Um líder europeu

Donald Tusk não devia ter sido escolhido para presidente do Conselho contra a vontade do seu governo (em 2017), e não devia falar de política nacional quando ainda preside ao Conselho, mas ainda bem que foi e que o faz.

A Europa precisa de quem a explique e defenda, e Tusk está disposto a fazê-lo onde é difícil e importante. Além disso, tem uma história que o define e um discurso que é mais do que banalidades ou vulgaridades. Se, assim, reconquistar a Polónia, nas presidenciais de 2020 (e a Europa de Leste, por caminho), pode ser o começo da nova reunificação europeia. Pelo menos há esperança.

Donald Tusk nasceu na Polónia há 61 anos, fez política na oposição ao regime comunista, passou fugazmente pela prisão, e depois da queda do Muro e de tudo o que se seguiu acreditou nas virtudes da economia de mercado, manteve uma relação estreita com a América, tendo tido, enquanto foi primeiro-ministro da Polónia, Radoslaw Sirkoski (também conhecido por ser casado com a historiadora e jornalista americana Anne Applebaum) como ministro dos Negócios Estrangeiros e, assim, ajudou a construir uma democracia liberal para lá da antiga cortina de ferro. Tusk é o político da Europa de Leste que corresponde ao ideal: europeísta, ocidentalista, democrata, liberal.

Tusk é o político da Europa de Leste que corresponde ao ideal: europeísta, ocidentalista, democrata, liberal.

Na semana passada, no congresso do Partido Popular Europeu, em Helsínquia, em linha com o que tem feito nos últimos tempos, foi claro e incisivo. Ao mesmo tempo que, a propósito das migrações, reconheceu que "as pessoas valorizam a liberdade e a abertura somente enquanto se sentem seguras", disse que "se é contra o Estado de direito e a independência do poder judiciário (...), se não gosta da imprensa livre e das ONG, se tolera a homofobia, o nacionalismo e o antissemitismo (...), se coloca o Estado-Nação contra ou acima da liberdade e da dignidade de um indivíduo (...), se deseja conflito e divisões globalmente e dentro da União Europeia, se apoiar Putin e atacar a Ucrânia, se é a favor do agressor e contra a vítima (...), se quer substituir o modelo ocidental da democracia liberal por um modelo oriental de democrata autoritário, não é democrata-cristão".

Tusk falava contra Orbán e a sua permanência no PPE, evidentemente, mas a mensagem serve para todos os que, a leste e não só, acompanham este discurso. E, ainda que a matriz do PPE seja a democracia cristã, é óbvio que falava, também, como conservador liberal que é. Dias depois, numa manifestação em Łódź, na Polónia, disse que "os que falam com entusiasmo do brexit e do isolacionismo americano e que elogiam o presidente Putin são os que inevitavelmente colocarão a independência da Polónia (e da Europa, acrescento eu) em risco".

Sem medo de que a direita radical lhe chame moderado colaboracionista com a esquerda, e que a esquerda radical o acuse de ser securitário, em Bruxelas há um político inspirador. Fora da política, poucos saberão quem é, e mesmo aí poucos se lhe referem com o entusiasmo devido. Fazem mal. A Europa tem um político com perfil de líder: Donald Tusk. E, além do mais, tem sentido de humor.

Especialista em assuntos europeus

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