Da aldeia portuguesa para Hollywood: "Oh, tio Tomás, gosto muito de si!"

Regina Pessoa já tem no currículo várias curtas-metragens: História Trágica com Final Feliz e Kali, o Pequeno Vampiro. Agora, com Tio Tomás, a Contabilidade dos Dias, pode integrar as nomeações para os Óscares. Faltam poucas horas para saber se à segunda é de vez.

Serão conhecidos na segunda-feira os nomeados para os Óscares e Tio Tomás, a Contabilidade dos Dias, de Regina Pessoa, é a curta-metragem de animação portuguesa que poderá integrar essa lista. A mais premiada voz do cinema de animação em Portugal é feminina. Regina Pessoa (n. 1969) está pela segunda vez na shortlist das nomeações para os Óscares e, com outras distinções internacionais no bolso, falou ao DN da sua serenidade perante a hipótese de figurar na tão cobiçada lista. Com formação em Belas Artes, singrou na carreira da animação com a ajuda do produtor e realizador Abi Feijó. Depois de curtas-metragens como História Trágica com Final Feliz e Kali, o Pequeno Vampiro, Tio Tomás, a Contabilidade dos Dias surge como o mais autobiográfico dos seus trabalhos. Baseado em memórias afetivas da infância, este é um gentil e comovente retrato do homem que ensinou Regina Pessoa a desenhar.

Quem era este tio Tomás?
O tio Tomás era o tio solteirão, que não tinha um trabalho fixo, e por isso tinha tempo para nós, os sobrinhos. Eu vivia numa aldeia [Vila Nova de Outil] nos anos 1970, a minha família era, como hoje em dia se diz, disfuncional, e por isso o ambiente em casa não era bom. Então, o tio Tomás representava esse lado mais afetivo, porque a casa dele funcionava como uma espécie de refúgio, de conforto... Sentíamo-nos bem ali, era quentinho no coração. Ele tinha um tratamento especial com as crianças, não no sentido de ser extremamente carinhoso, porque naquela altura ninguém era - esses sentimentos eram bastante recatados -, mas porque brincava connosco.

E, pelo que se vê no filme, foi o tio Tomás que lhe transmitiu o gosto pelo desenho...
Foi com ele que eu comecei a desenhar, com o carvão da lareira, nas paredes da casa onde ele vivia. Mais tarde dei-me conta de que isso era, de facto, excecional, porque nas outras casas era completamente proibido. Os meus colegas e amigos da infância não podiam fazer sequer um risquinho nas paredes das casas deles, e o tio Tomás, pelo contrário, incentivava-nos a fazer desenhos de grandes dimensões e até nos corrigia em relação às proporções!

Depois há a obsessão pelos números que dá título à curta-metragem. Como é que olhava para isso, enquanto criança?
Ele tinha aquela obsessão pelos cálculos e passava grande parte do seu dia a fazer contas, a afiar os lápis, a fazer aquelas linhas nas agendas - como se vê no filme -, e eu achava aquilo fascinante. Perguntava a mim própria: "Se ele não tem um emprego, onde é que vai buscar todos estes números?" E ele também mantinha um diário... Lembro-me de lhe dizer "tio, um dia deixa-me ler o seu diário, as suas notas?", e ele ficava muito perturbado, respondia logo "não, claro que não! Isto são coisas minhas".


A certa altura, menciona-se a "ruína" da família, que o traumatizou. A que negócio familiar se refere essa página da vida do seu tio?
O meu avô tinha uma pedreira e fazia, nos anos 1940/50, aquelas cantarias das grandes construções, nomeadamente da nova faculdade da Universidade de Coimbra, de que foi responsável por vários edifícios. Era o trabalho de construção da época, tudo em pedra. E o tio Tomás era o responsável pela contabilidade... Nos anos 1960, houve diferentes circunstâncias que levaram à decadência desse negócio familiar. Por um lado, eles tinham mais uma grande encomenda para um desses edifícios oficiais - o empreiteiro não pagou, fugiu para o Brasil com o dinheiro -, e, por outro lado, o modo de construção nessa altura mudou completamente, o betão começava a substituir a pedra, e assim o negócio também começou a decair, até que o meu avô faliu. De certa forma, o tio Tomás ficou como o responsável por "não ter feito bem as contas" e isso traumatizou-o. Mas também é verdade que há na família uma tendência para situações de doença mental. A minha mãe era esquizofrénica, e penso que o tio também deveria ter um lado obsessivo-compulsivo. Daí esse vício dos números. No fundo, acho que ele passava os dias a refazer os cálculos e a tentar perceber onde é que tinha errado.

Em que momento decidiu que lhe queria fazer esta homenagem?
Ele morreu quando eu estava a fazer o História Trágica com Final Feliz [2005]. A conversa que ponho no filme, no final, aconteceu de facto. Eu estava em França, liguei à minha mãe, e, como as casas dos dois eram próximas, ele estava lá a fazer-lhe companhia e quis falar comigo. Então naquele momento senti uma grande saudade por estar longe e disse-lhe "oh, tio Tomás, gosto muito de si". E ele, lá está, com aquele sentimento da sua geração, muito embaraçado, "Pois, pois, sim senhor, nós gostamos todos uns dos outros"... Passado uma semana, ele morreu. Pedi logo ao primo que ficou com a casa para me deixar ficar com os diários. Fiquei também com os canivetes, os objetos mais simples e mais humildes dele. Tinha a ideia de fazer um filme com isso, de alguma forma. Entretanto, porque havia aquela espécie de medo de quebrar o selo sagrado - eram "as coisas dele", como dizia, e eu tinha algum pudor -, fiz o Kali, o Pequeno Vampiro [2012]. E esta curta-metragem marcou para mim o fim de um capítulo; achei que estava preparada para abraçar o desejo de fazer um filme sobre o tio Tomás.

É o seu filme mais íntimo?
É um filme assumidamente mais autobiográfico, embora os outros também tenham essa componente, mas disfarçada. Aqui tudo é baseado em factos, não inventei nada. E foi um filme em que eu, ao acabar, senti uma paz imensa. Acho que fiz justiça ao que queria transmitir.

O tio Tomás junta-se à galeria das suas personagens solitárias e inadaptadas. É um tema que a fascina?
Fascina-me, sim. Também porque foi com esse ambiente que cresci, é algo que me marcou. Desde logo, a minha mãe era estigmatizada na aldeia [por causa da esquizofrenia], e eu, que vivi lá 17 anos antes de vir para o Porto, esses 17 anos pareceram-me 40! Foram muito intensos, porque vivia no seio de uma família que não seguia o modelo de um certo bem-estar. Havia até murmúrios em relação a mim e à minha irmã, "será que elas vão ficar como a mãe?" Ora, isto cria um grande peso no crescimento de qualquer pessoa... Felizmente, aprendi a perceber o outro lado da minha mãe, e também do tio Tomás, a gostar deles pelo que são e não pelo que eu gostaria que eles tivessem sido.

Em relação à animação propriamente dita, o seu universo estético dá prioridade a um certo gosto pelo artesanal...
Precisamente, o meu desafio era como combinar diferentes técnicas. Queria integrar o concreto, os objetos do tio, e combiná-los com o meu universo de animação 2D, o desenho. De facto, quando penso que comecei a desenhar com o carvão, o preto no branco da parede, e noto que os meus filmes são bastante monocromáticos, identifico aí o meu início de carreira - é possível que tenha influenciado esse lado orgânico e textural. Mas é certo que eu também venho das Belas Artes, a minha formação original não é Animação, e eu não consigo desligar-me da paixão pelo lado orgânico das imagens, a sua riqueza e profundidade.

Como é trabalhar em cinema de animação em Portugal?
Não é fácil mas, apesar de tudo, nós temos alguma sorte, porque o ICA apoia a curta-metragem de animação. Há países onde isso não acontece. Por exemplo, em Espanha há um grande incentivo à indústria da animação, no formato de séries e longa-metragem, mas à curta-metragem, que é a parte criativa que pode refrescar a indústria, não há. O problema é que temos apenas um concurso por ano - isto, quando há -, enquanto em França existem quatro... Por cá, é preciso encontrar parceiros. Aprende-se muito nas coproduções internacionais e é muito útil para alargar os horizontes do filme. As curtas-metragens têm uma vida muito frágil.

Já esteve uma vez na shortlist das nomeações para os Óscares, com História Trágica com Final Feliz. Como é que se sente perante esta nova possibilidade de chegar à lista dos nomeados?
A idade conta nestas coisas. Sinto-me mais calma por ter já essa experiência anterior. Aí, a ansiedade foi tanta que eu quase não conseguia viver a alegria da etapa presente. E fiquei desiludida, é natural, até porque os filmes que foram nomeados na altura eram demasiado comerciais para o meu gosto... Mas pronto, é a festa deles. Desta vez pensei: vou mas é viver a alegria de cada momento. E é isso que estou a tentar fazer.

Entretanto, já está a trabalhar noutra ideia de filme?
Já tenho um novo projeto e, se com o Kali acabei uma trilogia da infância, agora estou nos tributos. Depois do tio Tomás é a minha mãe. Quando ela era nova, com o problema que tinha, era muito ativa, andava sempre a fazer coisas, porque precisava dessa atividade física. E, quando ficou velhinha, deixou de poder andar e isso pô-la nervosa... O que fazer? Tentei arranjar-lhe atividades e descobri que a minha mãe conseguia desenhar. Comecei a desenhar com ela no meu iPad! Então, tenho uma coleção enorme de uma espécie de retratos que ela fez, desenhos de caras muito naives, quase infantis, mas de uma expressividade enorme. Quero usá-los no próximo filme...

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