"Preocupação" e "esperança" são as palavras que exprimem os sentimentos dos futuros professores, os jovens que ainda frequentam os cursos de educação nas universidades do país, numa altura em que se vive uma situação de instabilidade na profissão docente, em greve desde o final do ano passado..Estes jovens ainda não sentem na pele as dificuldades enfrentadas diariamente nas escolas de Portugal, mas observam de longe a possibilidade de um destino "pouco esperançoso", que se reflete em salários baixos, falta de progressão na carreira e "muito pouca atratividade".."Os estudantes estão de acordo com as mais recentes greves e estão unidos e empáticos com a sua futura profissão. Acreditam que se houver esta mobilização agora e se efetivamente se conseguirem alcançar algumas alterações quanto à carreira, especialmente na progressão e nos salários, obviamente que terão muito melhores condições quando começarem a exercer", explica Catarina Ruivo, presidente da Federação Académica de Lisboa (FAL)..Em representação dos estudantes de educação de Lisboa, a presidente da FAL, com 22 anos, garante que "os alunos mantêm-se motivados em ingressar nesta profissão por causa do amor que têm à educação" - um sentimento que partilham juntamente com os professores em protesto e que se movem em nome dos seus direitos..Nesse sentido, Catarina admite que os colegas focam-se na esperança de que aconteça uma mudança e um acordo entre os sindicatos e o Ministério da Educação. "Esperança temos sempre. É algo muito característico dos jovens e queremos muito que as coisas melhorem rapidamente", explica..Porém, os "professores do futuro" defendem que "ainda não há algo concreto para solucionar os problemas", sendo necessário "haver uma compensação para os profissionais que não viram a sua progressão acontecer" e uma "revisão dos critérios de acesso ao quinto e sétimo escalão da carreira"..João Caseiro, tem 23 anos, é licenciado em Ciências da Educação e está a terminar o mestrado em Administração Educacional. Apesar de não prever integrar a carreira de professor, está bastante familiarizado com os problemas que atingem a profissão..Como presidente da Associação Académica de Coimbra (AAC), tem contacto permanente com os colegas que sonham em dar aulas e garante que a incerteza do futuro da educação de qualidade é um medo geral.."Estamos atentos à realidade e estamos solidários tanto com os estudantes, que acabam por sair um pouco afetados das greves, como também com os professores que estão a protestar pelos seus direitos. A situação é algo que nos preocupa porque o ensino pré-universitário acaba por moldar também muito do que acabam por ser os estudantes do ensino superior no futuro", testemunha..No pensamento destes jovens, permanecem muitas dúvidas e preocupações que atormentam os últimos anos do curso. E pelos corredores correm conversas em torno das manifestações.."Estamos preocupados com o futuro da docência do ensino não superior. Se para atualmente um professor conseguir atingir o topo da sua carreira precisa de ter 50 ou 60 anos, isso é uma realidade dececionante e pouco esperançosa. Esperamos que sejam efetivadas medidas por parte do Governo que permitam a existência de uma maior progressão da carreira, para que quando alguns de nós estudantes formos integrar o mercado de trabalho, possamos ter uma margem de progressão na carreira diferente e salários mais justos", diz..Quanto à medida temporária do Governo, que prevê que em caso de necessidade as escolas podem recorrer a quem tem licenciatura para dar aulas, João Caseiro reconhece que os estudantes prezam o "rigor"que a classe docente exige para lecionar.."Entendemos que em determinados momentos possam ter de ser efetivadas medidas alternativas provisórias e que não sejam as mais corretas. Mas nós prezamos muito o rigor científico e o rigor da formação. Se existem determinados graus de ensino que são os mais adequados para o posterior exercício profissional então essa deve ser sempre a via predileta" afirma, apelando a "um maior cumprimento da formação" dos professores.."Neste momento temos um futuro preocupante, que nos deixa um pouco reticentes. O futuro da educação pública de qualidade está em causa. Com o que está a acontecer neste momento, receio que o ensino público, que é um direito e um dever dos jovens, não será possível acontecer com as condições necessárias". São as palavras de Mariana Nunes, estudante do segundo ano do curso de Educação Básica na Escola Superior de Educação do Porto..Aos 22 anos, Mariana já pensa quais serão as condições que a profissão de educadora lhe oferece, para conseguir ter "uma vida com qualidade"."Há uma grande falta de valorização do pessoal docente e não docente. Os professores e educadores são bastante afetados psicologicamente com toda a carga de trabalho. Preocupa-me o meu futuro, porque vou provavelmente ter de me sujeitar a deslocar-me da minha zona de residência e não ter sequer possibilidade de pagar alojamento e deslocação. Pretendo construir família, portanto fico na dúvida se isso será sequer possível. Se as condições continuarem as mesmas, será que um dia vou ter de escolher entre ser mãe ou educadora? É difícil conseguir fazer ambos atualmente", desabafa..Para a futura educadora, a palavra-chave atualmente é "respeito". "A greve é um período curto e necessário para que no futuro as coisas se resolvam. Fui estudante no ensino público toda a minha vida e espero que um dia os meus filhos e netos tenham a mesma possibilidade de ter uma educação de qualidade como eu", confessa.."Os próprios alunos têm interesse em estarem presentes nas greves e manifestam juntamente com os professores. Esta luta está a chegar também aos estudantes, o que é muito importante". Catarina Ruivo confirma que também os futuros professores estarão presentes na Manifestação Nacional de professores, que decorre este sábado em Lisboa..A manifestação convocada pela FNE e Fenprof, vai contar também com a participação do S.T.O.P e espera-se milhares de docentes que vão descer a Avenida da Liberdade em direção ao Terreiro do Paço, para exigir a resolução de problemas e a valorização da carreira..Também os representantes das Forças Armadas e da Polícia de Segurança Pública prometem estar presentes "de forma simbólica" nesta que promete ser uma mobilização "histórica"..ines.dias@dn.pt