Premium O parente pobre

Foi pouco valorizado, mas não deixou de ser caricato assistir à cimeira dedicada aos Balcãs que teve lugar em Londres em meados de julho. De um lado, o anfitrião, o Reino Unido, em acelerado passo para uma saída caótica da União Europeia, ainda por cima com o ministro dos Negócios Estrangeiros demissionário na véspera. Do outro, um grupo de seis Estados em diferentes níveis de diálogo com Bruxelas para aderirem à UE. Não só foi caricato como mostrou a constrangedora situação em que mergulhou a política britânica, sem um pingo de autoridade geopolítica ou um rasgo de salvação estratégica. Mas não é de Londres que vos quero falar. É, isso sim, dos Balcãs, o parente pobre da Europa e a região mais importante ao sucesso do modelo de integração nas próximas duas décadas.

Se esta tem sido uma região pouco valorizada nas iniciativas políticas europeias dos últimos anos, é preciso não esquecer que os Balcãs ocidentais foram palco da única intervenção humanitária ocidental em território europeu no pós-Guerra. NATO e UE têm, por isso, uma responsabilidade singular sobre o futuro desses países. Além disso, será igualmente nos Balcãs que se medirão os méritos tradicionalmente associados ao alargamento destas grandes organizações ocidentais. Há duas razões para tal. Primeiro, deixa de se poder vender o alargamento como o garante da democratização dos Estados europeus, isto é, a pacificação das suas instituições internas e o respeito por uma grelha constitucional normalizada dentro dos padrões comunitários. E se houve projeto de sucesso progressivo na Europa depois de 1945, foi o alargamento das suas principais organizações de reorganização securitária e política. Segundo, o falhanço do alargamento aos Balcãs significa mimetizar o que tem acontecido na relação com a Turquia, o que na prática resultou numa deterioração da qualidade da democracia turca, no crescimento do seu nacionalismo e na diminuição do alcance geopolítico da UE.

Ora, tudo o que os Balcãs não precisam é de um declínio acentuado dos seus quadros políticos e securitários. Desde logo pelas características mais ou menos partilhadas entre os seis países em questão - Sérvia, Montenegro, Albânia, Bósnia, Macedónia e Kosovo: economias frágeis, instituições débeis, elevado risco político, corrupção endémica, crime organizado sem o controlo desejável, alto desemprego jovem, fraca inovação tecnológica, fuga de cérebros, infraestruturas deficitárias, fiscalidade pouco competitiva, comércio externo pouco dinâmico, nacionalismo crescente e expectativas pouco alinhadas com os calendários postos em cima da mesa pela UE. Já para não falar na influência russa e turca. Mesmo tendo a Sérvia e o Montenegro o horizonte de 2025 para a integração, nada garante que seja cumprido pelas partes. A própria vontade demonstrada na cimeira de Sófia (maio 2018) em abrir a etapa negocial mais avançada com a Albânia e a Macedónia em junho de 2019 vai depender de vários fatores, entre eles o resultado geral das eleições para o Parlamento Europeu, um mês antes. Como disse Emmanuel Macron nessa cimeira de Sófia, "primeiro o aprofundamento da integração, depois o alargamento aos Balcãs", travão acompanhado, por exemplo, pela Holanda.

A questão é que o ceticismo francês não tem nada que ver com escalonamento estratégico entre reformas e alargamento - como o célebre discurso de Macron na Sorbonne mostrou -, mas sim com o medo de que o compromisso público com a adesão dos Balcãs alimente o debate interno sobre imigração, incendiando a campanha para as europeias. Valia a pena, no entanto, trazer alguma seriedade ao debate em vez destes taticismos constantes: Macron sabe perfeitamente que com ou sem questão balcânica a imigração estará sempre no centro do debate francês e europeu. Sempre. O que se perdeu então com o recuo no compromisso francês? O que acima levantei: o mimetismo na gestão da adesão da Turquia até que a perdemos de vez. Pode a UE dar-se ao luxo de perder os Balcãs para nova etapa descontrolada de nacionalismos sob fantasmas do passado recente? Não.

Para que tal não aconteça valia a pena apostar em dois caminhos interligados. Por um lado, municiar o debate público a partir de Bruxelas de um sentido de progressos palpáveis conquistados na região. O fim da disputa com a Grécia sobre o nome da Macedónia foi importante, mas não pode perder dinâmica. É preciso assegurar apoios técnicos e financeiros aos países em negociação para que sintam que a evolução das negociações tenha um propósito tangível patamar a patamar. Por outro lado, valia a pena apostar num diálogo muito mais profícuo entre as instituições europeias, os seus líderes - mas também líderes dos Estados membros comprometidos com a consolidação da integração - e os diversos atores e partidos que nos Balcãs são agentes ativos da adesão, maximizando os seus méritos e uma narrativa positiva em redor da UE. Se há coisa que esta precisa é de virar a página do negativismo associado às suas políticas e reconstruir uma nova história capaz de envolver democraticamente os cidadãos de toda a Europa.

Este é o momento. Estamos a pouco menos de um ano das eleições para o Parlamento Europeu e muitos partidos nacionalistas apostam tudo nessa data como avaliação a vários governos de sinal oposto. Outros, mais influentes nas governações, tenderão a reforçar a sua marca identitária para evitar cópias ou brechas discursivas. No pior dos cenários, o grupo parlamentar nacionalista pode crescer e a linha orbanista no PPE também, desequilibrando mais o Parlamento Europeu e dificultando a validação de uma nova Comissão Europeia totalmente comprometida com a integração, o alargamento, as reformas comunitárias, o livre-comércio e uma visão geopolítica para a UE.

Vale a pena não esquecer este pormenor: a maioria dos europeus não tem qualquer memória da guerra, enquanto anátema da história continental capaz de ser coberta por uma integração entre Estados pacífica, democrática e próspera. Mas a geração mais nova nos Balcãs continua marcada pelas guerras da década de 1990. Ou a UE é o modelo agregador da pacificação regional, ou perde propósito. Servir apenas como entreposto comercial não fará da União um ator de primeira grandeza na política internacional.

Investigador universitário

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