Premium A hiperpolarização americana

Todos os indicadores apontam para um afastamento sustentado entre democratas e republicanos.
Não há chão comum, diálogo ou negociação construtiva. Há razões para isto. E sintomas alarmantes.
A polarização já terá atingido o seu pico na América?

Os últimos dias da política americana passaram as linhas vermelhas da decência democrática. O presidente Trump exercitou a enésima versão do seu narcisismo sem o mínimo de cuidado com a verdade clínica sobre o seu estado de saúde, numa constante trapalhada de boatos vindos da Casa Branca e explicações médicas truncadas. A manipulação das emoções numa fase decisiva da campanha promove não só o risco propositado em afundar as instituições numa disfuncionalidade destravada como cria uma sensação de vazio com o objetivo de retomar o ciclo de atenção noticioso apenas e só em Trump.

No final de mais este carrossel político, ninguém percebeu com o rigor que se exigia o que teve, como ultrapassou e que limitações físicas traz consigo o presidente americano. Na sua lógica, apenas interessa passar a ideia de invencibilidade, de um vírus derrotável sem vacina, de um fracasso estrondoso dessa grande conspiração chinesa que não faz mais do que infetar a América para a destruir. Pelo meio, retomou a ameaça da "extrema-esquerda", sempre a fazer de um vírus que matou 210 mil americanos uma irrelevância, terminando numa coreografia mimética de ditadores antigos acenando, sozinho, na varanda da Casa Branca, com ar de dono da República. O America first é, em boa verdade, um exercício diário de Trump first.

No final da semana, um misto de incontinência verbal, honestidade e desproteção constitucional tomou conta do discurso republicano. O senador do Utah, Mike Lee, resolveu escrever no Twitter o epitáfio destes quatro anos de Trump: "A democracia não é o objetivo; liberdade, paz e prosperidade são." Ou seja, já não existe qualquer pudor em assumir que o funcionamento institucional, constitucional e democrático da República americana deixou de ser a condição indispensável para se criar riqueza, assegurar estabilidade e garantir segurança.

No fundo, neste assalto ao partido republicano o que conta são única e exclusivamente os fins, todos legítimos, mesmo que pelo caminho se desfaça um sistema de regras e se erga um qualquer outro, no limite, autoritário e esmagador de adversários políticos, do pluralismo ideológico, da separação de poderes e de uma prática construtiva de negociação permanente. Mike Lee resumiu, dessa forma, a doutrina Trump em poucos caracteres: fixada nas diferenças insanáveis com os democratas, incendiada por ódio pessoal, cega na manipulação discursiva, desprezível sobre regras e tradições. No final do dia, há um preço a pagar por isto.

A fatura vai chegando a espaços. O incitamento à "vigilância eleitoral" - que não é mais do que incentivar à presença nos locais de voto de milícias armadas até aos dentes - é uma promoção desbragada da violência vinda do topo da hierarquia do Estado. A desvalorização pública dos planos para sequestrar a governadora democrata do Michigan, por parte de um grupo de supremacistas brancos, é mais um sintoma de uma solidariedade preocupante e que faz do comportamento deste presidente americano um atropelo à lei, à decência e à segurança interna. Devo dizer, no entanto, que não considero Trump a causa para os níveis extremos de polarização em que mergulhou a América, mas o sintoma mais alarmante da perversidade dos seus efeitos.

Há mais de duas décadas que o distanciamento entre a militância partidária republicana e democrata se vem acentuando. O bipartidarismo, ou seja, o chão comum de políticas públicas sobre o qual os partidos legislavam e davam retaguarda pública foi-se progressivamente esvaziando. Grandes decisões históricas como o Plano Marshall, as leis dos direitos civis ou a grande estratégia da contenção para a Guerra Fria tornaram-se bizarrias históricas impossíveis de recriar novas plataformas de entendimento nas últimas duas décadas. Talvez as principais que entretanto se forjaram resultaram da comoção nacional do 11 de Setembro (guerras no Afeganistão e no Iraque), mas cedo se desvaneceram como armas de divisão ideológica entre democratas e republicanos.

Os principais estudos apontam algumas razões para esta crescente polarização, que muitos dizem ter sido iniciada pela revolução republicana de 1994, quando a agressividade ideológica tomou conta de muitos setores do partido levando ao sucesso nessas intercalares, a meio do primeiro mandato de Bill Clinton. Uma dessas principais razões valoriza a cristalização de hábitos dos eleitores fiéis aos dois partidos, seja na militância do consumo televisivo, nas opções geográficas para a habitação, na escolha das vizinhanças, na educação dos filhos, nos rituais religiosos, nas rotinas de viagens, na abertura ao consumo exterior, na tipologia de socialização.

De acordo com estes trabalhos, tudo isso criou uma cristalização comportamental que agrupou de forma previsível e até homogénea a forma de pensar a imigração, os costumes, a economia ou as relações da América com o resto do mundo. Não será à toa que consistentemente os democratas vencem em grandes centros urbanos, cosmopolitas e multiculturais, e os republicanos em zonas mais rurais, menos povoadas e com traços de aproximação comunitária mais previsíveis. Todos estes vetores parecem à partida não políticos mas contribuem para um quotidiano padronizado que acaba por arrumar culturalmente os eleitorados, sem permitir uma margem alargada de interação ou integração entre si. Daqui aos estereótipos foi um passo curto. O consumo informativo pelas redes sociais exponenciou de forma intempestiva a balcanização ideológica, ao mesmo tempo que acelerou a intolerância a quem pensa diferente. Daqui ao discurso do ódio foi um passo ainda mais curto.

A política é também o reflexo de transformações sociais, de hábitos de consumo e de padrões comportamentais. Bebe disto e alimenta o que lhe interessa. Nos EUA, embora não apenas aí, a polarização política da sociedade atirou a incompatibilidade ideológica partidária para um pico alarmante nestes anos de Trump. Foi atiçada e manipulada pelo trumpismo, mas não nasceu com o presidente americano. A grande questão é se atingimos o seu zénite e há alguma margem para diminuir a tensão, caso Biden vença, ou independentemente de quem ganhar as eleições esta tendência polarizadora tender-se-á a agravar. Tendo a dar o benefício da dúvida à primeira, mas muito vai depender de quem liderar o discurso republicano, caso Trump perca. Mike Pence será um dos senhores que se segue. Apesar do estilo sóbrio, não alimentemos nenhuma expectativa positiva. A democracia americana vai precisar de uma refundação do partido republicano.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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