Premium O passado é um lugar estranho

Grândola, onde hoje existe até um Observatório da Canção de Protesto, já teve uma Casa da Roda dos Expostos, que recebeu crianças enjeitadas durante quase um século. Chamavam-lhe berço público.

A história dos expostos de Grândola foi contada pelo erudito local Germesindo Silva num belo livro publicado há um par de anos pelas edições Alfarroba. Calcula o autor que entre 1500 e 1900 terão sido expostas no actual território do concelho cerca de 2000 crianças, à média de cinco por ano, o que corresponde a 3% dos baptizados durante o mesmo período.

Em torno das crianças perdidas, deixadas na Roda, às portas de igrejas ou de casas particulares, teceu-se ao longo dos séculos um novelo tenebroso de negociatas corruptas e vastas conspirações. Entre conluios para receber os subsídios, mentiras sobre a idade e a morte dos expostos, abortos clandestinos e infanticídios, havia de tudo, até situações de falsos abandonos, em que a criança acabava por ser criada pelos seus familiares ou pelas próprias mães, que afirmavam aos oficiais camarários ter deparado com uma criança à sua porta apenas para receberem o correspondente abono. Em 1682, um tal de João Rodrigues Canilhas teve consigo uma criança durante mais de um mês e só então foi queixar-se às autoridades, dizendo não ter meios para a sustentar e, obviamente, negociando com sucesso o pagamento de uma quantia mensal de setecentos réis. Pela mesma altura, uma exposta de nome Antónia foi disputada por Responsa Mateus, viúva, e pelo próprio procurador do concelho, Gomes Fernandes. Também alvo de cobiça, Manuel fora criado por João Alves Paraguasinho, mas denúncias de maus-tratos fizeram que a criança fosse confiada ao procurador Jorge Luís Verdelho, até que o novo procurador, Manuel Figueira, quis chamá-la a si, envolvendo-se os dois numa disputa pela guarda parental, com Verdelho a proclamar que não entregaria o menor, nem sequer à força.

Grândola chegou a ser importadora de bebés de Lisboa, vindos do Hospital de Todos-os-Santos, tal era o interesse das amas da terra, e de outros envolvidos, em ter crianças à sua guarda. As autoridades lançavam impostos adicionais para custear as despesas deste esquema (e para pagar os prémios pelos lobos abatidos no concelho...), recebendo cada ama uma quantia que dava para comprar por mês 60 litros de leite ou 17 quilos de pão, isto é, valores mais do que suficientes para tratar de uma criança. O facto de muitas delas morrerem dever-se-á a um sem-número de factores, mas não devemos excluir, como é óbvio, que as amas ficassem com o dinheiro e não o empregassem nas crianças postas a seu cuidado. A taxa de mortalidade era elevadíssima, muito maior entre os expostos do que nas demais crianças: em pleno século XIX, quase 80% morriam antes de completar um ano e só entre 10% e 20% chegavam a completar 7 anos.

As sucessivas inspecções dos provedores da comarca de Setúbal iam produzindo relatórios tão horripilantes quanto inconsequentes. "Custa a aparecer um Exposto vivo entre os inumeráveis que constam deste Livro", anotou, desalentado, o provedor no livro de registo dos expostos, em Junho de 1813. Pouco depois, em 1817, o provedor Joaquim Homem de Carvalho determinou, entre o mais, que se desse ao exposto Teodoro duas varas e meio de pano de linho para camisas e seis côvados de bombazina para jaqueta e calças, além de dois côvados de chita para um vestido da exposta Maria, a qual se encontrava sob a alçada da ama Micaela de Corte Vazio. Anos mais tarde, em 1821, um provedor desabafaria à margem do fólio: "Que disgraça! Este livro parece mais Livro dos óbitos do que de Expostos."

Devia tudo isto servir de lição e aviso aos saudosistas patetas do antigamente-é-que-era-bom. Não, não era. Antigamente não era nada bom, mesmo nada. The past is a foreign country; they do things differently there, escreveu um dia o romancista inglês L. P. Hartley. O passado é um lugar estranho, de facto. Os que o romantizam e glorificam, tristes moradores da Rua dos Retrovisores, bem deveriam meditar nesta história dos expostos de Grândola, ou em muitas outras histórias de tantos outros lugares. Regra geral, o passado foi infinitamente pior do que o presente, foi um lugar de miséria e de pobreza extrema, de gritantes injustiças, de um desprezo enraizado e profundo, quase militante, pelos mais elementares valores cristãos, como o respeito aos outros e o cuidado devido a cada ser humano. À excepção da droga, da pornografia e de Bruno de Carvalho, tudo o que de mau ocorre nos nossos dias já existia no passado em muito pior, porque mais generalizado e tranquilamente aceite: racismo e sexismo, alcoolismo, pedofilia e incesto, maus-tratos domésticos, corrupção cima abaixo da sociedade inteira. Em 1878, só 3,6% das mulheres de Grândola sabiam ler.

Além das muitas benesses que a todos trouxe coisas palpáveis e tangíveis, o Estado social teve um outro efeito, esse imaterial, menos perceptível mas nem por isso menos importante: libertou milhões de pessoas de um medo latente, omnipresente e diário, o pavor de cair na miséria súbita. O pavor com que, há pouco mais de um século, uma mãe escreveu em caligrafia manhosa:

Esta criança nasceu no dia 8 de Fevereiro de 1881 às 8 horas da manhã. Pede-se que a baptizem e lhe ponham o nome de Ângela. Pede-se mais que seja padrinho o Ascênsio da estalagem em Grândola.

Passado? Nunca mais.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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