Albânia. Um caminho próprio

Mala de viagem (3). Um retrato muito pessoal da Albânia.

Num bairro arejado de Tirana viveram familiares meus, poucos anos depois do 25 de Abril, porque eram militantes da União Democrática Popular (UDP). Eles desempenharam uma espécie de embaixadores informais de Portugal, na continuidade das relações diplomáticas entre a Albânia e Portugal, que remontam a 1922, quando Portugal reconheceu a independência da Albânia em 25 de maio desse ano. No período de poder comunista e de partido único, de 1944 a 1991, foram construídos enormes complexos de apartamentos e fábricas ao estilo brutalista. A Praça Skanderbeg foi redesenhada, com vários edifícios demolidos, por exemplo, o antigo Bazar Velho de Tirana e a Catedral Ortodoxa foram arrasados para construir o monumental Palácio da Cultura. A Praça homenageia o herói nacional albanês do século XV. A imponência da área e o conjunto de edifícios institucionais fazem desta a principal praça da capital. Parecemos formigas na vastidão de um traçado marcadamente de cariz comunista. Entrei na Galeria Nacional de Artes, onde me esperava um guia que nasceu precisamente no ano em que a minha prima também ali nasceu. Apresentou-se como Enver, curiosamente homónimo do presidente albanês do período comunista, Enver Hoxha. Na época do seu nascimento, ainda decorria o governo totalitário. Os seus pais eram militantes da causa comunista albanesa. Pedi-lhe para me mostrar, sobretudo, o Realismo Socialista. Explicou-me que as pinturas, os cartazes e os desenhos produzidos durante o regime visavam difundir os princípios do socialismo entre o povo e impactar a ideologia comunista nas artes visuais albanesas, durante a segunda metade do século XX. De conteúdo dogmático, as obras fazem parte da cultura e da identidade do povo albanês, da classe trabalhadora, dos retratos de lideranças, das representações do regime, num período histórico muito controverso e num contexto cultural da Albânia socialista, que é sintomático do clima geral de austeridade e controlo que governou o país durante cerca de cinquenta anos. Fiquei impressionado, e antes do regresso consultei informação sobre a temática artística desse período. Da arte oficial comunista, retenho a Escola de Arte e Pintura Realista de Tirana (1930-1950). Trata-se de artistas da primeira escola de arte de Tirana, de que se destaca Sadik Kaceli, estudante de Belas Artes, em Paris, de 1936 a 1941, considerado um dos melhores pintores albaneses da sua época. O regime comunista confiou-lhe a realização das primeiras notas emitidas em 1945, bem como o desenho das armas da República Popular Socialista da Albânia. E na escultura, retive o nome de Odhise Paskali, a quem se deve a estátua de Skanderbeg, que fica ao lado da Praça onde estive. Uma outra tendência artística é a construção do "Homem Novo" (1960-1986), totalmente sob a influência do Realismo Socialista importado da União Soviética, desenhando e pintando militares de traços perfeitos e corpos musculosos. E, por fim, a Pintura Formalista do Socialismo Realista (1969-1974), após a rutura com a União Soviética, em que a arte oficial albanesa teve de se reinventar, ser mais experimental, num país que, nestes últimos tempos, devagar se desenvolve, reinventando-se.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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