Boas ideias não chegam

Em 2014, conseguiu-se uma proeza em Portugal: o governo, então com Passos Coelho aos comandos e Miguel Macedo na pasta da Administração Interna, e a autarquia lisboeta, liderada nesses dias por António Costa, puseram-se de acordo para criar um plano que permitisse reforçar estruturas e pôr mais polícias a garantir a segurança das ruas de Lisboa. Pela riqueza das soluções e valor dos objetivos estabelecidos e das ferramentas fabricadas para os atingir, a ideia teve até o mérito de contar com o agrado das estruturas de liderança da PSP e da Polícia Municipal. E depois Portugal voltou ao que é, deixando tudo esquecido na gaveta que transforma as boas ideias em pó.

Durante oito anos, mesmo mantendo-se na equação decisória António Costa, então já a comandar o governo que assumiu em 2015, mesmo tendo ele deixado o seu delfim, Fernando Medina, ao leme da cidade de Lisboa (onde ficou até perder as legislativas de 2021), nada aconteceu. Exceto o fecho de esquadras sem correspondência nas aberturas previstas e, claro, o aumento da insegurança na capital. De resto, nem mais esquadras, nem mais agentes nas ruas, nem nada do que fora gizado num plano de consenso alargado saiu daquelas páginas para a realidade.

Agora o problema já nem é só de Lisboa. Nas duas maiores cidades do país, em cujas ruas passam diariamente, além dos lisboetas e dos portuenses, milhares de turistas, o sentimento de insegurança tem crescido com cada novo episódio de violência ou crime registado. E se Portugal é ainda reconhecido como um dos países mais seguros do mundo - uma qualidade que lhe permite atrair turistas, imigrantes e negócios em melhores condições do que muitos outros -, descurar o valor da segurança pode deitar tudo a perder. Mas ainda vamos a tempo.

Se existe um plano que mereceu consenso alargado, que seja recuperado, que se ajuste o necessário até para chegar a mais cidades que possam precisar deste tipo de intervenção, que se alargue o âmbito onde for preciso, que se discuta o que merecer debate, mas sobretudo que se ponha em prática com brevidade. Dos três lados - governo, cidades e polícias - há vontade manifesta de resolver um problema que é de todos nós, que é do país e que pode agravar-se e comprometer o futuro de Portugal. Só é preciso que se sentem à mesa, como há oito anos. Mas desta vez, que dela se levantem de mangas arregaçadas e prontos para fazer acontecer a mudança.

Subdiretora do Diário de Notícias

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