"As descobertas que fizemos vão ficar para a ciência e para o mundo"

Cientista da NASA, coordenadora de três dos grupos de investigação da missão espacial Planck, que mostrou um novo retrato do Universo, a portuguesa Graça Rocha é uma das galardoadas deste ano do prémio Gruber de Cosmologia

Vai tudo dar lá atrás, ao doutoramento. Nesses anos de 1990, Graça Rocha mergulhou de cabeça num tema que ainda era olhado com desconfiança por uma parte da comunidade científica: a radiação cósmica de fundo, aquela "luz fóssil" que vem dos primórdios do universo. Teve a intuição certa, e aquele foi o início de um percurso que a levou à NASA e à participação na missão europeia Planck, que mudou a cosmologia e deu aos cientistas uma nova a compreensão do universo. A cosmóloga portuguesa Graça Rocha é uma das premiadas Gruber deste ano - com os mais de 300 cientistas da colaboração Planck -, uma das mais prestigiadas distinções em cosmologia. O prémio é entregue no dia 20, em Viena.

"Às vezes é preciso ter a intuição de que estamos no caminho certo, digo isto muitas vezes aos meus alunos", conta a cientista, que em 2005 se mudou para os Estados Unidos, depois um convite irrecusável do então diretor científico do JPL.

A sua intuição estava certa. E a perseverança que pôs no trabalho - outra marca sua, garante -, um gosto especial pela procura de soluções para os problemas e pela criação de novos métodos para para lá chegar, fez o resto.

Com o doutoramento, concluído em 1997, Graça Rocha, fez uma das primeiras confirmações dos dados do satélite COBE, que em 1992 mapeou pela primeira vez as flutuações de temperatura da radiação cósmica de fundo.

O COBE, da NASA, que tinha sido enviado para o espaço para captar os sinais daquela radiação, não falhou a missão. Foi no meio de um grande entusiasmo mediático que os cientistas que analisaram os seus registos presentearam nesse ano o mundo com um primeiro mapa das flutuações de temperatura da radiação cósmica de fundo - aquela imagem oval feita de muitas cores, que é hoje um ícone da cosmologia, e que em 2006 deu o Nobel da Física aos americanos John Mather e George Smoot.

"Às vezes é preciso ter a intuição de que estamos no caminho certo, digo isto muitas vezes aos meus alunos"

"Participei numa experiência que fez a primeira confirmação dos dados do COBE, desenvolvi um algoritmo para isso, e depois acabei por escrever um artigo seminal nesta área", lembra, satisfeita.

O resto aconteceu naturalmente. Terminada a temporada na Universidade de Cambridge, regressou a Portugal, ao Centro de Astrofísica da Universidade do Porto, mas não ficou muito tempo. A Universidade de Oxford veio buscá-la e, passado um ano, foi a vez de Cambridge lhe fazer uma proposta. "Aceitei."

Foi aí, a partir de 2000, que começou a trabalhar na missão científica do Planck, um satélite da ESA, com colaboração da NASA, lançado em 2009 para fazer as medições mais detalhadas de sempre da radiação cósmica de fundo. O Planck levava detetores de uma sensibilidade sem precedentes e um sistema de arrefecimento que, eliminando o ruído, tornava mais fácil a captação dos sinais.

Entretanto, em 2005, o JPL e o Caltech, que estavam a criar um grupo científico para o Planck, desafiaram-na. "Estava a ponderar voltar a Portugal, já não voltei", recorda.

O teatro, metamorfose libertadora

Hoje é cientista principal do JPL, onde lidera vários grupos de investigação, e professora no Caltech, o famoso California Institute of Technology, onde orienta alunos de doutoramento, e tudo tem sido tão intenso e absorvente que o tempo não lhe sobra. O teatro, uma das suas paixões, está parado há anos. Mas tem saudades, confessa.

Natural do Porto, foi ali que fez duas licenciaturas, uma a seguir à outra: Matemática, pura, e Física Matemática Aplicada à Astronomia. Nesses tempos de estudante descobriu o teatro. "Fizemos uma peça infantil e o Sérgio Godinho vinha quase todas as semanas ao Porto para nos ensaiar", lembra, divertida.

Em Cambridge, durante o doutoramento, ainda conseguiu conciliar as coisas, participou na peça O Casamento, de Tchekhov. "Era minha metamorfose libertadora, nem sei como arranjei tempo", ri-se.

Nos Estados Unidos, o trabalho com o Planck e as viagens constantes à Europa, para reuniões dos três grupos que coordenou na análise dos dados, não lhe permitiram continuar. Talvez regresse agora ao palco. "Já me falaram de alguns grupos, vou ver."

Com o Planck, os cientistas confirmaram em 2013 o modelo-padrão da cosmologia e produziram um mapa com uma precisão sem precedentes da sua primeira luz, 380 mil anos após o Big Bang, e já neste ano atualizaram esse retrato do universo com novos pormenores, abrindo novas portas à investigação em cosmologia. Daí o prémio Gruber, que Graça Rocha vê como "uma recompensa enorme do trabalho árduo". É um prémio "importante para a ciência", diz. "As descobertas que fizemos vão ficar para a ciência e para o mundo."

O seu trabalho em cosmologia vai continuar, agora para tentar detetar sinais das ondas gravitacionais primordiais, algo que até hoje nunca foi possível. E já iniciou também projetos na área dos exoplanetas, para tentar encontrar formas de perceber se poderão albergar vida, estudando as suas atmosferas e criando novos algoritmos. É sempre essa aventura do desconhecido que a fascina.

Voltar a Portugal é uma ideia longínqua. Vive em Pasadena, e gosta. "É uma cidade simpática, de vida agradável." Mas tem saudades, claro. "Da família, dos amigos e de uma certa maneira de estar que há em Portugal, que não se explica." Por isso vem sempre que pode, e quer estreitar colaborações científicas, "para receber alunos portugueses no Caltech, gostaria muito disso". Um regresso definitivo, quem sabe. Pode ser, um dia.

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