Uivar com os lobos... ou não

Donald Trump já ganhou a guerra com os media. De cernelha, mas ganhou. Acantonou-os à discussão determinante para a sua credibilidade - a da isenção. E que vai determinar a forma como se fará jornalismo nos próximos tempos. Primeiro nos Estados Unidos, depois no mundo, como quase sempre acontece.

Foi Trump quem começou a discussão, polarizando, ao seu estilo. Elegeu os jornalistas como inimigos, acusou-os de não serem isentos - virou a expressão fake news contra as principais vítimas. Alguns responderam entrando na guerra - como o The Washington Post, que se deu como mote "a democracia morre na escuridão". Outros acusaram o toque e refizeram o compromisso de isenção, como o The New York Times, com uma campanha sobre a ideia de que a verdade é "complexa", "difícil de encontrar", mas "mais importante do que nunca"...

Essa campanha rendeu-lhes mais subscritores em 24 horas do que nos seis meses anteriores. Mas isso acabou por tornar-se um problema. A partir daí, era à verdade desses leitores que iam ter de responder. Era isso que eles esperavam - que o jornal que assinam espelhasse as suas crenças e fosse tão militante anti-Trump como eles. A verdade não é simples, nunca foi, e é ainda menos nestes tempos divididos.

Esta semana a polémica estalou com o título que o jornal escolheu para manchete do ataque de El Paso: "Trump urges unity vs. racism" (Trump pede unidade contra o racismo). A comunidade de leitores enfureceu-se, achando que o título legitimava a narrativa do presidente - contra a ideia de que era ele próprio o incentivador dessa ideia de racismo. Choveram tweets de ódio, foi criada a #cancelnytimes, ameaçando cortar as assinaturas.

E o que fez o jornal? Alterou o título. "Condenando o ódio mas não as armas", dizia a segunda edição. O diretor, Dean Baquet, assumiu a mudança, apesar de ter garantido não "acreditar ser o papel dos jornais tornarem-se líderes da oposição". Esqueceu-se de que os seus leitores achavam o contrário. "A América de Trump tornou os americanos muito zangados e desconfiados das instituições. E alguns acham que as redações devem ser os adversários de Donald Trump, outros acham que somos os adversários de Donald Trump a abater", disse Baquet à Columbia Journalism Review.

A mudança de um título por pressão dos leitores é mais do que significativa do grau de fragilidade atual da imprensa americana - entre um presidente imprevisível e a pressão exacerbada pelas redes sociais. E, agora também, confrontada com o novo poder dos assinantes que ganham a forma de "multidão de interesses". Podem escolher entre pagar ou não. E porque são cada vez mais importantes para as finanças do jornal - quatro milhões, mais de 60% das receitas do The New York Times - estão mais poderosos.

As redações estão ainda a habituar-se a esta ideia de estarem mais dependentes dos seus leitores do que estavam antes da internet. As assinaturas digitais até pareciam uma ideia benévola, o sonho de depender dos leitores. Com elevado potencial, até democrático. Mas acaba por fazer nascer uma outra espécie de jornalismo - tendencialmente engajado com ideias que estejam de acordo com a audiência. E, definitivamente, menos independente. É esta a lição que o The New York Times deu esta semana: os dias da objetividade e independência jornalística vão ser cada vez mais duros.

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