Setúbal. CDU "repesca" pesos-pesados em busca dos bastiões perdidos

CDU recandidata antigos presidentes do Barreiro e de Alcochete, que saíram em 2017 por limitação de mandatos. Maria da Dores Meira sai de Setúbal e avança em Almada.

Nas últimas eleições autárquicas, o PCP viu cair dois bastiões históricos a sul do Tejo, ambos para o PS e por uma escassa margem de votos. Em Almada, município que era do PCP desde as primeiras eleições locais, em 1976, a disputa eleitoral resolveu-se a favor de Inês de Medeiros, que venceu as eleições no município por apenas 213 votos. O Barreiro, que contava então três mandatos sob gestão da CDU, também deu a vitória a um socialista, Frederico Rosa, que venceu as eleições por 1465 votos.

Agora, a CDU move as peças no tabuleiro com o objetivo de recuperar as duas câmaras aos socialistas - em versão baralha e volta a dar. Para o Barreiro, avança Carlos Humberto, que liderou a autarquia durante 12 anos, saindo em 2017 devido ao impedimento legal de se recandidatar. Nas últimas eleições em que se candidatou à presidência da câmara barreirense (em 2013) o autarca teve 44,9% dos votos. Quatro anos antes tinham sido 47,7%. Com o ex-presidente avança agora, como candidato à assembleia municipal, José Luís Ferreira, líder parlamentar do PEV no parlamento.

Em Almada, outra das grandes surpresas das eleições autárquicas de há quatro anos, a candidata será Maria das Dores Meira, que atingiu o limite de mandatos em Setúbal. Foi a própria que avançou a notícia da sua candidatura, em entrevista ao DN: "O meu partido já disse que me apoia. Está tudo dito." Sobre os resultados de há quatro anos a autarca diz que "houve ali um bocadinho de adormecimento, por isso foi a CDU que perdeu, não foi o PS que ganhou". Do lado socialista não há confirmação da recandidatura da atual presidente, Inês de Medeiros, mas é expectável que venha a concretizar-se - o apoio das estruturas locais é garantido. No entretanto, Maria das Dores Meira já vai dando os primeiros sinais de pré-campanha: "As coisas pioraram muito. O PS pode dizer que não, mas eu moro lá e posso dizer que sim."

E há ainda o caso de Alcochete, também perdido para os socialistas há quatro anos. Os comunistas voltam a apostar em Luís Franco, que ganhou três eleições autárquicas sucessivas, a última das quais (em 2013) com uns retumbantes 58% dos votos. Luís Franco saiu em 2017, também por ter atingido o limite de mandatos, e a CDU perdeu a câmara para o PS por uma diferença de 190 votos.

CDU já perdeu Barreiro e Alcochete para o PS, ambas em 2001, mas os socialistas não conseguiram manter as duas câmaras mais do que um mandato.

Num distrito integralmente dividido entre socialistas e comunistas - a CDU tem oito câmaras, o PS cinco - há um dado histórico que merece ser sublinhado e que é válido tanto para o Barreiro como para Alcochete. Sempre que os socialistas ganharam estas câmaras, não conseguiram mais do que um mandato, perdendo-as nas eleições seguintes. Foi assim em 2001, quando o PS venceu a autarquia barreirense - só durou até 2005. E o mesmo aconteceu, precisamente no mesmo ano, em Alcochete, com a câmara a voltar às mãos da CDU quatro anos depois. Neste concelho, o PS também venceu as eleições no já longínquo ano de 1976, mas viria a perdê-la em 1979.

Oposição espreita em Setúbal

Em Setúbal, onde a CDU governa a autarquia com maioria absoluta (o PS tem três vereadores e o PSD um) a saída de Maria das Dores Meira, após três mandatos, é um momento de oportunidade para os outros partidos. É, aliás, o mesmo contexto em que estavam o Barreiro e Alcochete há quatro anos, quando mudaram de mãos.

Já confirmada está a candidatura do social-democrata Fernando Negrão. O também deputado repete a candidatura de 2005, umas eleições em que conseguiu o segundo lugar para o PSD, com 25,4% dos votos, perdendo para o comunista Carlos Sousa (que viria a renunciar ao mandato em 2006), e deixando o PS em terceiro lugar. Foi o melhor resultado de sempre dos sociais-democratas na cidade.

A grande incógnita é precisamente o PS, que deverá apostar forte no município. Um dos nomes que têm sido apontados à câmara é o de Ana Catarina Mendes, líder parlamentar dos socialistas na Assembleia da República.

Já a CDU avança na capital de distrito com um nome do PEV - André Martins, atual presidente da assembleia municipal, vereador do urbanismo entre 2006 e 2017, uma aposta na continuidade.

Sob a sombra de 2017

O PCP avança para estas eleições autárquicas sob o peso das enormes perdas eleitorais que sofreu há quatro anos, num escrutínio que ditará se os resultados de 2017 foram um acidente de percurso ou uma tendência que se mantém. Em 2017, a CDU averbou o pior resultado de sempre em autárquicas, perdendo dez câmaras (passou de 34 para 24), nove para os socialistas e uma para um movimento independente. Além dos três municípios que perdeu no distrito de Setúbal, no Alentejo a CDU ficou sem a câmara do Alandroal e, mais a sul, Barrancos, Castro Verde, Moura e Beja. A coligação perdeu também Constância, em Santarém, e Peniche (Leiria).

susete.francisco@dn.pt

Artigo atualizado: corrigido o segundo parágrafo onde, por lapso, se escreveu Montijo em vez de Barreiro.

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