Anna Jorgensen, 30 anos recém-celebrados, vive na Vidigueira, no Alentejo. Mora junto da vinha da Herdade de Cortes de Cima, com a sua cadela da raça perdigueiro, Joy, que nos acompanhou durante este Brunch Com. O encontro foi no Tact, um café há pouco inaugurado numa zona da Lapa, já perto de onde a Avenida Infante Santo avista o Rio Tejo..Para o brunch, partilhamos menus com pão, salmão, manteiga e ovos mal cozido e sal, servido à parte. E ainda uma pequena taça de pequenos tomates cereja bem temperados. Acompanhados de chávenas grandes de café moído no local..Anna é hoje a diretora-geral, enóloga e produtora da empresa Cortes de Cima, mas já lá iremos. Importa antes explicar as origens desta lisboeta que cresceu no Alentejo e que fala com um ligeiro sotaque do Sul, mas cujos traços físicos não deixam enganar as origens familiares: olhos azuis claros e o típico loiro nórdico - que é diferente do loiro eslavo. Anna é filha de mãe norte-americana, da Califórnia, e de pai dinamarquês..Contextualizando melhor, Anna nasceu em Portugal, porque foi o local que os pais escolheram para viver depois de andarem a velejar pela Europa. "A minha mãe tinha cá família, já tinha visitado Portugal e foram incentivados a estabelecerem-se cá. E quanto mais tempo ficaram mais gostaram do país", elucida a jovem enóloga..Regressando ao seu percurso, a vinha sempre lhe esteve no sangue mas só percebeu, ou quis perceber, mais tarde. Uma vez no Alentejo, os pais criaram as vinhas na Herdade de Cortes de Cima, em 1988, o que moldou a vida familiar. Mas até acabar o liceu, Anna tinha uma certeza: não seguir o caminho profissional dos pais, nem trabalhar na empresa da família..Depois de estudar em escolas no Alentejo, fez o liceu na Dinamarca, numa escola a 40 minutos da capital Copenhaga. Confessa que desde sempre se sentiu, na sua maneira de ser, uma mistura das suas raízes familiares, contudo, cresceu com maiores referências dinamarquesas. "Como fiz lá o liceu tenho uma forma pensar muito nórdica, mas misturada com a minha parte alentejana." E dá o exemplo: "Às vezes chego atrasada aos sítios... mas fico muito stressada com isso" - para informação do leitor, para este brunch, Anna já estava no café uns minutos antes da hora combinada. Há poucos meses recebeu a nacionalidade portuguesa: "Quis ter e agora tenho esse direito e penso que a minha vida vai passar por Portugal.".Depois do liceu na Dinamarca, na altura com 17 anos, tirou um ano sabático - como é costume fazer-se nos países do Norte da Europa - e pensou seguir economia, "que é o que as pessoas na Dinamarca estudam quando não sabem o que fazer", diz a sorrir. Contudo, foi nesse mesmo ano de paragem - em que aproveitou para viajar, tirar um curso de mergulho - que começou a fazer vindimas. A primeira em "casa", em 2011. A isso juntou-se a influência de um amigo da família para o mundo perder definitivamente mais uma economista..Esse amigo, o enólogo australiano David Baverstock, uma das figuras que mais revolucionou os vinhos no Alentejo - e que durante décadas esteve ligado ao Esporão (e ajudou os pais de Anna em Cortes de Cima) - sugeriu que fosse fazer uma vindima na Austrália. "E fui. Não pelo vinho, mas pela viagem, pela experiência. Contudo apaixonei-me, porque vi um mundo do vinho completamente diferente do que conhecia até então"..A esta altura da conversa era inevitável saber o porquê e quais as diferenças. A resposta veio pronta: "A indústria do vinho na Austrália tem muito a ver com a comunidade. As pessoas entreajudam-se, são muito abertas entre elas. Por exemplo, as provas de vinho são feitas em conjunto. Em Portugal ainda não somos assim, olhamos uns para os outros como competição e não como colegas.".Talvez fosse essa experiência que a levou a inscrever-se, em 2013, na Universidade de Roseworthy, na cidade de Adelaide, Austrália, onde estudou enologia e viticultura durante cinco anos. "Foi um período que me marcou muito, mas depois decidi que queria voltar para a Europa, e para Portugal, que é onde me sinto melhor. Ao contrário do seu irmão, dois anos mais velho, com quem cresceu, mas que preferiu ir viver para a Dinamarca. "Adoro a Dinamarca, onde tudo funciona, mas em Portugal há uma parte mais calorosa e há o desenrascar. No final do dia sinto-me mais portuguesa.".Depois da universidade andou a fazer vindimas pelo mundo, de Sydney à Nova Zelândia e em França, onde tinha já estado no seu ano sabático. Fiquei a trabalhar por lá, fartei-me ao fim de uns tempos e fui para os Estados Unidos para mais vindimas.".Só depois, "um pouco a pedido do meu pai", conta, no final de 2018, decidiu voltar, não só para ajudar na empresa familiar, mas pelas oportunidades que, acredita, existem em Portugal. "Temos um grande potencial, temos muita coisa boa: clima, castas, história, tradições que valem ouro e que não têm sido valorizadas. Mas agora sim, está a começar a acontecer. Infelizmente ainda estamos numa fase em que o vinho português é vendido internacionalmente nas mesmas secções que o vinho espanhol, por exemplo, mas as coisas estão a mudar, A industria do vinho está a mudar. O país esteve fechado muito tempo e por isso atrasamo-nos, mas isso também permitiu que algumas tradições se mantivessem"..Conta que quando os pais chegaram e decidiram fazer vinho plantaram uma casta francesa, a Syrah, porque vinho português na altura era feito nas cooperativas, uma herança do Estado Novo. "Eles decidiram chamar a atenção para os mercados externos com essa estratégia de criar algo conhecido, mas feito em Portugal. Mas isso já passou, teve o seu momento, agora é o tempo da segunda fase, de olhar para dentro, olhar para a nossa identidade e o que temos de único e criar valor.".À conversa veio inevitavelmente os vinhos naturais - uma tendência cada vez maior quer na produção, quer no consumo. "Há extremos, mas acho que há espaço para os vinhos naturais e para os clássicos. Há vinho súper industrializado e há vinho súper natural, e já fiz ambos. Gostamos muito de dar nomes às coisas, mas isto do vinho natural, o que é? Ninguém sabe! Não há legislação. E não defendo que vinhos que sejam feitos na adega sem aditivos, mas que venham de vinhas não-biológicas sejam chamados de naturais, mas como o "natural" é cada vez mais vendável...". Diz mesmo que terminologia "vinhos naturais" não é algo com que se sinta muito confortável, explica..Atualmente, está a terminar as mudanças que nos últimos anos fez em Cortes de Cima. Diz, com honestidade, que o facto de ter viajado ajudou-a a ver o que vai acontecer em Portugal, no setor dos vinhos daqui uns anos..Por isso mesmo a sua filosofia mudou a forma de produzir os vinhos de Cortes de Cima. Sobretudo, diz, "o fundamental é termos respeito pela terra, pela natureza, pelas pessoas e pela qualidade. Queremos produzir o melhor produto sem entrar em compromisso com a natureza". E explica que se tiver de optar entre salvar as uvas e fazer um tratamento químico, prefere perder as uvas..As mudanças na herdade de 305 hectares estão a acontecer: "Fazíamos dois milhões de garrafas e agora fazemos menos de duzentas mil. Arrancamos vinhas, passámos de monocultura para policultura. Andamos a ver que tipo de solos ficam ou não ficam. Nesse aspeto, estamos a ser fundamentalistas, mas isso está a refletir-se no produto que está a ser feito com o que a natureza dá, e talvez isso possa ser considerado vinho natural "[risos]..Tem sido esse o trabalho de Anna nos últimos quatro anos. E acrescenta mais exemplos: "Deixámos de trabalhar com trator, por causa das emissões de carbono, olhamos para a vinha como algo vivo e temos viticultura feita por pessoas que olham para as plantas e veem as suas necessidades e tomam decisões. Não acredito nas situações que existem aqui no Alentejo, de pessoas de prestações de serviços que vivem 30 na mesma casa, para produzir vinhos que custam três euros no supermercado. Não queremos isso!".As mudanças começaram a ver-se este ano, sobretudo para quem consome. Novos vinhos, novos preços. Até o best-seller de Cortes de Cima, o vinho Chaminé mudou. Da produção de dois milhões e preço de cinco euros nos supermercados, passou a ter uma menor produção e um preço de venda de 15 euros, e deixou de estar disponível em supermercados. "Sei que tenho de pagar contas, mas não tenho pressa. Não quero tomar decisões a pensar nisso"..E, já em final do brunch, com a cadela Joy a ficar mais agitada depois de uma hora quase sem se mexer, Anna Jorgensen explica que um dos seus objetivos é que as pessoas da sua aldeia possam trabalhar no campo e sejam bem pagas por isso. "Quem faz vinho tem de saber tudo, é um trabalho tramado". Expressão mais portuguesa é quase impossível.. filipe.gil@dn.pt