Leonardo Jardim: 4 anos, 1 título e quase 800 milhões nos cofres do Mónaco

O treinador português não resistiu aos maus resultados desta época (apenas uma vitória) e deixou um projeto que iniciou em junho de 2014, e que teve como ponto alto a quebra da hegemonia do PSG com a conquista do campeonato francês na temporada 2016-17.

Leonardo Jardim deixou o Mónaco esta quinta-feira, depois de quatro anos em que os pontos mais altos a nível desportivo foram a conquista do campeonato francês (foi o segundo treinador português a consegui-lo, depois de Artur Jorge) e uma meia-final da Liga dos Campeões, ambos em 2016-17. Mais importante, o facto de ter potenciado jogadores que levaram o clube do Principado a bater recordes de transferências - Kylian Mbappé é o melhor exemplo. Esta época o castelo desmoronou: em 12 jogos oficiais, oito derrotas, três empates e apenas uma vitória. Na Liga francesa, o clube ocupa o 18.º posto e a decisão da saída foi irreversível. O sucessor, aponta a imprensa francesa, pode ser Thierry Henry, antigo jogador do clube.

Veja aqui todos os golos do Mónaco na época do título (2016-17).

O jornal francês L'Équipe deu o despedimento como certo na quarta-feira e dedicou a primeira página ao treinador português, de 44 anos, com um título sugestivo: "Reveses da fortuna", numa alusão aos milhões que o clube monegasco encaixou durante os quatro anos de Leonardo Jardim. Lá dentro, duas páginas sob o título "O fim de uma era", onde era recordado o trabalho do técnico português e com declarações de uma fonte do clube a explicar porque o ciclo de Jardim chegou ao fim. "Houve muitos fatores negativos, com os lesionados e os reforços que não se adaptaram. Mas a mensagem do treinador já não passa, a equipa mergulhou em dificuldades. A duração média de um treinador num banco é de 16 meses, Jardim passou 51 no Mónaco."

E foram muitos milhões a entrar nos cofres do Mónaco. O projeto do clube, tirando a época 2016-17, no ano do título, em que o presidente do clube, o russo Dmitry Rybolovlev, e o vice-presidente, Vadim Vasilyev, apostaram forte na equipa e resistiram às vendas milionárias, assentava em faturar milhões em vendas. E foi assim que Jardim foi gerindo o clube nestes últimos anos. Ao mesmo tempo que o rival PSG ia reforçando a equipa de futebol com grandes nomes do futebol mundial, o Mónaco ia vendendo as suas maiores pérolas, com Jardim época após época a contratar e potenciar jogadores para serem depois negociados.

Mbappé, Bernardo Silva, Mendy, Lemar... saídas de milhões

Vamos então às contas. No reinado de Leonardo Jardim, o Mónaco encaixou cerca de 770 milhões de euros em vendas de jogadores (contabilizando apenas as transações feitas a partir de janeiro de 2015). A época mais produtiva foi neste verão, com o clube a realizar negócios que permitiram um lucro de 316,85 milhões de euros. Quase metade desta verba foi à custa da joia Kylian Mbappé, vendido em definitivo ao rival PSG por 135 milhões de euros (a que se juntam mais 45 de um empréstimo no ano anterior). Mas houve outros grandes negócios: Lemar rumou ao At. Madrid por 70 milhões, Fabinho ao Liverpool por 45, Kongolo ao Huddersfield por 20 e Ghezzal ao Leicester por 14 milhões.

Na temporada anterior, em 2017-18, o Mónaco também tinha sido um dos reis do mercado, com vendas a rondar os 250 milhões de euros. Foi outra época marcada por uma razia entre os maiores ativos do clube: Benjamin Mendy e Bernardo Silva rumaram ao Manchester City (o internacional francês por 57,5 milhões; o português por 50); Kylian Mbappé foi cedido ao PSG por um valor de 45 milhões; Tiemoué Bakayoko assinou pelo Chelsea a troco de 40 milhões e Guido Carrillo rendeu 22 milhões com a transferência para o Southampton. Isto só para citar alguns negócios.

Mas esta política de vender os melhores jogadores no final de cada temporada já vinha de trás. Excetuando a referida época 2016-17, em que os responsáveis do clube decidiram não negociar os maiores ativos numa aposta clara em objetivos desportivos (foram recompensados com o título de campeão francês, acabando com a hegemonia do PSG, e atingiram as meias-finais da Champions), e em que o encaixe financeiro com transações foi de apenas 18,20 milhões, em 2015-16 os russos que mandam na equipa do Principado já tinham mostrado a Jardim que estavam ali para rentabilizar os futebolistas e ganhar dinheiro com eles.

Jardim, que terminou a primeira temporada (2014-15) pelo Mónaco no terceiro lugar, a 12 pontos do campeão PSG, viu logo no final dessa época os responsáveis do clube desfazerem-se dos melhores jogadores, realizando um encaixe com vendas na ordem dos 185,15 milhões de euros. Deixaram o clube monegasco craques como Martial (vendido ao Manchester United por 60 milhões de euros), Geoffrey Kondogbia (36 milhões para o Inter), Layvin Kurzawa (25 milhões/PSG), Yannick Carrasco (24,7 milhões/At. Madrid) ou Abdennour (22 milhões/Valência). Isto para além de Radamel Falcao, que foi cedido na altura ao Chelsea por sete milhões de euros.

"Este é um projeto em que sabemos que todos os anos vai haver saídas e aquisições de jovens jogadores desconhecidos. Faz parte do meu trabalho e já formámos alguns desconhecidos para serem figuras do futebol internacional. Este é um projeto a longo prazo e não a curto. O objetivo não é tanto ser muitas vezes campeão, mas para formar jogadores, jogar bom futebol e, se possível, ganhar títulos", referiu recentemente Jardim.

"Os objetivos do Mónaco podem dividir-se em três: primeiro temos de ter a ambição de jogar sempre para ganhar, independentemente da prova em que estamos inseridos, em segundo lugar temos de ter um objetivo de espetáculo, com futebol apoiado, de qualidade, em que consigamos trazer adeptos para o estádio, e em terceiro lugar a valorização de jovens jogadores que existem dentro do clube", disse o treinador no dia da apresentação.

Quatro anos e três meses depois deixou o clube. E com trabalho feito. Além dos milhões que permitiu ao clube encaixar, quebrou a hegemonia do rival milionário PSG, em 2016-17, com a conquista do título, algo que não acontecia desde 2000. "É com justiça que o português finalmente recebe a consideração devida pelo seu tremendo trabalho no Rochedo", escreveu na altura o Le Point, enquanto o Le Parisien se rendeu a "um intelectual do futebol", aludindo à admiração do técnico pelo sociólogo francês Edgar Morin e às citações de poemas de Rudyard Kipling em conferências de imprensa. Nesta altura, também o príncipe Alberto do Mónaco deixou elogios a Jardim: "Foi um percurso extraordinário. É um grupo extraordinário, talentoso e com grande espírito, orientado por um grande treinador."

Para a história ficam um total de 233 jogos ao comando dos monegascos, com 125 vitórias, 54 empates e 54 derrotas. E alguns resultados históricos, como as duas vitórias no ano civil de 2016 diante do rival PSG (0-2 no Parque dos Príncipes e 3-1 no Principado) e a goleada por 6-1 ao Marselha em agosto de 2017. Jardim teve ainda três grandes momentos na Liga dos Campeões: em fevereiro de 2015 o Mónaco arrancou uma vitória brilhante por 3-1 no campo do Arsenal, em Londres. Em março de 2017 bateu o Manchester City de Pep Guardiola por 3-1 e assegurou um lugar nos quartos-de-final da Champions. Na eliminatória a seguir, afastou o B. Dortmund, ao vencer em casa os alemães por 3-1 (depois de terem ganho na Alemanha por 3-2), resultado que abriu as portas das meias-finais da Champions, em que seriam depois eliminados pela Juventus.

No final da época passada, quando ainda tudo era um mar de rosas, Jardim confidenciou numa entrevista ao jornal L' Équipe que tinha recebido várias propostas. E explicou porque decidiu ficar no Mónaco (o contrato tem duração até 2020), onde aufere cerca de 3,5 milhões de euros de salário por época livres de impostos. "Tive algumas propostas, mas moro no lugar mais bonito do mundo, treino um clube que habitualmente está no pódio, jogo a Champions e já tenho um bom salário. No início, falam todos bem do treinador, mas aqui continua a acontecer isso, quatro anos depois. É como se fosses casado durante 20 anos e continuasses a abraçar a tua mulher todos os dias", referiu na altura.

Do Camacha ao principado

Leonardo Jardim começou a carreira de treinador em 2003, no Camacha, da Madeira, onde esteve até 2008. Seguiu-se o Desportivo de Chaves, Beira-Mar e em 2011 chegou ao Sporting de Braga (para substituir Domingos Paciência), onde esteve apenas uma época e colocou o clube num honroso terceiro lugar. Do Minho saltou para a Grécia (época 2012-13), para treinar o campeão Olympiacos. Estranhamente acabou por deixar o clube grego logo em janeiro, com a equipa no primeiro lugar e a dez pontos do segundo classificado (na altura o próprio justificou a saída pelas exibições e resultados).

Em 2013-14 assinou pelo Sporting, contratado por Bruno de Carvalho para ocupar o lugar entretanto deixado vago por Jesualdo Ferreira. Mas ainda a época não tinha terminado e o treinador já estava a ser cobiçado pelo Mónaco. Após muitas negociações, acabou por rumar ao Principado, onde foi apresentado no dia 8 de junho de 2014, numa transferência que ainda rendeu três milhões de euros aos cofres dos leões.

Contratações e vendas do Mónaco na era Jardim

Janeiro de 2015
Compras - 15,75 milhões
Vendas -0
2015-16
Compras - 101 milhões
Vendas - 185,15 milhões
2016-17
Compras - 50,50 milhões
Vendas - 18,20 milhões
2017-18
Compras - 123 milhões
Vendas - 244,5 milhões
2018-19
Compras - 128 milhões
Vendas - 316,85 milhões

O Mónaco sob o comando de Jardim

2014-15 - 3.º lugar/quartos-de-final da Liga dos Campeões
2015-16 - 3.º lugar/fase de grupos da Liga Europa
2016-17 - 1 .º lugar (campeão)/meias-finais da Liga dos Campeões
2017-18 - 2.º lugar/fase de grupos da Liga dos Campeões
2018-19 - 18.º lugar (9 jornadas cumpridas)

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