A religião volta à política?

O número de pessoas que dizem não seguir qualquer religião aumenta na Europa e EUA, mas à direita a aposta em discursos decalcados do fundamentalismo religioso tem vindo a ganhar adeptos, incluindo por cá. Interrogações sobre um paradoxo.

A expressão "ideologia de género", ultimamente tão brandida por alguns setores da direita ocidental, tem a sua génese em escritos do cardeal Ratzinger, antes de se tornar Papa. E nasceu do combate ao feminismo.

"Atualmente considera-se a mulher como um ser oprimido; a libertação da mulher serve de centro nuclear para qualquer atividade de libertação tanto política como antropológica com o objetivo de libertar o ser humano de sua biologia", escreveu Ratzinger em 1997. "Distingue-se então o fenómeno biológico da sexualidade das suas formas históricas, às quais se dá o nome de "género", mas a pretendida revolução contra as formas históricas da sexualidade culmina numa revolução contra os pressupostos biológicos. (...) Tudo isso, no fundo, dissimula uma insurreição do homem contra os seus limites como ser biológico. Opõe-se, no limite, a ser criatura. O ser humano tem que ser seu próprio criador, versão moderna de aquele "serei como deuses": tem que ser como Deus."

Ratzinger apontou a libertação da mulher como "centro nuclear" de uma ofensiva contra o "determinismo biológico" e portanto "a ordem divina" -- a "ideologia de género"..

Neste texto, que foi visto como uma reação à Conferência de Pequim sobre a Mulher, de 1995 - na qual, sob a égide da ONU, se reconheceu a desigualdade entre homens e mulheres como um problema estrutural e se afirmou a necessidade de uma perspetiva de género -, fica claro que o atual papa emérito tinha dúvidas sobre a opressão da mulher (afinal, seria a sua "natureza" estar num lugar "diferente" do do homem) e via a ideia da sua emancipação e a libertação dos papéis e estereótipos de género, defendidas pelo feminismo, como uma forma de insurreição contra a divindade.

As mesmas ideias foram repetidas em documentos do papado de João Paulo II, nomeadamente a Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a colaboração do Homem e da Mulher na Igreja e no Mundo, de 2004 e também assinada por Ratzinger. Nesta, lê-se: "A diferença corpórea, chamada sexo, é minimizada, ao passo que a dimensão estritamente cultural, chamada género, é sublinhada ao máximo e considerada primária. O obscurecimento da diferença ou dualidade dos sexos é grávido de enormes consequências a diversos níveis. Uma tal antropologia, que entendia favorecer perspetivas igualitárias para a mulher, libertando-a de todo o determinismo biológico, acabou de facto por inspirar ideologias que promovem, por exemplo, o questionamento da família, por sua índole natural bi-parental, ou seja, composta de pai e de mãe, a equiparação da homossexualidade à heterossexualidade, um novo modelo de sexualidade polimórfica."

E, mais à frente: "Muitas são as consequências de uma tal perspetiva. Antes de mais, consolida-se a ideia de que a libertação da mulher comporta uma crítica à Sagrada Escritura, que transmitiria uma conceção patriarcal de Deus, alimentada por uma cultura essencialmente machista. Em segundo lugar, semelhante tendência consideraria sem importância e sem influência o facto de o Filho de Deus ter assumido a natureza humana na sua forma masculina."

Portanto, ao mesmo tempo que se parece querer negar uma conceção patriarcal de deus, sublinha-se ser fundamental "o Filho de Deus ter assumido a forma masculina" - esse sendo, aliás, um dos argumentos da hierarquia da Igreja Católica para não ordenar mulheres; o outro tratando-se da certificação de que "os 12 apóstolos eram homens", interpretação contestada por quem lembra que havia mulheres que seguiam Cristo, e portanto que a própria designação dos apóstolos como sendo só homens é em si consequência dos estereótipos de género.

Mas não cabe aqui analisar a fundo a ratzingeriana ideologia de género - aqui em verdadeira aceção da expressão - e as suas deliciosas contradições. Apenas tornar claro que este estandarte de uma parte da direita ocidental se funda numa guerra sem quartel contra a libertação da mulher. E que essa guerra é religiosa, mesmo que não a apresentem como tal ou, quiçá, não se deem disso conta.

O que nos coloca perante um paradoxo: o que leva uma parte da direita europeia a achar que meter a religião na política pode ter sucesso? É que não só todos os inquéritos demonstram um crescimento do número de pessoas que se afirmam não religiosas e das que, mesmo se se afirmam religiosas, se assumem maioritariamente "não praticantes", como parece incontroverso que o motivo deste paulatino "divórcio" com as religiões terá a ver com a diferença entre a forma como as pessoas pensam e vivem e aquilo que os códigos religiosos prescrevem.

Isso mesmo defende a investigadora britânica Linda Woodhead, cujos estudos dão a ver, desde 2013, uma maioria de "não religiosos" no seu país: "A sociedade tornou-se menos religiosa e as religiões ficaram mais religiosas. As igrejas exacerbaram o processo."

"A sociedade tornou-se menos religiosa e as religiões ficaram mais religiosas. As igrejas exacerbaram o processo."

Mesmo em Portugal, que é com a Itália e a Irlanda o país da Europa Ocidental que num estudo de 2017 do Pew Research Center apresenta menor número de respondentes que se dizem não religiosos (15%), a percentagem quase triplica, segundo um inquérito de 2016 encomendado para o sínodo dos bispos católicos à universidade londrina St. Mary"s e ao Instituto Católico de Paris, se tivermos apenas em conta os jovens dos 16 aos 29 anos: 42%.

Por outro lado, se 83% dos respondentes portugueses ao inquérito do Pew Research se identificam como cristãos/católicos, só 35% se dizem praticantes. E mesmo entre esses a percentagem dos que são a favor de dois interditos da moral oficial católica - o direito das mulheres a abortar e dos homossexuais a casar - é bastante significativa: 45% e 43%, respetivamente. Sendo que entre os cristãos/católicos não praticantes a esmagadora maioria ( 67% e 64%) se dizem favoráveis a essas duas ditas "fraturas", acima dos valores indicados para a "população geral": 60% e 59%.

Será pois para uma franja cada vez menor - confirmando-se as tendências - do eleitorado que a direita de inspiração Bannon, que já surgiu em Portugal, dirige o seu discurso. Não pode então estar à procura de unir, congregar e pacificar; quer dividir e aprofundar a conflitualidade social. Não se importa de ser minoritária; só quer afirmar-se. Aparecer. Esta suposta "ideologia" é apenas uma forma de chamar a atenção.

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