Premium

Crianças e jovens em perigo

"A minha família é esta com quem vivo"

Crianças e jovens em perigo. Filhos de famílias com vidas marcadas por dependências, abandono e negligência estão a construir um caminho novo. Aprendem a ser independentes para serem lançados para o mundo real. Mas a habitação é um problema.

Quem é a tua família? "A minha família é esta com quem vivo", responde Catarina. Partilha casa com a Vanessa, a Núria e a Beatriz. Estão num apartamento de autonomia da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), destinado a quem já tem maturidade e vai deixar a instituição. No coração está ainda gravada a "família amiga". A biológica ficou lá atrás, aos 7 anos, quando foi viver para um centro de acolhimento, e ainda hoje, aos 23, não consegue perceber as razões. "Acho que não foi possível viver com a minha mãe, mas não tenho a certeza." O pai morreu tinha ela 8 anos.

É a segunda mais velha de seis filhos, os irmãos vivem em Inglaterra, com a mãe. Sem compreender o que lhe estava a acontecer, Catarina foi para um centro da SCML gerido por freiras. Aos 16 mudou-se para uma casa de pré-autonomia, para se preparar para o apartamento de autonomia (AA), para onde foi em janeiro.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Os deuses das moscas

Com a idade, tendemos a olhar para o passado em jeito de balanço; mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos e revisitando os lugares que nos marcaram. Já fomos, por exemplo, a Macieira de Cambra em busca de uma rapariga com quem o Manel dançara um Verão inteiro (e encontrámo-la, mas era tudo menos uma rapariga); e, mais recentemente, por causa de um casamento no Gerês, fizemos um desvio para eu ir ver o hotel das termas onde ele passava férias com os avós quando era adolescente. Ainda hoje o Manel me fala com saudade daqueles julhos pachorrentos, entre passeios ao rio Homem e jogos de cartas numa varanda larga onde as senhoras inventavam napperons e mexericos, enquanto os maridos, de barrigas fartas de tripas e francesinhas no ano inteiro, tratavam dos intestinos com as águas milagrosas de Caldelas. Nas redondezas, havia, ao que parece, uma imensidão de campos; e, por causa das vacas que ali pastavam, os hóspedes não conseguiam dar descanso aos mata-moscas, ameaçados pelas ferradelas das danadas que, não bastando zumbirem irritantemente, ainda tinham o hábito de pousar onde se sabe.