Há vários dias que Kiev tem vindo a baixar as expectativas quanto à propalada contraofensiva a ter lugar na primavera, mas agora foi o próprio presidente quem revelou que a mesma não terá lugar tão cedo. A justificação é a falta de armamento necessário para atingir os objetivos militares, no mesmo dia em que Londres tornou oficial o envio de mísseis de longo alcance, mais um tabu quebrado na assistência dos aliados à Ucrânia..Em entrevista coletiva a estações televisivas europeias, Volodymyr Zelensky disse que o exército ucraniano ainda precisava de "algumas coisas", incluindo veículos blindados que estavam "a chegar em lotes", os quais vão servir as brigadas de combate que já estarão "em prontidão", depois de algumas terem recebido formação em países aliados..No entanto, sem o equipamento, Zelensky recusa dar ordem de ataque. "Podemos avançar e, penso eu, sermos bem-sucedidos. Mas perderíamos muita gente. Penso que isso é inaceitável. Por isso, temos de esperar. Ainda precisamos de um pouco mais de tempo", afirmou, sem entrar em pormenores sobre o que esta pausa significa em concreto..Depois de um ataque de inverno russo dirigido às infraestruturas energéticas (e de caminho a áreas residenciais), a resposta ucraniana é há muito aguardada não só pelos ucranianos mas também pelos aliados..Num documento norte-americano datado de fevereiro e revelado pelo Washington Post depois de o militar Jack Teixeira ter transferido vários documentos classificados para uma aplicação de mensagens, as perspetivas de sucesso de uma contraofensiva eram baixas. A dificuldade de reunir tropas, armamento e munições em número suficiente era a causa apontada para a forte probabilidade de essa operação resultar apenas em "modestos ganhos territoriais"..Acrescente-se que nos últimos meses os russos fortificaram e minaram posições de Kherson a Lugansk, ao que se juntam as dificuldades trazidas pela transposição e manutenção na outra margem de um rio como o Dniepre - exatamente as dificuldades que os invasores sofreram..Sem querer definir o que é para si um sucesso, Zelensky disse ter confiança no avanço das suas forças e que o pior que pode acontecer é um "conflito congelado", um pouco à imagem do que foi sucedendo no Donbass entre 2014 e 2022. Há dias, o ministro da Defesa Oleksii Reznikov advertiu para as "expectativas sobrevalorizadas" e, como tal, o resultado poderá levar a uma "desilusão emocional"..Sem contar ainda com os tanques norte-americanos Abrams e muito menos com aviação de última geração, pode no entanto receber um importante reforço no armamento: os mísseis de cruzeiro Storm Shadow. Depois de ter sido noticiado há dias que o Reino Unido e um grupo de países nórdicos publicaram um anúncio de concurso para o fornecimento de mísseis com um alcance até 300 quilómetros, o ministro da Defesa britânico Ben Wallace confirmou que os mísseis estão a caminho ou já em mãos ucranianas..A versão britânica desta arma é disparada de aviões e compatível com as aeronaves soviéticas. A francesa pode também ser lançada de submarinos ou navios..Quem se terá reforçado em dezembro com armas e munições de África do Sul foram os russos através de um navio fundeado na Cidade do Cabo. A acusação é do embaixador dos EUA em Pretória Reuben Brigety. A presidência sul-africana diz não haver provas e comprometeu-se em lançar uma investigação independente sobre as alegações. África do Sul diz-se neutra e absteve-se de condenar Moscovo nas Nações Unidas, muito menos juntando-se às sanções. Em sinal de apoio, realizou manobras navais conjuntas (e com a China) em fevereiro e encara abandonar o Estatuto de Roma para poder receber Vladimir Putin na cimeira do G20 em agosto..cesar.avo@dn.pt