Juros para comprar casa caem para metade desde 2015

Juros a cair e concorrência na banca levaram o custo do novo crédito para mínimos. Banco de Portugal avisa para o risco de os spreads baixos afetarem a rentabilidade dos bancos.

Nunca foi tão barato pedir um crédito para comprar casa. Portugal é mesmo um dos países do euro em que os juros dos novos empréstimos à habitação são mais baixos. E desde o início de 2015, ano em que os spreads aplicados pelos bancos começaram a baixar, a taxa dos novos financiamentos caiu para metade.

Em média, os bancos cobram 1,34% pelo novo crédito, segundo os dados mais recentes do Banco Central Europeu (BCE) relativos a outubro. No início de 2015, altura em que os spreads aplicados no crédito à habitação começaram a baixar, o juro era de 2,78%.

Além da descida da margem de lucro dos bancos também a queda das taxas Euribor levou a que os juros no crédito encolhessem para mínimos. E como em Portugal a taxa variável continua a ser predominante, isso ajudou a que o custo do crédito à habitação seja dos mais baixos na zona euro. Apenas a Finlândia tem juros mais baixos, com uma taxa de 0,89%. A média do euro é de 1,80% e em Espanha o juro inicial do novo crédito é de quase 2%.

infografia dn

Banco de Portugal preocupado

Apesar de ser cada vez mais barato pedir crédito, o Banco de Portugal (BdP) mostrou preocupação pelo facto de os spreads aplicados pelos bancos serem cada vez mais baixos.

"A restritividade de outras condições, como os spreads, permaneceu inalterada ou foi sinalizada como estando em diminuição, devido às pressões concorrenciais no mercado de crédito", observou o supervisor liderado por Carlos Costa no último Relatório de Estabilidade Financeira, divulgado neste mês.

O BdP observou que desde junho de 2015 a margem dos bancos na diferença entre os juros que cobram no crédito e os que pagam pelos depósitos é mais baixa do que a média europeia. E avisou que os preços dos ativos imobiliários e "os spreads praticados no crédito à habitação e às empresas que continuam a diminuir" são as exceções no que diz respeito à "acumulação de risco sistémico cíclico". Os baixos spreads podem ser um risco para a estabilidade financeira, já que afetam a rentabilidade dos bancos numa altura em que o setor ainda está a tentar resolver problemas que foram criados durante a crise.

Para conseguirem bater a concorrência, os bancos têm esmagado as margens de lucro que cobram no crédito à habitação. São, de acordo com os preçários mais recentes, de 1% a 1,5%. No ano passado, o spread médio era de 1,74%, segundo os dados mais recentes do BdP. No início de 2015 era frequente exigirem-se margens acima de 3%.

Além de concederem crédito mais barato, os bancos estão também a aumentar o volume das operações. Nos primeiros nove meses do ano emprestaram quase 7,3 mil milhões de euros, o valor mais alto desde 2010. Houve um aumento de 1,3 mil milhões em relação ao mesmo período do ano passado. E face a 2015 o crédito concedido mais do que duplicou.

Essa aceleração levou o BdP a fazer uma recomendação aos bancos para cumprirem alguns limites antes de concederem novo crédito à habitação. Desde que essa medida entrou em vigor, no início do passado mês de julho, o ritmo dos novos empréstimos registou algum abrandamento.

Rui Barroso é jornalista do Dinheiro Vivo

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