O que já deveríamos ter feito ontem pode toldar os planos do que devemos fazer amanhã, com olhos postos no médio prazo. É assim na gestão das empresas ou do país. As urgências, em termos económicos, requerem medidas tomadas no tempo certo e não devem ser os destaques da folha de rosto de um programa de médio alcance firmado na concertação social até 2026. Ter-se alcançado um acordo entre o governo e os parceiros sociais merece nota positiva e dá um sinal de previsibilidade e estabilidade que é relevante para os empresários, em matéria de política de rendimentos e de competitividade..De novo foi valorizado o importante papel da concertação social e foram definidas balizas que permitem olhar para o futuro, mas há muito mais para fazer. Num curtíssimo prazo de discussão e maratona negocial, entre sexta-feira e sábado, não se foi longe o suficiente, nem para trabalhadores nem para patrões. Os parceiros, com semblante algo pesado no final da conferência de imprensa de ontem, lançaram críticas à forte pressão que o Executivo terá exercido para se fechar um pacto (quase à força) antes do Orçamento do Estado para 2023, que será entregue hoje na Assembleia da República..O que ouvimos, e que trazemos hoje à manchete no Diário de Notícias, é curto em matéria de ambição para um prazo de quatro anos. Era preciso fazer um brilharete com este acordo que se quer de médio prazo, ou seja, para quatro Orçamentos do Estado. Como diz o povo, "a pressa é inimiga do ótimo". Do ponto de vista governativo, para António Costa o acordo em concertação social é uma grande vitória política. Mais do que para os parceiros, é o primeiro-ministro que sai por cima e, no seu discurso este domingo, no Palácio Foz, fez questão de sublinhar que "nenhuma maioria se basta a si própria", que o governo sabe ouvir os outros e "redinamizar o diálogo"..O problema é que "este não é um ponto de chegada, mas um ponto de partida", como alertou António Saraiva, presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP). Muitas das previsões do governo já foram atropeladas pelas consequências da guerra e a incerteza e imprevisibilidade prometem não dar tréguas no próximo ano e seguintes. Assim, faltam medidas mais estruturantes e reformistas até ao final da legislatura. À exceção da simplificação e desburocratização, as medidas relativas a ajudas à agricultura, ao combate à inflação ou à alta dos preços da energia parecem ser mais conjunturais do que estruturais. "Deitar mãos à obra" é preciso, como disse o primeiro-ministro, mas a obra deve ser concretizada e sair do plano das boas intenções para deixar um legado para as gerações vindouras.