Werner Herzog: "Todo o documentário é uma falsificação"

Regresso de Werner Herzog aos cinemas com Family Romance, LLC, história de uma excentricidade japonesa real. O cineasta fala sobre o filme mas também do gosto por ser um vilão Disney na série Mandalorian e do segredo do seu ritmo imbatível a realizar filmes.

Ao vivo, Werner Herzog enfrenta a imprensa internacional com um sorriso sereno e sempre cáustico. É um pouco a sua imagem de marca, mais o seu sotaque inglês, que agora é copiado por comediantes. O realizador alemão é por estes dias também uma figura da culturapop, graças sobretudo ao seu papel na série Mandalorian, da Disney + (spin-off de Star Wars), mas foi no contexto da atribuição do prémio de carreira da Academia Europeia de Cinema que o DN chegou à fala com o homem. Em vésperas da estreia de Family Romance, LLC (a partir desta quinta-feira nos cinemas portugueses), Herzog falou sobre cinema europeu, o seu método de trabalho e este seu último trabalho, um híbrido entre ficção e documentário que revela uma empresa que aluga humanos para criar emoções na Tóquio dos dias de hoje. Um filme estreado em Cannes 2019 e que já está a ganhar fama de objeto "maldito".

Um prémio da Academia que celebra o cinema europeu... Qual o significado que tem para si, um cineasta radicado nos EUA e que faz cinema em todo o mundo?
O cinema europeu per se não existe, felizmente. Existem demasiadas identidades culturais para apenas um estilo de cinema. Mesmo na Alemanha não existe só um cinema, os filmes bávaros são completamente distintos. Era bom que o cinema europeu continuasse a ser desregrado.

Tem estado sempre a alternar entre ficção e documentário. Este Family Romance, LLC foi anunciado em Cannes como um documentário, mas obviamente tem muita ficção...
Sim, as pessoas têm de ter cuidado quando dizem "um documentário do Werner Herzog". A maior parte deles são ficções disfarçadas a fingir que são documentários. Claro que tenho documentários mesmo documentários, como o do Gorbachev, mas muitos são inventados, nomeadamente porque recorri a guiões, fiz castings, ensaios, enfim, tudo o que se faz numa ficção.

Podemos falar em vigarice artística?
Sim, a ficção em Family Romance, LLC é vigarice, mas todo o documentário é uma falsificação, sobretudo se acharmos que falsificação é aquilo que é inventado. Neste caso, as invenções têm a sua base no real. A senhora que quer saborear a vitória na lotaria é invenção minha, tal como a cena na plataforma do comboio-bala, mesmo sendo baseada num facto real. Creio que é uma pergunta muito profunda aquilo que constitui ou não verdade no cinema, na poesia ou na música... As pessoas pensam que nos documentários não se pode inventar mas eu discordo! Se o invento é a bem de uma verdade mais profunda e tenho Miguel Ângelo como testemunha quando cria a Pietà. Ao olharmos para o rosto de Jesus estamos a olhar para um homem de 33 anos, embora a sua mãe tenha um rosto de 17 anos... Portanto, estará Miguel Ângelo a enganar-nos? Estaria a contar-nos uma mentira? Estava a dar-nos fake news? Não! Estava a dar-nos uma verdade mais profunda! Faço o mesmo.

Há quem acredite que a sua geração de cineastas tinha mais ousadia...
Sim, mas se está a pensar no Fassbinder advirto que não concordo que tenhamos sido um movimento. Eu e Fassbinder nunca representámos o cinema alemão. Acredito sim que o cinema bávaro tenha tido uma energia específica barroca. Mas nunca fui de figurações icónicas, sou apenas um cineasta bom trabalhador. Isso da coragem não sei... Limito-me a fazer o meu trabalho.

Tem alguma ideia porque foi convidado pela Disney para a série Mandalorian?
Porque acham que sou competente a fazer personagens dúbios e perigosos. Na verdade, tudo se deveu ao facto de o mandachuva Jon Favreau ser fã dos meus filmes. Ao escolher-me como ator quer que as pessoas de todo o mundo descubram e vejam a minha obra. Aceitei porque acho que consigo fazer isso bem e gosto de, por vezes, sair de trás da câmara e pôr-me à frente dela. Obviamente, tenho aceitado muito poucos convites. Jack Reacher [2012] deu-me particularmente gozo porque a minha missão era provocar medo no espectador - sempre soube que podia criar uma figura assustadora. Não tive de ir a nenhum casting, nem competir com qualquer outro ator. Agora, não tenho tido tempo para representar pois acabei três filmes, o últimos dos quais sobre meteoritos. Tenho de passar muito tempo na minha casa de Los Angeles a montá-los. Estou agora com um ritmo de trabalho muito maior. Antes lançava um filme por ano, agora são três!

Como é que consegue?
Só lhe digo que não sou um workaholic, não estou na sala de montagem mais de cinco horas por dia, o máximo são seis. Isso chega porque me permite avançar dez, 15 minutos por filme. Em dez dias consigo montar uma longa-metragem. Grizzly Man [2015] foram apenas nove dias, não me custou nada. Os produtores queriam que eu em dez dias fizesse um corte provisório para levar ao Festival Sundance e, qual não foi o espanto, entreguei a versão final - não sou de working in progress. Sou rápido a trabalhar, escrevi o argumento de Aguirre - A Cólera dos Deuses em dois dias num autocarro apenas com passageiros alcoolizados. Era a minha equipa de futebol. Estávamos todos bêbados com cerveja bávara mas não larguei a minha máquina de escrever pequena. A dada altura, já depois da fronteira com a Áustria, o guarda-redes acabou por vomitar sobre a minha máquina. Tive de o expulsar e ainda perdi algumas páginas... Devo dizer que esta minha equipa de Munique, os pretos e amarelos, não estava em divisão nenhuma. Eu jogava muito bem a avançado de centro, era ótimo a ler o jogo, mas todos os meus colegas eram melhores e mais rápidos. Marcava muitos golos porque a minha leitura de jogo permitia-me ler o jogo melhor do que todos. Foram tempos de um prazer dos diabos!

O futebol ensina mais um cineasta do que a escola de cinema?
Sim! Qualquer atividade atlética é natural para um cineasta... O meu sonho era ter sido um atleta de saltos na neve! Cheguei a ter treinos numa base muito séria e estou em crer que teria sido bem razoável. Só não continuei por motivos trágicos: o meu melhor amigo teve um acidente fatal num dos treinos. O esqui acabou abruptamente para mim, foi de um segundo para o outro.

Sabe-se que não é nada apoiante das escolas de cinema...
Muito sumariamente acredito que não potenciam os jovens a fazer projetos verdadeiramente inovadores. Diria que são prisões com pena muito longa e excesso de teoria. Aliás, a teoria é a morte do cinema! Tenha a sensação de que o ensino deveria contemplar um estilo de guerrilha. O que um aluno precisa para fazer filmes aprende numa semana apenas! Refiro-me aos princípios mais básicos. As escolas de cinema só ajudam os que vão ser montadores, diretores de fotografia ou os que queiram vir a trabalhar num âmbito digital. O que é importante para fazer cinema é saber abrir uma fechadura e forjar um documento, em especial uma licença de filmagens. Eu próprio filmei com licenças falsas muitas vezes. Diria que é fundamental saber nunca ser apanhado. Um jovem cineasta nunca pode ficar à espera de ser convidado para filmar. Por exemplo, Family Romance, LLC começou de um dia para o outro. De manhã já estava a filmar sem medos! Comecei as filmagens sem dinheiro nem previsão de duração! Voltei à maneira de fazer filmes quando tinha 23 anos. Antigamente fazia filmes sem grande planificação!

Já agora, como vê esta forma nova de se ver cinema predominantemente através de plataformas digitais?
Todos veem agora filmes em streaming mas vamos continuar a ter filmes-evento para se ver no cinema, sobretudo coisas de ficção científica ou produtos para crianças, tipo franchise. Seja como for, o streaming tem uma vantagem grande, não obstante eu preferir ver cinema numa sala de cinema. Uma coisa é certa: não sou um nostálgico. A net fez que se descobrissem muitas das minhas obras antigas. Há pessoal mais jovem a descobrir os meus filmes antigos.

As suas escolhas de atores parecem dar uma indicação que procura sempre um carisma masculino muito determinante. Parece evidente que de Klaus Kinski a Nicolas Cage há essa marca...
Isso é verdade. Christian Bale é um excelente representante disso mas, por favor, não os ponham na categoria de Kinski. Já trabalhei com os melhores dos melhores, mas nunca encontrei alguém com o peso da alma de Bruno S., o protagonista de O Enigma de Kaspar Hausen [1974]. Devo confessar, de resto, que quando fiz filmes americanos nunca procurei atores como Kinski. Afinal, quem era ele!? Claro que era tão único que nem uma paródia podíamos fazer com ele. Agora a sério, juntos fizemos bons filmes.

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