Gostava tanto de ver Samarcanda

J"aimerais tant voir Syracuse, l"île de Pâques et Kairouan
(Bernard Dimey, Henri Salvador, Syracuse)

Quem na sua infância sonhou em voz alta com as páginas dos atlas, com aqueles nomes mágicos que evocavam lugares deslumbrantes e passagens secretas, Samarcanda, Trebizonda, Siracusa, ilha da Páscoa e cabo Horn, quem acompanhou a leitura dos livros de viagens com o percurso dos seus próprios dedos nos mapas que se abriam em frente, quem assim viajou na infância por todos os caminhos da imaginação chega no final das suas viagens reais na vida à conclusão de que o mundo todo que se lhe ofereceu era pouca coisa ao lado das extraordinárias promessas que os mapas traziam.

Antes das sucessivas edições, com e sem fotografias, dos atlas escolares de João Soares, tive um encontro fulgurante, aos 10 anos de idade, com um atlas francês que era do meu bisavô, datado de 1913. A mudança do desenho das fronteiras da Europa, de atlas para atlas, de grande guerra para grande guerra, era para mim um motivo de interrogação e de espanto. O sonho para que os mapas abriam era portanto atravessado pelo tempo, a geografia era transformada pela história, os anos mudavam o desenho dos mapas. Depois, nos anos 1960, era a África que se recompunha em cores diferentes, à medida que as grandes manchas dos territórios coloniais eram substituídas pela policromia dos novos Estados independentes.

O fascínio com as palavras dos mapas foi o princípio de um desejo do mundo, que me levou mais tarde a outras escolhas e a outros encontros. Era criança quando olhava do cais de Vila Real de Santo António para a margem do outro lado do Guadiana e pensava estar em frente do desconhecido para além de mim próprio, um apelo de exotismo e de lonjura que a pacata e familiar Ayamonte estaria longe de merecer. Mas que diferença há entre sonhar com Ayamonte e sonhar com Samarcanda, enquanto elas são apenas palavras a brilhar no céu da imaginação?

Mais tarde foram frases inteiras que me levaram ao sonho. Por exemplo, André Malraux escreveu no final das Vozes do Silêncio: Eu vi o oceano malaio constelado por medusas fosforescentes. Nunca estive na Malásia e nunca vi medusas fosforescentes. E podem crer que isso me dói tanto como nunca ter visto Samarcanda.

Proust, a propósito de Veneza, descreve a desilusão que advém de visitar um lugar que demasiadamente se sonhou. Nunca senti essa desilusão. A diferença entre as coisas reais e as coisas imaginadas sempre a vivi como ganho e não como perda. Veneza deslumbrou-me para além de todas as frases, o Brasil apaixonou-me bem mais do que todos os romances e ainda hoje sinto algum tremor no coração antes de chegar a Paris. Porque digo então que em tantos anos de viagens e de expatriações não vi cumprir a promessa que as palavras dos atlas me traziam?

Porque nada chega ao limiar da expectativa que uma palavra faz nascer num sonho de infância. Trebizonda, Samarcanda, Tombuctu, Mompracém: algum dia vos encontrarei? Onde estão os mercadores das mil e uma noites, os piratas generosos, as mulheres altivas e todas aquelas muralhas levantadas na frente dos meus desejos?

Gostava tanto de ver Samarcanda!

Escritor e diplomata

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