eleições de 2016. Antes, o espaço tinha sido um referente socialista, onde José Luis Zapatero começava cada campanha eleitoral, dizendo-se que se o PSOE enchesse Vistalegre então isso era sinal de que ganharia as eleições.

Mas desde o último domingo, Vistalegre já não é sinónimo de esquerdas, tendo-se tornado também icónico para a extrema-direita espanhola. A sala multiusos encheu-se nesse dia de mais de dez mil apoiantes do partido Vox, liderado pelo antigo dirigente do Partido Popular (PP) Santiago Abascal, numa demonstração de força que chamou mais do que nunca a atenção para a formação que nasceu oficialmente há já quatro anos. No último ano, terão alegadamente triplicado o número de militantes.

"A Espanha viva quer eleições já" foi o lema do encontro, em que abundaram as bandeiras espanholas. As propostas do partido passam pela defesa da unidade de Espanha, a luta contra a imigração e também contra o feminismo radical. O PP, liderado por Pablo Casado, foi apelidado de "direita cobarde", enquanto o Ciudadanos de Albert Rivera de "cata-vento laranja" (a cor do partido). Os socialistas, do primeiro-ministro Pedro Sánchez, foram apodados de "traidores" e "vigaristas", enquanto o Podemos de Pablo Iglesias é considerado o partido das "receitas fracassadas do comunismo".

No barómetro CIS, de setembro, o Vox surgiu com 1,4% das estimativas de voto. Mas outras sondagens já lhe dão 3%. Nas eleições de há dois anos, o partido não foi além dos 0,2% de votos nas urnas. A confirmarem-se os números, o partido elegeria um deputado por Madrid (onde tem a maior parte de apoio) para o Congresso espanhol. Nas europeias de maio, onde Espanha poderá eleger 59 eurodeputados, bastará cerca de 260 mil votos para eleger um, um número possível para o Vox, graças ao sistema de círculo eleitoral único.

Abascal, o rosto do Vox

"À força de chamar 'facha' a Rivera, a [Mariano] Rajoy ou a [José María] Aznar, ficámos sem adjetivos para descrever Santiago Abascal. E não é um problema simplesmente semântico", escreveu o analista Isidoro Tapia num artigo no diário digital El Confidencial, lembrando que "facha" é o insulto político mais usado em Espanha. E avisou que é preciso haver "máxima preocupação" em relação ao Vox.

"Quando nos chamam isso é porque fazemos o correto para enfrentar a esquerda e para combater os inimigos de Espanha", disse Abascal numa entrevista ao jornal ABC. Questionado sobre se o Vox é um partido que está na extrema-direita, respondeu: "Não, está na extrema necessidade, no senso comum e nas coisas normais que nos ensinaram os nossos pais."

Abascal, que nasceu em Bilbau há 42 anos, estudou Sociologia e, seguindo as pisadas do pai, que foi um líder histórico da Aliança Popular, militou no Partido Popular desde os 18 anos. Chegou a ser líder das Novas Gerações (a juventude do PP) no País Basco e deputado regional no parlamento desta autonomia entre 2004 e 2009, mas acabou por deixar o partido em 2013, acusando Rajoy de "trair as ideias do PP". Em causa não só os casos de corrupção que afetavam o partido no governo, mas também em desacordo com a política antiterrorista e de resposta aos nacionalismos, tanto basco como catalão.

Em 2014, lançava o Vox juntamente com outros ex-militantes do PP, como José Antonio Ortega Lara (ex-guarda prisional que passou 532 dias sequestrado pela ETA).

Cem medidas para Espanha

No evento em Madrid, o Vox apresentou as suas "cem medidas para a Espanha viva", uma espécie de programa de governo. A primeira medida, dentro da defesa da unidade espanhola, é a suspensão da autonomia catalã "até à derrota sem paliativos do golpismo", seguida da ilegalização de "partidos, associações ou ONG que defendam a destruição da unidade territorial". A longo prazo, é a favor do fim das autonomias.

O partido quer ainda revogar a Lei da Memória Histórica. "Nenhum parlamento tem legitimidade para definir o nosso passado e ainda menos excluindo os espanhóis que diferem das suas definições. O passado não pode ser usado para nos dividir, pelo contrário, devemos prestar homenagem a todos aqueles que, de diferentes perspetivas históricas, lutaram pela Espanha", alegam os dirigentes do Vox. Estão contra a exumação de Franco do Vale dos Caídos.

Outro tema central no programa do Vox é a imigração, ou melhor, a luta contra a imigração. A formação defende a "deportação dos ilegais para os seus países de origem", mas também dos imigrante legais que tenham cometido crimes graves (ou reincidido num crime mais leve). A imigração será feita através de quotas consoante as necessidades da economia espanhola, privilegiando-se nacionalidades que partilham idioma e importantes laços de amizade com Espanha.

"Identifico-me com a identidade cultural europeia e gostaria que se preservasse. Não acredito no multiculturalismo nem nessas misturas com as quais é impossível viver. Não tenho nenhum problema com a cor das pessoas, mas com o que elas têm dentro da cabeça. Esse é o meu problema com certa imigração e, sobretudo, com as necessidades da economia nacional", disse numa entrevista ao El País.

A nível internacional, defendem um novo tratado europeu na linha do defendido pelos países do grupo de Visengrado em relação à política de fronteiras, soberania e respeito pelos valores da cultura europeia.

Na área económica, o partido quer a redução dos impostos e o aumento dos benefícios para as famílias numerosas. Na educação quer defender a língua espanhola (as línguas cooficiais serão opcionais) e na saúde proibir o aborto, com a defesa da vida desde a conceção até à morte natural, assim como acabar com as barrigas de aluguer.

Querem ainda revogar a lei de violência de género (defende uma lei de violência intrafamiliar que proteja todos por igual), sendo contra toda a legislação que discrimine um sexo do outro, defendendo acabar com os organismos feministas radicais subvencionados. "Há um feminismo associado a uma lei que converte os homens em culpados pelo facto de serem homens", disse Abascal ao El País.

Reações partidárias

"A radicalização da oposição está a alimentar a extrema-direita, já o vimos neste fim de semana", disse o primeiro-ministro Pedro Sánchez, referindo-se ao comício no Vistalegre. "Peço-lhes que regressem à moderação, que façam oposição, obviamente, mas em questões de Estado que façam o mesmo que fez o PSOE, apoiar o governo até quando houve discrepâncias", disse o socialista, questionado sobre a razão pela qual decidiu não ir afinal ao Senado para responder sobre a polémica da sua tese (o Vox apresentou uma queixa no Supremo Tribunal contra ele).

Por seu lado, o líder do PP disse respeitar todos os militantes do Vox que estiveram no Vistalegre, lembrando até ter "uma relação estupenda com o seu presidente". Recordando o passado de Abascal no PP basco, Casado disse que este defende os mesmos "valores essenciais" que o Partido Popular ou o Ciudadanos, apesar de lembrar que há outros princípios que não partilham. Casado referiu que a sua aposta é "concentrar e otimizar esforços" para que o PP seja "força hegemónica" no centro-direita e tenha maioria para afastar Sánchez do poder.

Já Albert Rivera, líder do Ciudadanos, disse respeitar "todos os partidos", optando por não reagir ao ato multitudinário do Vox. "Quando formos às urnas veremos se a extrema-direita tem espaço em Espanha", limitou-se a dizer.

O Podemos foi mais crítico, com o secretário da Organização, Pablo Echenique, a reagir no Twitter: "Às pessoas que se reuniram no Vistalegre: se alguém defende uma monarquia que pode cometer crimes com impunidade e cobra 20 mil euros de salário público por mês, esse alguém não defende Espanha. Defender Espanha é defender o seu povo trabalhador, não a sua casta privilegiada."

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