A realidade não é nova: a remuneração do trabalho dos portugueses é das mais baixas da Europa. Mas ninguém parece muito interessado em pôr o dedo na ferida. Basta olhar para o recibo de ordenado e é muito fácil perceber quem está a ficar com o seu dinheiro..São os impostos e as contribuições sociais pagos por trabalhadores e empresas que impedem os salários de subir em Portugal. Num bruto de mil euros, o Estado predador leva-lhe logo 221 euros e vai exigir à empresa outro tanto, fazendo subir o seu custo em igual proporção. Ou seja, o patrão paga 1200 euros, o empregado não recebe nem 780..A piorar há três anos consecutivos - incluindo os tempos de geringonça, portanto -, a carga fiscal sobre o trabalho dos portugueses tomou lugar entre as dez mais pesadas da OCDE. Para um trabalhador solteiro e sem filhos - onde se incluem muitos dos tais jovens que não conseguem arrendar, constituir família ou sequer sair da casa dos pais -, isto significa que quase 42% do que a empresa paga pelo que produzem vai direitinho para os cofres de Costa e Medina (a média do grupo de 38 países é inferior a 30%)..Simplificando, equivale a dizer que cada português trabalha de 1 de janeiro e 3 de junho só para pagar impostos. Em média, claro - há quem deva muito mais dias ao insaciável monstro fiscal..Significa também que não é por má vontade ou por "apenas perseguirem o lucro", como se ouve à esquerda que nos governa há oito anos, que as empresas não aumentam os seus funcionários. É por real incapacidade. Para o trabalhador levar mais dinheiro para casa ao fim do mês, o empregador tem de entregar uma renda infinitamente maior ao Estado..Se um salário de mil euros fosse duplicado, o trabalhador só levaria metade do aumento para casa. Já o seu empregador teria de desembolsar mais 1275 euros do que antes, com o Estado a receber, no fim de cada mês, praticamente o mesmo que quem faz o trabalho (1113 contra 1360 euros)..A verdade é portanto bem simples: o governo que põe sobre as empresas o ónus da subida de salários é o mesmo que penaliza as que pagam melhor e as que promovem aumentos, metendo ao bolso quase tanto dinheiro quanto o que chega ao trabalhador..Nas ruas, porém, só se encontra ira contra os "patrões exploradores", sem se exigir mudanças aos verdadeiros culpados pela miséria dos revoltosos. No Parlamento, raras vozes interpelam o governo sobre a sua responsabilidade neste verdadeiro roubo fiscal e na estagnação salarial de um país em que só o salário mínimo evolui, empurrando cada vez mais trabalhadores qualificados para fora e com o grupo dos que ganham pela fasquia mínima a expandir-se a uma velocidade assustadora - menos de metade dos portugueses consegue chegar aos 1000 euros por mês e entre os jovens essa proporção é de apenas um em cada três..Sem se travar a voracidade fiscal, os salários não podem subir. Mas sem ser forçado a isso, o governo não dará um passo para mudar a receita que lhe tem garantido os brilharetes orçamentais e ajudado a manter o país amarrado a esmolas públicas.