7 dias, 7 propostas por Pedro Cruz

1. Comer
Conga - Casa das Bifanas
Rua do Bonjardim 314, Porto
Domingo, 11 de abril
(ou outro dia qualquer)

A Conga é mais do que um restaurante. Era, no princípio, apenas uma casa de bifanas, codornizes e cachorros com molho. Um corredor estreito e tudo servido em pé.
Conheço a Conga há 40 anos. Quem me levou lá foi o meu amigo Costa, no sexto ano de escolaridade, que era mais experimentado nessas coisas de petiscos e lanches.
Atrás do balcão, nessa altura, em 1980, só havia uma pessoa, que tratava de tudo e de todos, sempre disponível, ágil, a pôr tudo a funcionar e sem deixar ninguém muito tempo à espera. Na frigideira a abarrotar de óleo a ferver - que estava na montra, virada para a rua, para vermos bem como eram feitas - as bifanas saíam sem parar.
A Conga é o Porto no seu melhor: é um lugar onde vão putas e chulos, advogados e clientes, juízes e condenados, banqueiros e bancários, gente de gravata e vendedoras do bolhão. Onde cabem todos, onde se cruzam os tipos mais diversos e onde vemos como a cidade é, de facto, interclassista e sem preconceitos.
Não é apenas um restaurante. É um tratado de sociologia aplicada, um mosaico da vida da baixa, um pedaço de Porto tão rico, tão vasto, tão diferente e tão genuíno.
E, claro, depois há as bifanas propriamente ditas.
São as melhores do mundo. Uma não chega. Mas não peça duas de uma vez, saboreia a primeira e, quando estiver a acabar, peça a segunda, para não arrefecer e sair a fumegar.
-"uma com!"
vai dizer alto o empregado, o que quer dizer que está a pedir uma bifana com molho. Vai, na mesma, nos dias de hoje, escrever o pedido no aparelho que tem na mão; mas faz na mesma o pregão, como sempre, como antigamente, como deve ser.

2. Ouvir
Tiago Bettencourt
Ao vivo no Instagram
Às 22 Horas
Segunda, 12 de abril

Enquanto ainda não há concertos abertos ao público, vale a pena escutar e, neste caso, também espreitar o que muitos se atrevem a fazer a partir de casa.
A vantagem é que pode ouvir o concerto em qualquer lado. Pode sempre fazer de conta que vai sair de casa para ir ao concerto, e escolher uma esplanada, para aproveitar esta primavera quente e os dias que começam a ficar mais longos. Neste caso é mesmo preciso levar o telefone ou o tablet.
Tiago Bettencourt recupera uma ideia de 2001 e tira do baú Tiago na Toca e os Poetas. Originalmente, há uma década, a ideia era dar voz a poetas portugueses. Mas com o confinamento, a toca alargou-se a mais poetas, mais bandas, mais nomes.
No fundo, são versões: ele com a voz e o timbre de sempre, mas com canções como nunca as tínhamos ouvido. Da toca, Tiago desencantou já Bruce Springsteen, David Bowie, Bob Dilan, Os Beatles ou Madonna. Mas também os Ornatos Violeta, Jorge Palma, Rui Veloso e Chico Buarque. E Rolling Stones. E Pink Floyd.
Às dez da noite, em ponto, ele avisa que já lá está, dá uns acordes, acaba de afinar e arranca para uma espécie de concerto de bolso, ali à distância de um telefone com internet. Há outra vantagem - pode interagir sem interromper. Aplaudir ou comentar. E ficar curioso com quem será o "poeta" que Tiago foi buscar à toca para nos trazer.

3.Ver
A Generala
Streaming
SIC OPTO
Terça, 13 de abril


A realidade, vezes sem conta, consegue ultrapassar a ficção. Esta é a história de uma realidade que parece uma ficção. Porque nesta estória, nada é o que parece. Ou melhor, o que parece não é. E o que é não parece. E, na verdade, não se trata de ficção. Maria Terezinha fugiu do Funchal. Em Lisboa, tornou-se Tito Aníbal. Durante décadas, ela, Terezinha, foi ele, Tito Aníbal. O epílogo da história aconteceu já nos anos 90, mas a farsa durou demasiado tempo e, claro, foi uma estranha coincidência que permitiu à Polícia judiciária descobrir que ele, Tito, era ela, Terezinha. Pelo meio, há uma vida inteira de burlas, enganos e mentiras, fraudes e encenações. Até ao fim da vida, ela foi sempre ele. Não se voltava se lhe chamavam Teresinha, respondia ao nome de Tito. Como uma mentira contada muitas vezes acaba por se tornar verdade, Tito Aníbal, mesmo depois de ser exposto como Terezinha, continuou Tito. A Generala, como ficou conhecida a personagem, real, Terezinha/Tito é uma série portuguesa que pode ser vista na plataforma OTT da SIC, a OPTO.



4.Viajar
Douro
Viagem de um ou dois dias ou semana
Quarta, 14 de abril

A viagem pode durar apenas um dia. Ou dois, ou uma semana. Até um mês inteiro. Ou vários. Há um rio e as suas margens para descobrir, mais depressa ou mais devagar. Pode fazer a rota de comboio, de barco, de carro, de moto ou de bicicleta. Ou a pé. É só escolher.
A força da natureza, que nos esmaga, o engenho do homem que trabalhou as margens, a conjugação de vários rios dentro de um único, que segue o seu curso, às vezes impiedoso, noutras, tranquilo, um espelho gigante de uma região que se reflete por inteiro no seu rio.
Se preparar bem a viagem, há muito para ver, fazer, experimentar, conhecer e disfrutar. Desde logo, o vinho que lhe dá fama mundial; os hotéis, de mais ou menos luxo, mas sempre diante dele; as vindimas na época delas, ou a descoberta de percursos que nos levam a conhecer melhor a história de um povo que vive do rio e à volta dele; e de como esse povo limpo, inteiro, digno, resiliente e duro nos dá lições de simplicidade, generosidade, afeto.
Para quem aprecia a boa comida, a oferta é rica, variada e substancial. Mais uma vez, vai desde a conceção mais simples atá à nova cozinha de «autor», mas com os mesmos sabores de sempre.
E há a história e o que se cruza com ela. E os textos dos poetas que cantam o rio, os escritores que se inspiraram, os músicos que dali saíram.
Falo, claro, do Douro.
Por este rio acima, o tempo passa devagar, indiferente à nossa presença. Ele está sempre lá. Nós é que podemos estar ou não.

X não É um País Pequeno
Exposição
MAAT
Lisboa
Quinta, 15 de abril

Está na sala oval, mas não é em Washington; mas podia ser em qualquer lado, porque trata de tudo e de nada. Do que foi e do que há-de ser. De como estamos, todos, a mudar depressa. Porque o mundo somos nós e ele, todo, está em mudança.
E podemos antever como estaremos, todos, quando pudermos tirar a máscara. E como estará o mundo. Que muda e nos faz mudar. E mudamos com ele, e nem sempre damos conta dessas mudanças. Nem, muitas vezes, perdidos na espuma dos dias, temos espaço, mais do que tempo, para refletir, abrandar e, apenas, pensar em algo mais que não seja o dia-a-dia.
E, como é tudo em grande escala, vamos sentir-nos pequenos. Um grão, apenas, diante de um mundo inteiro, em transformação. Há fronteiras polémicas, geopolítica, migrações e direitos ameaçados.
A ideia da exposição é "desvendar a era Pós-Global". Seja lá isso o que vier a ser. Não sabemos, mas podemos sempre refletir sobre o tema. Porque, nós, estaremos, todos os dias, a construir e fazer parte dessa era. Convém, de vez em quando, recordar isso.

6.Ir
Marginal da Póvoa de Varzim
Passeio a qualquer hora
Sexta, 16 de abril

Se me pedem escolhas e sugestões, não levem a mal que recomende para outros o que gosto para mim. Muitos acharão estranha esta escolha. Afinal a marginal é igual a muitas outras, há um passeio onde se vê o mar. Então, porquê esta marginal?
Porque esta é minha, é a minha.
A qualquer hora, está sempre lá. Aviso já que vai estar vento, seja a que horas for. Mas neste caso ajuda. Ao chegar já se sente aquele cheiro intenso a maresia, de salpicos fugidos do mar, que nos entram no corpo e chegam à alma. Sugiro que inspire fundo para absorver aquele ar, que vem carregado de sal, maresia e iodo.
Sugiro começar de Norte para Sul - primeiro o mar, batido, picado, furioso durante todo o ano. Um mar que só os mais corajosos desafiam, de água gelada, que nos arrasta se não tivermos cuidado. Ele enrola a areia com força, desfaz-se em mil pedaços ao bater com fúria nas rochas, vai e vem, sempre, numa constância que nos faz parecer pequenos e finitos.
Se for de manhã, além do vento estará nevoeiro, às vezes grosso, frio, agreste. Lindo. Depois torna-se neblina e acaba por desaparecer, empurrado pelo vento que a dispersa para longe e deixa entrar o Sol.
Ao fim da tarde, esse sol vai esconder-se atrás do mar. É uma explosão de cores diferentes, azul muito escuro, amarelo alaranjado, vermelhos, um céu riscado, um mar de mil formas.
Ao chegar ao fim, lá está o porto de pesca. Mais hora menos hora, os homens vão fazer-se ao mar, sem saber se voltam. Vão desafiar os elementos. Fazem isto há quase mil anos: arriscar, guiados pelas estrelas, empurrados pelo vento, fintando as ondas. Para trazer peixe para o dia a seguir. Parece muito risco para tão pouca «recompensa». Mas, tal como o mar lá está sempre, os barcos com preces, nomes de santos e louvores a Deus, teimam em não desistir.
Marginal da Póvoa de Varzim. Disfrutem. É minha, mas não me importo de a partilhar.

7.Ler
O violoncelista de Serajevo
de Steven Galloway
Editorial Presença
Sábado, 17 de abril

A ficção parte de um episódio real: a 27 de Maio de 1992, às quatro da tarde, uma série de morteiros atingiu um grupo de civis que esperava, em fila, para comprar pão. Morreram 22 pessoas e mais de 70 ficaram feridas. Porque aguardavam a sua vez para poderem comprar pão. O cerco e isolamento de Serajevo, capital da Bósnia, durou quase quatro anos, entre 5 de Abril de 1992 até 29 de Fevereiro de 1996. O violoncelista de Serajevo, além de extraordinariamente bem escrito, é um romance onde se cruza a vida de três personagens com o homem do violoncelo. (Não vou revelar mais nada sobre a história, porque vale a pena comprar e ler. Comprar, não descarregar de um qualquer site sem proteger os direitos de autor).Estive em Serajevo um ano e pouco depois do fim da chamada Guerra da Bósnia, ou Guerra dos Balcãs. O primeiro sinal de «normalidade» era voltar a haver vidros nas janelas. Durante quatro anos, os vidros tinham desaparecido e dado a lugar a madeira; os disparos estilhaçaram as janelas e, além, disso, a visibilidade para o interior das casas era uma forma de chamar a atenção dos snipers, naquela que ficou conhecida como sendo a avenida deles. Havia vidros, gruas para a reconstrução de casas, mas também arame farpado a delimitar zonas minadas nas ruas e nos passeios, como se fossem canteiros de relva. E prédios inteiros que não nos deixavam esquecer, por força dos buracos nas paredes, a violência do conflito. Mas Serajevo tinha voltado à vida, ao trânsito, ao caos e aos cafés cheios de gente.

Propostas pelo jornalista Pedro Cruz

filipe.gil@dn.pt

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