Falem do futuro

O euro, o Erasmus, a paz. De cada vez que alguém quer defender a importância da Europa, aparece esta trilogia. Poder atravessar a fronteira sem trocar de moeda, ter a oportunidade de passar seis meses a estudar no estrangeiro (há muito que já não é só na União Europeia) e - para os que ainda se lembram de que houve guerras - a memória de que vivemos o mais longo período sem conflitos no continente europeu. Normalmente dizem isto e esperam que seja suficiente para que a plateia reconheça a maravilha da construção europeia e, caso não esteja já convertida, se renda ao projeto europeu. Se estes argumentos não chegam, conforme o país, invocam os fundos europeus e as autoestradas, a expansão do mercado interno ou a democracia. E pronto, já está.

Ao contrário dos seus 28 (tarda nada 27) Estados membros, a União Europeia é, além de recente, percebida como instrumental para a maioria dos europeus. Só que, ao contrário do que os europeístas mais entusiasmados acreditam - ou querem que sonhemos -, ninguém se comove ao ver hasteada a bandeira da União Europeia, ninguém lhe canta o hino, ninguém se diz europeu como um americano diz que é americano ou um português que é português. Isto não quer dizer que a Europa seja irrelevante, que os europeus estejam dispostos a (ou sequer desejem) perdê-la. Significa, isso sim, ninguém a ama por que sim. A Europa é uma construção política que tem de ser útil. E essa utilidade tem de ser percebida para o futuro. Não vale por si, pelo que deu ou dá. A paz, o Erasmus, ou o euro, sendo imenso, parecem pouco porque lhes falta o medo de os perder. E falta-lhes uma ideia, uma história para o futuro.

A Europa é uma construção política que tem de ser útil. E essa utilidade tem de ser percebida para o futuro. Não vale por si, pelo que deu ou dá.

Até à queda do Muro de Berlim, o Ocidente tinha uma narrativa - sobre as suas virtudes - e um medo do inimigo. Havia, e é esse o ponto, um modelo bom, que defendíamos, e um mau, que podia ganhar e contra o qual lutávamos. Essa história já é história. O medo, hoje, é do futuro que criámos. E o modelo bom não existe, é o que foi prometido e ninguém acredita que vá acontecer. É esse o problema ocidental e, para o que nos interessa, europeu.

Já toda a gente sabe que um número crescente de europeus vive angustiado com os efeitos da globalização, da digitalização da economia e das migrações. E que essas pessoas não acreditam que vivem no melhor tempo e lugar da história. Não tanto porque este tempo seja de enorme crise - não podemos desvalorizar a crise mas não podemos compará-la ao que foram outras, bem mais profundas e graves, mas sobretudo porque não acreditam que um dia vão viver melhor. É aqui que está o problema e, talvez, a solução.

Se os políticos europeus moderados querem recuperar a confiança dos eleitores precisam de lhes dizer que há mais para além da paz, do euro e do Erasmus. Têm de dizer que há uma ideia de futuro, uma ideia para o futuro. Que Europa, que mundo, é que estão a construir. Ou explicam isso, se tiverem isso para explicar, ou não têm nada que interesse aos eleitores. E vão, claro, perdê-los.

Consultor em assuntos europeus

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