Trump e o Médio Oriente

A morte e a influência de Soleimani não esgota a análise sobre o Médio Oriente. Vale por isso a pena olharmos para três dinâmicas que, cruzadas com outras, não só estão a marcar a região como ditarão as opções dos principais interessados.

Apesar de a justificação para a eliminação de Soleimani ter assentado numa "ameaça iminente" contra alvos americanos, a administração Trump não perdeu um segundo com provas que a validassem. Bem sei que de "ameaças iminentes" no Médio Oriente está a narrativa presidencial americana cheia há quase duas décadas, com efeitos desastrosos, mas valia a pena mantermos o escrutínio a decisões tão sérias, como a de eliminar um alto general iraniano, com os efeitos que isso inevitavelmente tem. Uma destas consequências foi o lançamento de uma dezena de mísseis que atingiram uma base americana em solo iraquiano.

Bem sei que vivemos num infotainment onde a política dá ares da sua graça para ser relevante, mas não vi até agora nenhuma menção ao facto de um Estado ter abertamente assumido um ataque a uma base militar da maior potência militar da história, sem que esta tenha conseguido neutralizar os mísseis ou sequer retaliado à provocação. Quem tem argumentado em favor de uma estratégia de dissuasão para justificar a morte de Soleimani esqueceu-se de três detalhes sucessivos: o Irão respondeu como quis a uma base importante dos EUA, expondo as suas vulnerabilidades; o ataque do Irão não mereceu nenhuma resposta à altura por parte da administração, que deu o caso como encerrado para já, mostrando um conforto no mínimo estranho perante uma base atacada por um ator estatal assumido; e o Irão uniu-se em torno do regime dos ayatollahs e de um caminho de nuclearização rápida. Se tudo isto são efeitos naturais de uma feliz estratégia de dissuasão, engendrada pela brilhante equipa de segurança nacional do presidente Trump, então temos de rever o conceito.

Se a dissuasão falhou no curto prazo, menos sabemos sobre o seu efeito a médio curso. Podemos ter atos de fé acerca da racionalidade dos atores envolvidos e respetivos processos de decisão. Podemos acreditar que as avaliações dos vários intervenientes, que não se esgotam no Irão e nos EUA, vão privilegiar a sensatez que resulta dos limites do poder em desfavor de uma escalada incontrolável que leve toda a gente às portas do apocalipse. Podemos ainda distinguir entre declarações incendiárias, água na fervura, cálculos de política interna e busca por um novo espaço de negociação. Claro que podemos. São sempre vários os ângulos para analisar o Médio Oriente. Mas podemos igualmente aceitar que há três elementos relativamente novos que acrescentam mais volatilidade à suposta racionalidade vista até agora.

O primeiro está na forma tentacular como o Irão se apresenta hoje no Médio Oriente, quer como resultado das dinâmicas de vários conflitos (Iraque à cabeça) quer por uma vontade assumida em fazer coincidir uma ascensão geopolítica distintiva perante o advento do declínio acelerado dos EUA na região, também visto como fragilizador das posições sauditas e israelitas. Ou seja, Teerão consolidou uma rede de influência regional não exclusivamente xiita (Síria, Iraque, Iémen, Líbano, Afeganistão, Paquistão e Palestina) como resposta ao condicionamento económico e político sofrido com as sanções internacionais pré-acordo nuclear de 2015. A conclusão a tirar é que mesmo com um acordo que monitorizava as intenções nucleares a troco do alívio das sanções, essa arquitetura tentacular do Irão na região não se esfumou. Pelo contrário, é hoje a sua principal fonte de poder contra inimigos. É neste quadro de lealdades iranianas que se jogará a (des)proteção feita pela administração Trump aos cerca de 60 mil militares americanos na região, sem contar com os diplomatas e agentes de segurança privada que ali se encontram.

É aqui que entronca o segundo elemento. É um facto que o nível de inexperiência do núcleo duro da política externa e de segurança nacional da Casa Branca sobre o Médio Oriente é hoje baixo. Robert O'Brien, o quarto conselheiro de segurança nacional de Trump, é um advogado sem credibilidade na pasta. Jared Kushner, incumbido pelo sogro de tratar da região, para além de inexperiente, nem respeitado é. Pompeo e Esper, secretários de Estado e da Defesa, estão mais alinhados em desalinhar publicamente do que em construir uma clara mensagem presidencial ou em envolver republicanos no Congresso. E o funcionamento do conselho de segurança nacional da Casa Branca, segundo vários testemunhos, deixa muito a desejar. Por tudo isto, não surpreende o efeito deste caos: num dia retiram-se as tropas, no seguinte enviam-se mais; num dia está aberto o caminho a mudança de regimes, no outro recorda-se os efeitos do que aconteceu no Iraque; num dia ameaça-se com a destruição de locais culturais no Irão, um crime de guerra pela convenção de Genebra, no outro felicita-se Teerão pela resposta contida. E, num dia, jura-se publicamente que o Irão nunca terá capacidade nuclear ativa, ao mesmo tempo que se deixa morrer o único instrumento que estava a inibir o regime de a obter. A verdade é que Trump não gosta do acordo porque foi Obama a assiná-lo. Esta patologia crónica anti-Obama cega o presidente e a falange republicana que o apoia acriticamente. Se um novo acordo for alcançado com o Irão, até nos mesmos termos, ninguém se espantará se Trump o elogiar, desde que tenha sido ele um dos signatários.

Além desta disfuncionalidade estratégica, há uma mão-cheia de altas posições do Estado que estão neste momento com nomeações interinas ou por preencher, esvaziando a autoridade do aconselhamento ao presidente, aceitando que isso é relevante para o acerto das suas decisões. São exemplo disso o diretor da agência nacional de intelligence, o secretário da Marinha, o secretário da Segurança Interna ou os titulares dos assuntos europeus e do controlo de armamento no Departamento de Estado. Dificilmente se articula uma grande estratégia para o Médio Oriente com tanta disfuncionalidade orgânica.

É exatamente isto que o terceiro elemento não tem: a progressiva consolidação do papel da China na região. Estava o parlamento do Iraque a aprovar a saída rápida das tropas americanas e o embaixador chinês estava reunido com o primeiro-ministro iraquiano, manifestando apoio militar necessário. Não há vazios estratégicos, muito menos no Médio Oriente, e a passada silenciosa militar chinesa está hoje disposta a correr novos riscos em simultâneo, entre eles exercer a hegemonia benigna possível na Ásia-Pacífico, acompanhar o trilho transcontinental da Belt and Road e garantir a segurança dos seus fluxos energéticos e comerciais, nomeadamente os que atravessam Ormuz e o Suez, os que ligam o alto consumo de Pequim à produção petrolífera do Iraque, a primeira base militar no exterior, no Djibuti, os recentes exercícios navais com a Rússia e o Irão no golfo de Omã, as relações diplomáticas com o Irão (ministro dos Estrangeiros Javad Zarif esteve quatro vezes em Pequim em 2019) e a posição de principal parceiro comercial com importantes países da região, como Arábia Saudita, Emirados, Egito e Irão.

A evolução destas três grandes dinâmicas está a ditar diariamente o rumo do Médio Oriente. Não tenho muitas dúvidas sobre qual delas expressa maior fragilidade.

Investigador universitário

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG