Premium Da prática literária em contexto balnear

Deve ser leve e maleável, passível de ser manuseado com uma só mão, dobrado, maltratado até. Evitem-se as obras autografadas e as edições de luxo já que a acumulação de areia junto à lombada e as manchas de protector solar estão garantidas. O papel não deve ser tão branco que encandeie nem tão amarelo que dificulte a leitura, os caracteres devem ter a dimensão suficiente para que sejam decifrados à distância de um braço esticado.

O tema deve ser cativante e a narrativa fluida e ritmada, nem tão denso que percamos o fio à meada entre mergulhos, nem tão frívolo que nos faça perder tempo. As personagens não devem ser em excesso e o vocabulário apreensível sem o auxílio de dicionários.

Há muitos e bons, nacionais e estrangeiros, escolham com cuidado e tenham boas férias.

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nuno camarneiro

Males por bem

Em 2012 uma tempestade atingiu Portugal, eu, que morava na praia da Barra, fiquei sem luz nem água e durante dois dias acompanhei o senhor Clemente (reformado, anjo-da-guarda e dançarino de salão) fixando telhados com sacos de areia, trancando janelas de apartamentos de férias e prendendo os contentores para que não abalroassem automóveis na via pública. Há dois anos, o prédio onde moro sofreu um entupimento do sistema de saneamento e pude assistir ao inferno sético que lentamente me invadiu o pátio e os pesadelos. Os moradores vieram em meu socorro e em pouco tempo (e muito dinheiro) lá conseguimos que um piquete de canalizadores nos exorcizasse de todo mal.

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João Gobern

Há pessoas estranhas. E depois há David Lynch

Ganha-se balanço para o livro - Espaço para Sonhar, coassinado por David Lynch e Kristine McKenna, ed. Elsinore - em nome das melhores recordações, como Blue Velvet (Veludo Azul) ou Mulholland Drive, como essa singular série de TV, com princípio e sempre sem fim, que é Twin Peaks. Ou até em função de "objetos" estranhos e ainda à procura de descodificação definitiva, como Eraserhead ou Inland Empire, manifestos da peculiaridade do cineasta e criador biografado. Um dos primeiros elogios que ganha corpo é de que este longo percurso, dividido entre o relato clássico construído sobretudo a partir de entrevistas a terceiros próximos e envolvidos, por um lado, e as memórias do próprio David Lynch, por outro, nunca se torna pesado, fastidioso ou redundante - algo que merece ser sublinhado se pensarmos que se trata de um volume de 700 páginas, que acompanha o "visado" desde a infância até aos dias de hoje.