Alemanha. Simplesmente inspirador

Mala de viagem (4). Um retrato muito pessoal da Alemanha.

Entrei na região de Baden-Württemberg, no sudoeste da Alemanha, perto da fronteira com França e junto da Floresta Negra. Fui de Estrasburgo, que fica a menos de uma hora de carro. O destino foi uma cidade com tradição de 2.000 anos no aproveitamento dos seus recursos hidrominerais, pois as legiões romanas procuravam-os para tratar os feridos. Desenvolvendo-se faustosamente desde o século XIX, Baden-Baden cedo se tornou na principal estância alemã da Belle-Époque. A lista dos seus visitantes é o reflexo da nobreza, dos diplomatas e das celebridades do século XIX, quando na Europa havia a "Paris francesa" e a "Paris alemã" para os meses de verão. Reis, rainhas e imperadores, artistas, escritores e músicos ilustres passaram por Baden-Baden, que oferecia ambientes naturais e espaços edificados de grande qualidade. Levei comigo um recorte da revista portuguesa "O Panorama", de 3 de dezembro de 1842, que refere: "Durante a estação dos banhos, todos os dias em Baden são de festa. Os lugares de distracção e recreio são numerosos: póde um estrangeiro demorar-se algumas semanas, e todos os dias ha de ter um novo e divertido passeio. Ao falecido grão-duque, Carlos, pai do actual reinante, se deve a obra sumptuosa que intitulam "casa de conversação": aquelle principe comprou uma porção de terreno ao sul da cidade, onde fez levantar o nobre edifício, que consta de salas e galerias, tendo contiguo à direita o theatro e a bibliotheca, e à esquerda casa de pasto e bilhares com tal ordem, serviço e luxo, que não desdiz dos melhores estabelecimentos deste genero de Londres e Paris: os jardins, a matta, as alamedas, tudo com grandeza, fazem este sítio sobremaneira delicioso: no parque há varias paragens para descanso dos que passeiam, sitas em pequenas alturas, onde se vai ler sem cansaço de subida". À parte este recorte percorri as ruas na grande profusão e sumptuosidade de elementos artísticos da cidade. O "Kurhaus", um dos mais importantes casinos da Europa, foi o centro da vida mundana e é envolto por um parque magnífico. Próxima, a "Trinkhalle" (antiga "buvette") tem o maior interesse formal no seu peristilo de arcadas sustentadas por 16 colunas coríntias, decorado de frescos que representam as lendas da Floresta Negra. Do lado oposto, o Teatro é uma versão neobarroca da Ópera Garnier, luxuosamente decorada. E, finalmente, o "Friedrichbad", que continuou com a atração do banho irlando-romano, e também as mais modernas termas da cidade, denominadas de "Caracala", com o charme e o fascínio da arte da nostalgia. A visita à cidade é toda ela uma história para sonhar. Fiquei no Brenners Park Hotel and Spa, afinal o gasto limitava-se a apenas duas noites e assim pude reviver os mesmos espaços por onde andaram celebridades e membros da realeza de outros e destes tempos. Cheguei e logo tive uma consulta médica e uma proposta de desintoxicação pela desconexão com o mundo. Não houve comunicações e o mundo pareceu ter parado.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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