Premium África: Menos paternalismo, mais realismo

"A Europa deve olhar África sem paternalismo", disse ontem Durão Barroso no EurAfrican Forum, que decorreu no Estoril. Numa tentativa de aproximar a África e a Europa, o ex-presidente da Comissão Europeia - por sinal uma figura muita respeitada em Angola e na África em geral, pelo menos desde os Acordos de Bicesse (promovidos por Barroso enquanto secretário de Estado dos Assuntos Externos e Cooperação, em 1990) - quis deixar no ar as palavras que espelham a sua experiência na relação com os países do sul, que tanta vezes apelidamos de "irmãos".

Duas dezenas de líderes europeus e africanos de várias áreas, desde o mundo empresarial ao político, fizeram questão de participar e fazer-se ouvir neste fórum, mostrando a relevância que tem esta relação umbilical entre o continente europeu e o africano.

O primeiro EurAfrican Forum teve, a meu ver, o mérito de relançar a discussão, após alguns anos de arrefecimento nas relações - sobretudo desde a descida do preço do barril de petróleo - acerca dos objetivos, que devem ser comuns a todos os europeus e africanos: criar relações de maior confiança, assentes na boa governação, e construir pontes entre os dois continentes que promovam uma vivência win-win (ganhar-ganhar).

Menos paternalismo e mais realismo precisa-se! Falar de futuro, de prosperidade e desenvolvimento e de sustentabilidade só será possível se a África e a Europa se sentarem à mesma mesa, a discutir os temas estratégicos individuais e coletivos, sem complexos do passado e com os olhos postos nas gerações vindouras.

Está na hora, de uma vez por todas, de aproveitar as sinergias e promover as oportunidades de negócio. O Conselho da Diáspora Portuguesa já deu o seu contributo, organizando esta iniciativa. Agora é hora de os governos atuarem e de os empresários darem mais apertos de mão e firmarem novas parcerias e contratos para que todos, em cada uma das suas geografias, possam ver e viver em sociedades mais desenvolvidas e com rendimentos per capita mais dignos.

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.