Roupa velha

Apesar de já terem passado décadas, quando olho para as fotografias tiradas nos Natais da minha infância, os vestidos ainda me picam. Com golas engomadas e laços na cintura, eram feitos de umas fazendas que, em contacto com a pele, pareciam lixa. E não havia remédio senão repetir aquela indumentária em todas as festas que aparecessem porque, nesse tempo, não se acumulava roupa além da estritamente necessária. No meu caso, umas saias e camisolas para o dia-a-dia; um casaco quente para o Inverno; um par de sapatos para bater e outro para ocasiões festivas (este último de verniz preto com presilha e botão ou então fivela à pajem, um horror); e, por fim, o tal vestidinho de cerimónia que se substituía quando deixava de servir ou mudava a estação.

Parece mentira, mas só aos 10 anos tive o meu primeiro par de jeans (umas Lois compradas em Badajoz depois de um choradinho) e, quanto a ténis e
T-shirts, foi preciso esperar até ao fim da adolescência, pois antes disso só havia modelos de ginástica, imaculadamente brancos e sem graça. Lembro-me também de, num certo Natal, a minha avó oferecer camisolas verdes de lã aos quatro netos; e eu, que era a mais nova, tive de gramar anos a fio o raio das camisolas, que iam passando de irmão para irmão até acabarem todas em mim, provocando-me um ódio ao verde de que só recuperei na idade adulta. E não minto se disser que era costume fazer-se novo com o velho, podendo um casaco comprido fora de moda ganhar uma nova vida como saia ou colete (porque as fazendas picavam, mas eram boas).

Com a emergência da sociedade de consumo, passámos num virote do oito ao oitenta, tornando-nos fúteis e exibicionistas. A roupa, que antes servia sobretudo para nos cobrir e aquecer, converteu-se numa espécie de cartão-de-visita que diz muito sobre a nossa personalidade e o nosso estatuto. A qualidade das fazendas também piorou, mas os preços são hoje mais acessíveis, pelo que compramos sistematicamente novas peças, livrando-nos logo das "antigas". Só em Portugal, no lapso de um ano - e depois de a sua produção ter consumido loucuras de água e energia -, cerca de 200 mil toneladas de têxteis, entre os quais muita roupa em bom estado, acabaram em aterros e lixeiras. E, enquanto isso, uma conhecida marca de alta-costura põe à venda no seu catálogo de Primavera-Verão uns ténis que têm deliberadamente ar de velhos e gastos pela módica quantia de... 700 euros. Adeus, futuro.

Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

Exclusivos

Premium

EUA

Elizabeth Warren tem um plano

Donald Trump continua com níveis baixos de aprovação nacional, mas capacidade muito elevada de manter a fidelidade republicana. A oportunidade para travar a reeleição do mais bizarro presidente que a história recente da América revelou existe: entre 55% e 60% dos eleitores garantem que Trump não merece segundo mandato. A chave está em saber se os democratas vão ser capazes de mobilizar para as urnas essa maioria anti-Trump que, para já, é só virtual. Em tempos normais, o centrismo experiente de Joe Biden seria a escolha mais avisada. Mas os EUA não vivem tempos normais. Kennedy apontou para a Lua e alimentava o "sonho americano". Obama oferecia a garantia de que ainda era possível acreditar nisso (yes we can). Elizabeth Warren pode não ter ambições tão inspiradoras - mas tem um plano. E esse plano da senadora corajosa e frontal do Massachusetts pode mesmo ser a maior ameaça a Donald Trump.