E você com que idade gosta dos políticos?

Nesta semana, Tintin fez 90 anos. A série Os Sopranos, 20. Um escritor francês disse não apreciar mulheres de 50 anos, preferindo as de 25. Como o tempo passa... Ah, e antes que seja tarde, Luís Montenegro disse: "O estado do PSD é mau, preocupante e é irreversível." Por isso o jornalismo é fascinante e útil. Todos os assuntos aludidos merecem um bocejo por mil razões, e por outras tantas permitem uma boa conversa. É só saber escolher os ângulos.

A 10 de janeiro de 1929, no suplemento juvenil do jornal belga Le Vingtième Siècle, apareceu o jovem repórter internacional na sua primeira história: Tintin no País dos Sovietes. O jornal era dirigido pelo abade Norbert Wallez, então admirador de Mussolini e futuro condenado por colaboração com os nazis, na ocupação da Bélgica.

Hergé começou, pois, ao serviço de uma política feia - tivesse sido isso tomado em conta e a sua carreira apagada depois da derrota nazi, da memória de Tintin só restaria aquele mecha ridícula na cabeça rapada. Só os futebolistas contemporâneos pareceriam lembrar-se dele... Que perda seria não termos o capitão Haddock e as suas pragas para os nossos 7 e 77 anos.

Com uma semana de intervalo, Popeye, o Marinheiro, faz também 90 anos mas, porque jornalismo é escolha, prefiro o mais jovem aniversário dos Sopranos (nesta semana fez 20 anos o primeiro episódio de The Sopranos, isto é, da nova televisão, a oitava arte). Na verdade, do Soprano, Tony, aka James Gandolfini.

Um personagem tão intenso, deprimido e violento que não caberia num filme à Hollywood, só em muitos episódios semanais, divididos por várias temporadas. Um dia, estava eu no meu sofá e ele ia jantar num restaurante caro de Nova Iorque. Tony cumprimentou o velho empregado de mesa e sentou-se com um sócio de coisas sujas. Em flashes, o mundo rodava na sala deles e à volta do meu sofá. Um casal jovem entrou e sentou-se noutra mesa. O jovem ficou com o boné enfiado na cabeça.

Fiz parágrafo porque já me esqueci do casal, voltei à conversa com os mafiosos. Reparei no olhar bovino de Tony, distraído por qualquer coisa. O rapaz do casal foi grosseiro com o velho empregado, mas foi breve. Voltei à conversa dos chefões. Tony não falava, escutava distraído. Murmurou uma desculpa ao companheiro, levantou-se e dirigiu-se à mesa do casal. Disse ao rapaz: "Tira o boné." Sem grito. O rapaz fez um sorriso sarcástico, "o quê?...", e olhou ainda impertinente para a companheira. Voltou-se para Tony Soprano. Este estava quieto e calado. O rapaz tirou o boné.

Raramente vi um canalha tão justamente posto na ordem e na moral. Tony voltou à mesa para combinar mais uns assassínios ou talvez só roubos. Não digo que aqueles segundos sejam o pináculo da arte mundial, afinal há duas ou três páginas assim em Fiódor Dostoiévski - mas que segundos! E o tempo passa... E deixa sequelas, ele e a Lei da Gravidade. Yann Moix é o escritor francês, de 50 anos, que não gosta de mulheres de 50 anos, lançou uma das polémicas da semana.

O grande cientista Newton sabe - e também menores, como os urologistas ou qualquer médico de doenças de homens -, a Lei da Gravidade não discrimina géneros. Se o soubéssemos todos, o foco das confissões de Moix (são as mulheres de 50 anos interessantes?) seria mais alargado. Sobre gostos de homens por mulheres, embora sendo aquele de que mais julgo entender, recorda-me sempre a minha perplexidade por Onassis ter escolhido Jacqueline Kennedy, quem?, preterindo Maria Callas, que cantou a Casta Diva, na Norma de Bellini. Não entendo mas também não polemico.

E resta a frase de Luís Montenegro: "O estado do PSD é mau, preocupante e é irreversível." Que dizer? Isto: raro bom português usado por político, porque claro. Dizer "mau, preocupante", do estado do seu partido, seria só crítica de adversário impotente. Acrescentando "e é irreversível", passa a repto que amarra Montenegro à luta interna. Os comentadores, em vezes de ínvias adivinhações, deveriam insistir em pedir explicações sobre o ponto da situação desta rara sinceridade política.

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