O poder da informação

Em 2011, não sendo portanto de muitos anos o tempo decorrido, a secretária de Estado Hillary Clinton declarou num discurso inspirado em afirmadas atividades da Al Jazira, da China, e da Rússia, que estávamos numa guerra de informação. Neste ano de 2018 é o presidente dos EUA que declara uma espécie de guerra civil com a informação do seu próprio Estado, talvez esquecido de que ele mesmo tinha agravado o que foi chamado "campo de batalha diplomática", com a facilidade com que afirma e desconfirma palavras, discursos e leviandades.

No caso de ser plausível, a única coisa que une estes diferentes avisos é que tendemos para envolver o globo num nevoeiro de notícias criado pela imaginação de tantas e demonstradas origens que a dialética dos factos fica inacessível ao conhecimento das sociedades pela retórica imaginativa das pessoas e instituições, privadas e públicas. Tecem essa rede de imaginações naturalmente tendo por objetivo interesses não publicados.

Felizmente para o prestígio do queixoso dirigente dos EUA, não é ele o agora apontado causador da relação de conflito, nesse domínio predominantemente interno, levando as suas declaradas inquietações de governante, porque foi o novo emir do Qatar, a lidar com as suas próprias inquietações em relação à luta de influências que rodeiam o sul pobre, que visava contrapor a sua intervenção ao domínio da corrente informação ocidental, segundo as conclusões do professor Tristan Mattelart, do Instituto Francês da Imprensa (IFP): anota ele agora preocupações do Emirado com pretensões sauditas que contrariam as suas.

As circunstâncias flutuantes da situação internacional e das lutas internas e aspirações de vários países de todas as latitudes, destacando-se as potências globalmente mais poderosas ou próximas dessa qualificação, evoluíram no sentido de admitir que a "batalha diplomática" é mais responsável, nas mãos dirigentes afastadas dos nobres objetivos da esquecida ONU, pela lonjura da realidade que anima a corrente mundial de informações, do que a eventual violação da ética profissional pelos profissionais da informação, quando muitos deles são sacrificados em confrontos civis ou internacionais que, com exemplos numerosos não esquecíveis, mostraram que o próprio fim da chamada Guerra Fria era um armistício. Não é por isso de estranhar, mas sim de lamentar, que as cada vez mais poderosas China e Rússia se tenham visto obrigadas a criar poderosos instrumentos de difusão de notícias ao redor da terra.

A China, por exemplo, entendeu necessário organizar essa luta contra a imagem deturpada de que se queixava ser objeto. Ressuscitou mesmo, sem o mencionar, a lembrada intenção, que há dezenas de anos a UNESCO pretendeu levar à prática, de organizar meios de impedir a chamada "circulação em sentido único" da informação dos países ricos do norte do mundo, impondo a total omissão e submissão do antigo Terceiro Mundo. Este projeto foi causa da primeira retirada dos EUA da UNESCO.

É evidente que a batalha diplomática não tem fim à vista, mas também é evidente que a distância da corrente de informações da verdade continuará a contar com semelhante falha de autenticidade, isto é, de concordância entre o publicado e o feito, o declarado e as reais intenções. A defesa possível, e desejável, está na ética dos profissionais que meditam e defendem a preponderância da realidade sobre o declarado. Essa ética, como é tradicional das ordens, não consente interferências da hierarquia gestora das instâncias proprietárias.

Um dos temas políticos em disputa é portanto o da violação da veracidade dos factos e objetivos alegados, e da investigação que, respeitando a ética profissional, a corrija. Os erros terão sempre a sanção correspondente prevista, mas a falta de autenticidade das correntes políticas do combate, interno ou externo, ou terá a submissão pacífica do eleitorado, ou a reação que pode levar à desordem, ou até ao rompimento internacional da "trégua" que estamos a viver.

A guerra declarada, sobretudo vinda de poder político poderoso, contra a informação preservada pela ética profissional não anuncia o melhor dos tempos. Como acentua Harari (2018), "os modelos fracassados podem resultar em guerras nucleares, monstruosidades geneticamente modificada, e uma falência total da biosfera. Como tal, temos de fazer melhor do que fizemos quando nos deparámos com a Revolução Industrial". A última intervenção do presidente dos EUA na Assembleia Geral da ONU, inspirada pelo seu conceito de "Estados irrelevantes", uma tradução amável do original, não mostrara que estas advertências tenham chegado ao seu conhecimento.

Professor universitário

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