Foram três anos a preparar esta Jornada Mundial da Juventude (JMJ) 2023. O mundo tinha os olhos postos em Lisboa e na Igreja Católica. O Papa enviou mensagens aos jovens, que os próprios disseram ser muito fortes. Mas faço-lhe a mesma pergunta que ele deixou no final. E agora? O que se espera que estes jovens para a vida real? Bem, para nós, é mais a expectativa que temos sobre o que eles vão levar, mas penso que, acima tudo, há uma certeza: é que estes jovens correspondem àquilo que o Papa lhes tem pedido sempre, que é testemunhos de vida. E acho que esta JMJ nos mostrou isso. Testemunhos de vida capazes de transformar o mundo. Está provadíssimo que, nós, adultos com vidas profissionais ativas, sociais, e políticas, não estamos a ser capazes de mudar o mundo, não conseguimos resolver o problema da pobreza, do Ambiente, do cuidar do Planeta, da Guerra. A esperança está nesta nova geração, que, como o Papa diz, são o presente e o futuro. É com eles que o mundo tem mudar. Precisamos que estes jovens voltem para os seus países, para as suas casas, famílias e amigos e sejam capazes de assumir o desafio pleno que o Papa lançou, que é o de mudar de vida e mudar o mundo..A Igreja acredita então que estes jovens podem ser, e como disse Francisco, uma "Geração de Mestres" ou de "Surfistas do Amor"? O Papa Francisco fala aos jovens da forma que eles entendem e que lhes dá confiança, dizendo-lhes "vocês são capazes", mas, mais do que a Igreja espera dos jovens, o que está verdadeiramente em causa é: o que os jovens esperam da Igreja institucional, da Igreja que vimos na JMJ, os milhares de padres, bispos, cardeais que também fizeram parte da jornada. E deste ponto de vista acho que os jovens têm de pedir, insistentemente, mudanças e esperar que estas aconteçam. Os jovens querem ser escutados, e isto foi uma coisa que nós, organização da JMJ, ouvimos muitas vezes. Mas não querem ser escutados para que tudo permaneça igual. Os jovens querem ser escutados para que aconteçam mudanças e a Igreja tem de ser capaz de lhes proporcionar a capacidade de fazerem essa mudança. O Papa Francisco tem feito isto em relação aos jovens e às mulheres, e acho que o faz com a consciência plena de que este é o caminho certo. Os jovens, e as mulheres também, têm de ter um lugar na Igreja. As coisas vão mudando, o Papa tem feito imensas nomeações e alterações, mas ainda há um grande caminho a percorrer..Mas virando agora para dentro, depois do que foi dito e vivido nesta JMJ, inclusive momentos como a interrupção de uma Missa na Ameixoeira para a comunidade LGBT quando o Papa dizia que a Igreja é de todos: o que tem a Igreja a mudar? Tem de ter a coragem de olhar de frente para as situações e de pôr o dedo na ferida, que é aquilo que o Papa Francisco também tem feito. Neste momento, tem de se ter a coragem de olhar para a JMJ que fomos capazes de fazer pelo país inteiro e de perceber o que correu bem, menos bem, e de tirar conclusões com transparência..Destaquedestaque"A Igreja tem de olhar com seriedade para dentro e ser capaz de, entre pares, entre filhos e irmãos no sacerdócio, refletir e perceber o que é que está mal, quem está a proceder mal e tomar uma atitude"..A Igreja de todos e para todos é possível? A Igreja tem de manter sempre viva a certeza da nossa Fé, que é Jesus vivo e ressuscitado está no meio de nós. Esta certeza é a única coisa que nos faz andar para a frente. Sem esta consciência de Jesus ressuscitado ficamos sem chão. A Igreja tem de fazer aquilo que o D. Américo Aguiar tem dito desde o primeiro momento desta JMJ e que o Papa Francisco anunciou com clareza: "Uma Igreja para todos". E este todos não é um todos imaginário, não é um todos poeticamente dito, não é um todos que deve ser alcançado idealmente num futuro próximo que não se sabe quando será. Não, este é um todos para hoje. É o todos para agora. E neste sentido a Igreja tem de ouvir os jovens, os casais, as famílias e os mais velhos e pensar que é uma Igreja de todos e para todos. Isto parece ser uma coisa muito bonita, mas nada fácil de se fazer, porque temos uma Igreja que tem trabalhado de forma muito setorial. Agora, pode haver uma tentação enorme de pensar: "Isto foi tão bom e correu tão bem" - é verdade. Foi muito bom. Tivemos 1,5 milhões de pessoas que responderam à chamada do Papa e que se reuniram, o silêncio que se ouviu no Parque Tejo no momento da adoração ao Santíssimo foi maravilhoso - mas isso não significa que possamos apagar aquilo que muitos jovens disseram, que querem uma Igreja para todos. Acho que a Igreja tem de ser capaz de olhar com verdade para o bom e para o menos bom desta JMJ e, depois, tirar conclusões. Mas será muito difícil haver mudanças se isto não for feito por todos, porque é um desafio enorme viver a Igreja de forma plena e em verdade..A Igreja portuguesa tem um longo caminho a fazer para atingir essa Igreja sem portas? Agora, estamos muito focados na Igreja portuguesa, mas não acho que seja só esta a ter de fazer esse caminho. Tem de ser a toda a Igreja. Nesta JMJ, tivemos coisas extraordinárias feitas pela Igreja de hoje. Estive no Bairro da Serafina com o Papa Francisco e, para mim, foi dos melhores momentos da agenda que vou guardar na memória e no coração, porque partilhámos dimensões de fragilidades de forma extraordinariamente bela e nas quais a Igreja está presente. Falamos de um bairro com carências, de crianças da Acreditar, com cancro, das crianças da Ajuda de Berço, realidades onde a Igreja está a intervir. Ou seja, não podemos desvalorizar o que correu menos bem, mas também não podemos deixar de valorizar tudo o que de belo aconteceu..Mas o que considera que correu bem e menos bem na JMJ? Agora é mais fácil falar disto, porque já passou. Se começássemos a organizar tudo agora, certamente que faríamos diferente, mas a organização de uma JMJ tem duas realidades muito difíceis. Uma é ter de ser feita a partir dos apoios que consegue angariar, sejam institucionais ou particulares, porque não há um baú de onde se possa tirar o que é preciso para realizar um evento desta dimensão; a segunda realidade é que, até ao fim, não sabemos efetivamente com que pessoas é que contamos..Destaquedestaque.Falou-se logo de um número, um milhão... A certa altura o D. Américo Aguiar referiu esse número mágico. Toda a agente queria saber números, mas, na verdade, não sabíamos quantos jovens se iriam inscrever, e quando não sabemos para quantas pessoas é que estamos a trabalhar e com quantos meios financeiros ou materiais podemos contar para realizar uma coisa destas, é muito difícil avançar. Por exemplo, deste ponto de vista houve questões logísticas muito difíceis. Se fosse agora, tenho a certeza absoluta que todos os colegas que estiveram a trabalhar nesta área hoje estariam muito melhor preparados do que estavam há dois anos para tomar decisões. Do ponto de vista da logística foi um desafio enorme. Do ponto de vista espiritual também, conseguimos ter momentos de beleza enormes nos vários encontros e eventos. A Via Sacra dos jovens foi um momento lindíssimo, o facto de se ter conseguido reunir aquele coro e orquestra, que vieram do país inteiro, que não se conheciam, resultando no trabalho artístico que ouvimos, para mim foi das coisas mais belas da JMJ, mas a Vigília também foi um ponto muito alto. E tudo isto nos ajuda a pensar muita coisa que queremos testemunhar ao mundo..Há um outro momento que aos olhos da sociedade marcou esta JMJ, o encontro do Papa com vítimas de abuso sexual logo no primeiro dia. E no regresso a Roma, o Papa disse que a Igreja que cometeu esses atos terá de ser responsabilizada. O que tem de ser feito? A Igreja tem de olhar com seriedade para dentro e ser capaz de, entre pares, entre filhos e irmãos no sacerdócio, refletir e perceber o que é que está mal, quem está a proceder mal e tomar uma atitude. Não podemos desvalorizar nunca mais uma situação de abuso, é isso que o Papa Francisco pede. Tolerância zero, portanto. A Igreja, por excelência, e porque a proposta que tem para oferecer ao mundo é de redenção, não pode apagar esta situação. Por outro lado, a sociedade no seu todo também tem de ajudar para se conseguir que as pessoas vítimas de abusos, sejam elas quais forem, tenham a coragem de denunciar. Isto é um esforço imenso, mas não pode ser um assunto que possa morrer aqui..O Papa veio a Lisboa reafirmar a Igreja que quer. Esta JMJ pode ser inspiradora para Assembleia Sinodal que vai acontecer em outubro? Acho que sim. O esforço que o Papa Francisco está fazer converge todo para aí. Tem-no feito sempre que fala sobre o que quer efetivamente, e o que quer é colocar um fermento numa massa que transforme. E a Igreja tem de se transformar, assim Deus nos ajude. É verdade que esbarramos sempre nas fragilidades dos homens e das mulheres, mas vamos acreditar que vai ser possível..Já falou do papel das mulheres. É assim tão difícil o reconhecimento deste dentro da Igreja? Temos 20 séculos de vida da Igreja. Neste tempo todo, a Igreja foi sempre dirigida por homens e nunca ninguém o tinha dito de forma tão clara e absoluta que as mulheres tinham que participar, tinham ter lugares e poder de decisão. Só o Papa Francisco é que o disse desta maneira tão aberta e transparente. Agora, há verdades que não se conseguem mudar no espaço de uma geração, acho mesmo que não será na minha geração que se vai conseguir ver essa mudança de forma tão efetiva, mas há sinais muito claros para que esta mudança aconteça. Vai ser preciso tempo, porque o que se passa na Igreja é o que se passa na sociedade, onde já vemos mais mulheres que homens mas nos lugares de decisão ainda há mais homens. A Igreja replica este padrão. A minha experiência tem sido de muita abertura, de capacidade de presença e de decisão, mas devo dizer que é um caminho que ainda está muito no início..Destaquedestaque.Depois de tudo o que se disse e viveu que balanço faz desta JMJ? A preparação e a concretização de uma JMJ traz ao de cima o melhor e o pior de nós próprios e isto é uma coisa que se estende a todos e também à vida da Igreja. Por isso, o balanço que faço é altamente positivo por termos sido capazes de fazer a jornada - e aqui gostava de destacar que esta JMJ 2023, não foi só de Lisboa, mas de um país inteiro que se mobilizou das aldeias às ilhas. Isto foi das coisas mais extraordinárias. Por exemplo, uma das coisas que me parece ter passado despercebida foi a peregrinação dos símbolos - o caminho que a Cruz e o ícone de Nossa Senhora fizeram pelo país inteiro. Depois, como disse, uma organização destas também traz ao de cima o melhor e o pior de nós. Há cansaços, há protagonismos, há rivalidades, mas depois também há a superação de tudo isto e o balanço é claramente positivo, desde logo por termos conseguido fazer esta JMJ, e depois porque os frutos que trouxe também ajudam cada um de nós a conhecer-se melhor..Durante a JMJ houve comentadores que disseram que o Papa Francisco já está a preparar a sua substituição. Ele tem a preocupação sobre quem vem a seguir? Acho que ele, certamente, tem essa preocupação. É natural que o Papa queira que todo o trabalho que tem vindo a fazer tenha continuidade e que tente encontrar pessoas que o façam. O Colégio Cardinalício está, progressivamente, a ser renovado, até por uma questão prática, os cardeais vão sendo renovados. Mas há uma coisa que, para quem tem Fé, é fácil de entender, para outras pessoas não é, e que tem a ver com a ação efetiva da presença de Deus no meio de nós. Portanto, temos de acreditar que a escolha de um novo Papa não é uma coisa meramente humana, tem uma dimensão espiritual que vai muito para além das questões de sucessão ou de posições na vida da Igreja. Temos de acreditar que há uma presença efetiva do Espírito Santo e que ele vai guiar a Igreja na escolha do próximo Papa..Viveu os dias da JMJ muito perto do Papa Francisco. Como é que ele se mostrou com um programa tão intensivo? Tive essa graça de estar muito perto. À partida, sabíamos que o Papa estava a recuperar de uma operação, mas todos ficámos surpreendidos com a atitude dele. Por exemplo, ele ficou até ao fim da Via Sacra, porque estava mesmo a vivê-la, e, no final do encontro, havia sempre mais algumas pessoas para cumprimentar e ele fazia-o. A entourage à sua volta procurava defendê-lo ao máximo e ele estava sempre a fazer o processo contrário, que era dar só o máximo. Penso que o Papa saiu daqui muito feliz, espero que sim. Aliás, antes de chegar ele disse que ia sair daqui rejuvenescido e acho que foi. O calor foi a coisa mais difícil de suportar.