E as férias, covid-19, também nos vais mudar as férias para sempre?

Os últimos meses têm sido de clausura, medo, perdas e incerteza em relação ao futuro. Mas falta pouco para o verão. E o verão é o verão, sobretudo para os portugueses. Como o novo coronavírus vai condicionar as nossas férias e como está a afetar o setor do turismo e das viagens.

Com as viagens internacionais sujeitas a enormes restrições, a diminuição do rendimento disponível de muitas famílias e o medo de se expor ao risco que implica neste momento viajar, é provável que as férias dos portugueses que as tiverem, ou tiverem dinheiro para as gozar fora de casa, sejam passadas cá dentro como recomendava um célebre slogan do Turismo de Portugal muito anterior à pandemia ["vá para fora cá dentro"] e que nos tempos que correm seria uma hashtag de sucesso no mundo inteiro.

De facto, a tendência não é um exclusivo nacional. Especialistas internacionais na área do turismo e das viagens preveem que no próximo ano, ano e meio, sejam poucos os que se aventurem a sair do seu país. Fazer férias no mercado interno ou mesmo optando por ficar alojado na própria casa é apontado como a escolha provável das pessoas um pouco por todo o mundo.

Destinos de praia são os preferidos pelos portugueses, mas só no fim da semana que agora começa, segundo fonte do ministério do Ambiente, estará disponível o, chamemos-lhe assim, Manual de Instruções para Utilização das Praias em Tempos de Pandemia (não será este o título do documento que está a ser elaborado pela Agência Portuguesa do Ambiente com a colaboração de diversas entidades, entre as quais a Direção Geral de Saúde e a Autoridade Marítima Nacional, mas a ideia é esta), e será então mais fácil perceber até que ponto a abertura da época balnear a 1 de junho dará margem de manobra aos portugueses para marcarem férias (em casa ou fora dela) com a expetativa de poderem tomar banhos de sol e de mar sem que isso se torne um pesadelo logístico.

Talvez possam aproveitar a ideia de Itália, um dos países do mundo mais atingidos pela covid-19, onde, segundo a BBC, está a ser estudada a possibilidade de criar separadores de acrílico nas praias para delimitar o espaço entre banhistas.

Mas não serão apenas as novas regras de utilização das praias a condicionar o gozo de férias. Fechados, mesmo depois de 1 de junho, continuarão os parques de campismo, termas, piscinas, ginásios, spas, massagens, bares e discotecas. Restaurantes, esplanadas e estabelecimentos turísticos poderão abrir ao público já a 18 de maio, mas com lotação de 50 por cento, que garanta o distanciamento social, e sujeitos a medidas específicas ainda por definir. É expectável que alguns optem por continuar a assegurar apenas serviços de take away ou entregas.

O novo coronavírus estará omnipresente, não só nas medidas de restrição impostas que visam garantir o distanciamento social e a segurança das pessoas, mas na cabeça destas. A pensar nisso e na importância de reforçar a confiança de quem procura umas férias pelo-menos-um-bocadinho-livres-de-preocupação-constante-com-a-covid-19, o Turismo de Portugal criou entretanto o selo "Clean & Safe", "para distinguir as atividades turísticas que asseguram o cumprimento de requisitos de higiene e limpeza para prevenção e controlo da covid-19 e de outras eventuais infeções", que pode ser solicitado por empreendimentos turísticos, empresas de animação turística e agências de viagem.

A higiene, limpeza e segurança serão palavras-chave para a retoma da atividade turística. Em Portugal e no mundo inteiro. Mais importantes do que o melhor buffet (que nos próximos tempos não será uma opção), estar perto da piscina (de que adianta, se não podemos usá-la?) ou o serviço de spa (de que também não será possível desfrutar durante os próxmos meses). É isso que dizem os especialistas internacionais.

"Depois da covid-19, os consumidores darão provavelmente tanta importância aos procedimentos de higiene dos hotéis como ao preço e localização. O medo de contrair o vírus permanecerá mesmo depois de a pandemia ter terminado e os clientes vão estar muito atentos a questões como a limpeza ou a concentração de pessoas em espaços confinados", diz Ralph Hollister, analista de viagens e turismo na GlobalData, à World Traveller Magazine.

Rafat Ali, outro especialista em turismo, ouvido pela Vox , também destaca a importância que a limpeza e o espaço pessoal assumem neste momento e no futuro do turismo, tanto na viagem como no destino, e lembra a ironia de ainda há meses nos queixarmos do excesso de turistas nas cidades, um lamento que não voltaremos a fazer ou ouvir tão cedo, na sua opinião.

"O medo de humanos e lugares sobrelotados vai ficar gravado nos nossos corações pelo resto das nossas vidas", diz, prevendo que os alojamentos locais e airbnb - "que podemos nós próprios desinfetar" -,especialmente aqueles que ficam em lugares mais remotos e menos visitados, serão a escolha daqueles que primeiro se atreverem a viajar.

O carro, o comboio, os circuitos internos e as regiões menos frequentadas deverão ser a grande aposta turística do verão de 2020, segundo os especialistas, o que em Portugal poderá significar uma maior procura pelos destinos de campo e os turismos rurais, que têm mais espaço e menor lotação, apesar de o Algarve esperar ansiosamente pelo verão para suavizar a hecatombe que se abateu sobre aquela região que vive essencialmente do turismo.

A bomba no setor do turismo

Há uns anos, numa viagem à Croácia, a guia turística que nos mostrava a cidade de Zadar, onde persistiam marcas da guerra que nos anos 1990 desfez a antiga Jugoslávia, comentava que aos 13 anos, quando vinha da escola, sentiu o primeiro bombardeamento e a vida a virar-se do avesso de um minuto para o outro. Contava isto para dizer que lhe fazia medo um país, ou uma cidade, como o dela, estar quase todo dependente do turismo, porque de um dia para o outro uma bomba e tudo por terra.

A bomba neste momento é um vírus e caiu no mundo inteiro, afetando tudo, e, como nunca antes, o setor do turismo e das viagens, a nível global, com particular gravidade nos países que são destinos turísticos preferenciais.

A Organização Mundial do Turismo (OMT) revelou recentemente que 100 % dos destinos têm neste momento restrições de circulação devidas à covid-19, tendo 45% fechado total ou parcialmente as suas fronteiras a turistas, 30% suspendido total ou parcialmente os voos internacionais, 18% proibido a entrada de pessoas vindas de regiões mais afetadas pela pandemia e 7% imposto a quarentena ou o isolamento por 14 dias a quem entra no país.

Ontem, a mesma organização não governamental das Nações Unidas alertou para a possibilidade de o número de turistas internacionais diminuir de 60 a 80% em 2020 devido à crise pandémica, segundo noticiou a Agência Lusa.

As previsões baseiam-se em três cenários de saída da crise: reabertura das fronteiras e supressão das restrições de viagem no início de julho (descida de 58% nas chegadas), no início de setembro (-70%) e no início de dezembro (-78%).

"O mundo enfrenta uma crise sanitária e económica sem precedentes. O turismo foi duramente atingido e milhões de postos de trabalho estão em risco num dos setores da economia que mais mão-de-obra emprega", disse Zurab Pololikashvili, secretário-geral da OMT

A nível mundial, o setor perdeu 80 mil milhões de dólares (74 mil milhões de euros) durante os três primeiros meses do ano, considerando a organização que esta "é, de longe, a pior crise que o turismo internacional enfrentou desde que há registos (1950)".

Por outro lado, a OMT estima que 100 a 120 milhões de empregos diretos no setor estão ameaçados e apenas espera ter "sinais de recuperação no último trimestre de 2020, mas sobretudo em 2021", com uma retoma da procura interna mais rápida do que a da procura internacional.

Uma retoma que implicará transformações a que alguns operadores poderão não sobreviver. Aviões e aeroportos sobrelotados dificilmente serão uma hipótese enquanto o mundo estiver ameaçado pela pandemia ou as pessoas se lembrarem desta, o que na opinião de alguns especialistas nos fará voltar aos tempos em que viajar era proibitivo em termos de preço.

Máscaras e equipamentos de proteção para clientes e pessoal de bordo passarão a ser regra e a limpeza e desinfeção será não só mandatória como mais valia para os operadores. Nunca mais olharemos de lado para quem desinfeta bancos, tabuleiros, braços dos assentos ou tudo aquilo em que toque num avião ou em qualquer outro meio de transporte, porque esse gesto já faz parte do nosso dia-a-dia.

Quando forem levantadas restrições às viagens internacionais, quem se aventurar, terá que passar por diversos sistemas de controlo: higiénico e médico, sobretudo. Medição de temperatura, verificação da região de origem (e se é ou não das mais afetadas pela covid-19, o que levará talvez europeus e norte-americanos a experimentarem mais vezes a sensação de serem impedidos de circular), realização de testes rápidos à covid-19, como os que já estão a ser feitos pela Emirates, no Dubai, segundo a BBC, ou apresentação de um passaporte de imunidade (ou boletim de vacinas, se entretanto for descoberta uma vacina), além do passaporte eletrónico, poderão passar a ser controlos de rotina. Quanto a higienização, No aeroporto internacional de Hong Kong está ser desenvolvida uma cabina de desinfeção, que em 40 segundos higieniza o utilizador da cabeça aos pés, roupa incluída. O mesmo aeroporto, noticia a BBC, está a testar robôs de limpeza autónomos que andam pelo espaço a matar micróbios com raios ultravioleta.

Tudo estranho agora, mas sinal de que o mundo, apesar da ameaça pandémica, não desistiu de ir de férias. Nem de viajar. Nem de viver.

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