Do tipo de sangue à asma: o que a ciência ainda está a descobrir sobre a covid-19

O novo coronavírus foi identificado em dezembro e são já muitos os estudos sobre ele, por vezes até contraditórios e que acabam por ser notícia sem ainda terem passado pelo escrutínio de outros cientistas e a ser depois postos em causa. A melhor prevenção continua a ser o distanciamento físico e a higiene.

Primeiro veio a ideia de que medicamentos contra a malária podiam ajudar no combate ao coronavírus ou que este não resistia ao tempo quente. Depois, que a nicotina podia até proteger os pacientes ou que a asma não seria um fator de risco, já para não falar das versões contraditórias sobre o uso de máscara. Agora a teoria é que o tipo de sangue pode indicar quem está menos suscetível a desenvolver sintomas graves e acabar nos cuidados intensivos.

Só uma vacina poderá impedir a propagação do coronavírus, oficialmente detetado em dezembro na China e para o qual não há medicamentos indicados para a cura. Os médicos têm usado vários métodos e fármacos para diminuir os sintomas e ajudar o organismo a defender-se, mas nada tem demonstrado uma eficácia a 100%. A única forma comprovada de não contrair o vírus é o distanciamento físico, podendo uma higiene adequada das mãos e medidas de prevenção como espirrar para o antebraço ajudar a evitar transmissões.

Por todo o mundo, há cientistas que estudam os efeitos da covid-19 em vários pacientes, publicando artigos científicos que acabam por ser escrutinados nas redes sociais, ainda antes de terem sido revistos pelos respetivos pares. Alguns acabam até por ser postos em causa.

Veja a seguir algumas teorias de que já se falou, sabendo que a doença está a ser estudada há pouco mais de seis meses e que as conclusões podem vir a alterar-se com o passar do tempo e a análise de mais dados.

Pode o tipo de sangue ter influência?

Um estudo preliminar pré-publicado no site medRvix, que ainda não foi certificado pela revisão entre pares, conclui que os doentes com tipo de sangue A estão mais suscetíveis a falha respiratória do que os que têm tipo de sangue O, que parecem, pelo contrário estar protegidos.

O estudo analisa quase dois mil doentes hospitalizados em Espanha e Itália, deixando claro, contudo, que há casos graves e menos graves de covid-19 em todos os tipos sanguíneos.

As conclusões parecem em linha com outros estudos com pacientes chineses e norte-americanos. No caso da empresa de testes genéticos 23andMe, o estudo que ainda está a decorrer mas que envolve 750 mil pessoas parece ir no mesmo sentido. Aquelas com tipo sanguíneo O têm 9% a 18% menos hipóteses de ter resultados positivos a covid-19 do que pessoas com outros tipos sanguíneos.

Medicamento antimalária funciona?

Desde o início da pandemia que se tem falado no uso dos medicamentos antimalária cloroquina ou hidroxicloroquina para ajudar a combater o coronavírus, com o próprio presidente norte-americano, Donald Trump, a tomar como medida de prevenção.

Estavam a ser feito vários testes clínicos até que a Organização Mundial da Saúde (OMS), com base num estudo publicado na revista científica The Lancet, resolveu suspendê-los. Tudo porque este estudo alegava que havia sério risco de complicações, nomeadamente cardíacas, em pacientes que tomassem o fármaco.

No entanto, a veracidade de tal estudo acabou por ser posta em causa por vários especialistas e por uma investigação do jornal The Guardian, levando a revista científica a expressar as suas dúvidas e a retirar o artigo. E a OMS retomou os ensaios.

Depois há um estudo canadiano com 821 adultos, publicado no New England Journal of Medicine, que demonstrou que o efeito preventivo da hidroxicloroquina será o mesmo que um placebo.

O coronavírus desaparece com o calor?

Há vários estudos a mostrar que o calor poderá ajudar a combater o coronavírus, que oficialmente apareceu no inverno na China. Contudo, o facto de o vírus estar também em países quentes prova, à partida, que o calor não ajuda a matar a covid-19.

"As nossas projeções sugerem que temperaturas mais quentes e exposição moderada aos raios UV podem trazer uma modesta redução na taxa de reprodução; contudo, as mudanças no tempo sozinhas não são suficientes para conter totalmente a transmissão da covid-19", segundo um estudo da Universidade de Harvard.

A própria OMS alerta contra o mito. "Exporem-se ao sol ou a temperaturas mais elevadas do que 25 graus centígrados NÃO previne a covid-19. Podem apanhar covid-19 independentemente de estar sol ou calor. Países com temperaturas elevadas reportaram casos de covid-19", lê-se no site, reiterando ainda que o coronavírus pode ser transmitido em áreas de clima quente ou húmido e que a neve ou o frio também não maram o vírus.

A nicotina protege?

Um estudo preliminar num hospital em França pareceu mostrar, ainda em abril, que era estatisticamente menos provável que um fumador fosse hospitalizado por causa da covid-19 e que iam fazer um estudo com os pensos de nicotina. Os autores lembravam, porém, que, no caso de serem internados, os fumadores acabavam por desenvolver sintomas mais graves (teorizando que tal podia dever-se à falta de nicotina porque eram obrigados a deixar de fumar).

Em causa parece estar o facto de a nicotina (a substância que torna os cigarros viciantes) poder interferir com a enzima ACE2, que se pensa poder estar envolvida na covid-19, sendo certo que os recetores nas células aos quais a nicotina se une são também aqueles que o coronavírus parece afetar.

O impacto do estudo foi tal que, em França, o Governo resolveu limitar a venda dos pensos de nicotina, para evitar que as pessoas acabassem por ingerir demasiada nicotina na esperança de travar o coronavírus.

Desde o início da pandemia que fumar é considerado um fator de risco, por ser verdade para uma série de infeções respiratórias e o coronavírus afetar principalmente os pulmões. Já depois deste estudo, a Organização Mundial da Saúde reiterou o perigo que fumar representa (mata mais de oito milhões de pessoas todos os anos no mundo) e lembrou que há "informação insuficiente" que ligue a nicotina à prevenção da covid-19.

A asma é ou não um risco?

Sendo uma doença respiratória, a asma foi incluída na lista dos fatores de risco para o coronavírus, mas em abril as autoridades de saúde revelaram a lista das dez comorbilidades detetadas nas vítimas mortais de covid-19, e a asma não aparecia no top 10 (e continua sem aparecer). Segundo as autoridades, só 5% dos doentes que tinham morrido com coronavírus tinham asma, um número reduzido tendo em conta o número de doentes de asma no estado (em 2008 estimava-se que 14,1% dos adultos tivessem a doença).

Um estudo publicado na The Lancet, precisamente sobre a reduzida prevalência da asma entre doentes com covid-19 na China, mencionava a possibilidade de os tratamentos usados pelas pessoas com doenças respiratórias crónicas poderem reduzir o risco de infeção ou de desenvolvimento de sintomas que levem a fazer o teste. Na China, cerca de 75% dos doentes usam corticosteroides inalados. In vitro, os corticosteroides junto com broncodilatadores mostraram suprimir o coronavírus.

Já em março, a Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica dizia que "a asma, por si só, não parece ser um fator de risco para contrair a infeção pelo coronavírus nem para ter formas mais graves desta doença. No entanto, a asma que não esteja bem controlada poderá contribuir para uma maior gravidade do quadro que se associe à eventual infeção covid-19 em asmáticos", pelo que se recomendava a cautela.

No Reino Unido, durante o confinamento, dois milhões de doentes com problemas respiratórios relataram até a diminuição dos sintomas, por causa da redução na poluição atmosférica. No caso da asma, um em quatro doentes notaram melhorias, de acordo com a British Lung Foundation.

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