7 desafios do novo presidente do Sporting

A tarefa que o novo líder dos leões tem pela frente está tudo menos facilitada. Mas antes de mais, ele terá de unificar um clube a cuja liderança nunca houve tantos candidatos

É complexa a missão de Frederico Varandas, que será o 43.º presidente leonino, principalmente se não conseguir ser campeão no futebol; esta talvez seja "a" condição para conseguir cumprir o mandato. Entretanto tem de conseguir dinheiro, organizar a Academia, manter as modalidades de alta competição ganhadoras e gerar um consenso alargado.

1. Unir o clube

Com seis candidatos a submeterem-se a sufrágio está à vista uma enorme divisão entre os sócios e os adeptos leoninos. Esta é uma tarefa para o 43.º líder da história do Sporting, que é tudo menos fácil pois os verde e brancos, por força do menor êxito desportivo da sua equipa de futebol, têm-se desgastado em muitas guerras internas. Em 2011, Godinho Lopes venceu com 36,55% dos votos, ao passo que Bruno de Carvalho obteve 36,15%. E há sete anos eram cinco concorrentes, agora foram seis, estiveram para ser sete, e se Bruno de Carvalho e Carlos Viera não tivessem sido suspensos o número aumentaria para nove, isto sem falar em nomes falados mas que não passaram das intenções - Luís Figo, Tomás Froes, Poiares Maduro, por exemplo. De 2013 para cá, com o anterior presidente, o Sporting ganhou uma franja de adeptos com um perfil sociológico diferente; mais jovens, mais exigentes, mais impacientes e desejosos de ganhar, com tudo o que isso tem de positivo e de negativo. Unir o clube não será fácil, mas será o primeiro passo, o passo fundamental, para que o Sporting se mostre robusto nos combates desportivos e institucionais, internos e externos, que terá pela frente. Sem essa união, o êxito ficará mais distante de ser alcançado.

2. Dinheiro

Neste capítulo o grande desafio do novo presidente passa por conseguir cumprir compromissos de curto prazo e garantir um plano que lhe permita ter uma situação económica equilibrada (receitas iguais aos custos) e expandir comercialmente a marca Sporting. Apesar de o presidente da comissão de gestão, Artur Torres Pereira, ter referido que a situação financeira do Sporting está controlada, a SAD está obrigada a contrair um empréstimo obrigacionista em novembro para fazer face ao pagamento de 30 milhões de euros do empréstimo do mesmo montante que venceu em maio e foi adiado em seis meses devido à turbulência pós-Alcochete. E depois será preciso analisar as receitas do contrato com a NOS (José Maria Ricciardi disse que 60 dos 68 milhões referentes a esta época e à próxima já foram gastos). Ainda assim, com um contrato a dez anos no valor total de 515 milhões, a antecipação destas verbas pode ser uma solução numa temporada em que o Sporting vive um problema grave e que passa pelo facto de Benfica e FC Porto arriscarem um encaixe na ordem dos 50 milhões de euros, contas por baixo, com a Liga dos Campeões, ao passo que os leões na melhor das hipóteses vão receber até dez milhões de euros na Liga Europa. Em paralelo há uma reestruturação financeira pronta a ser assinada e negociações adiantadas pela anterior direção tendo em vista a venda da dívida a um fundo.

3. Ser campeão

Muito do sucesso do presidente eleito vai depender do que conseguir no futebol. Há um objetivo claro: vencer o título nacional que foge desde 2002. Quase tudo o resto, em termos desportivos, já foi alcançado nos últimos 16 anos. O futebol tem sido o calcanhar de Aquiles do clube leonino, que, ano após ano, tenta mas não consegue ser campeão. O futebol vai ser o barómetro do trabalho dos novos dirigentes e muito do que se passar na I Liga vai servir para avaliar se o novo presidente tem condições para cumprir o mandato de quatro anos. A questão do futebol entronca diretamente com a situação económica e financeira pois os leões não podem sujeitar-se a ficar novamente fora da Liga dos Campeões, pois isso vai alargar o fosso financeiro para com Benfica e FC Porto. O futebol terá de alavancar receitas, veremos é se existe dinheiro para dotar a equipa, porventura já em janeiro, de forma a colocá-la na rota da Liga dos Campeões. Mais um ano na Liga Europa e o Sporting pode começar a perder um comboio que está destinado a uma pequena elite europeia. O novo presidente tem agora a missão de implementar o seu modelo para o futebol no mais curto espaço de tempo sem que este colida com as rotinas instaladas, com os bons resultados que se conhece.

4. Academia

O Benfica tem crescido muito nos escalões de formação, no que ao futebol diz respeito, e em simultâneo o Sporting tem perdido algum élan nesse capítulo e isso tem sido visível nas convocatórias das várias categorias da seleção nacional. Reorganizar e modernizar a Academia, investir na rede de observadores e (voltar a) estar onde os mais talentosos se evidenciam são prioridades para quem tomar conta de Alcochete. Mas este problema é transversal. O Sporting está a sentir dificuldades em fazer crescer a formação das modalidades e em reposicionar-se como uma entidade nuclear na educação desportiva dos mais jovens. Agora tem um pavilhão mas muitos dos seus jovens, nas mais diversas modalidades, estão dispersos por inúmeras escolas secundárias, algumas delas bem longe do estádio. O Sporting sente muito mais este aspeto pois foi sempre um ex-líbris em modalidades de manutenção como ginástica e natação e deixou de o ser desde 2003, quando o novo estádio foi estreado e ficou sem uma pista de tartan, sem uma boa piscina e mesmo sem um pavilhão. Como voltar a reposicionar-se como um clube de desporto, como já foi, e como saber crescer é um enorme desafio que o Sporting talvez não possa esperar mais para o enfrentar.

5. Modalidades

A herança que Bruno de Carvalho deixa nas modalidades de alta competição não é pesada. É pesadíssima. O Sporting sagrou-se nos últimos meses campeão nacional em andebol, hóquei em patins, voleibol e futsal no ano de estreia do Pavilhão João Rocha, uma das obras do anterior presidente. Este pleno de conquistas simultâneas nunca tinha acontecido e tudo o que seja menos do que isso será alvo de reparos. O novo líder leonino sabe que será muito complicado repetir o pleno mas, como foi ouvido em campanha, as ditas modalidades serão também dotadas de um maior controlo financeiro pois o Sporting na última época desportiva gastou, sensivelmente, 20 milhões de euros com todas as modalidades que estão sob a alçada do clube. E ao todo são 54... mais o futebol, que é gerido pela SAD. Outro fator que todos os candidatos ponderaram em campanha eleitoral passa por fortalecer a componente de formação nas mais diversas modalidades para não ter que se investir verbas avultadas em jogadores feitos. Veremos também se está para breve o regresso do basquetebol, que ausente do clube verde e branco desde 1995.

6. Relações e influência

Esta é uma questão sensível e que exige ser tratada com pinças e que tem sido alvo de um comportamento paradoxal por parte de quem dirige os destinos do Sporting. Historicizando os últimos cinco anos, Bruno de Carvalho começou por cortar relações com o FC Porto, mas, paulatinamente, aproximou-se dos azuis e brancos na mesma medida em que se afastou irreversivelmente do Benfica. Por seu turno, Sousa Cintra, na qualidade de presidente da SAD, esteve na tribuna da Luz para assistir ao último dérbi. Este comportamento foi muito criticado pelos candidatos - a exceção foi José Maria Ricciardi - visto que Cintra estava apenas a representar uma comissão de gestão. Resta saber o que fará o presidente eleito, sabendo-se que o FC Porto já pediu explicações à Federação Portuguesa de Andebol sobre o caso Cashball e que o próprio Sporting constituiu-se assistente em três processos em que o Benfica foi ou está a a ser investigado - e-Toupeira, e-mails, vouchers. Numa pista paralela, e mais em relação ao futebol, o Sporting vai praticamente começar do zero no seu relacionamento, e consequente magistério de influência, com as instituições que gerem ou regulamentam o futebol português; Federação Portuguesa de Futebol, Liga de Clubes, Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto e Instituto Português do Desporto e Juventude. É o preço a pagar por ter três presidentes em sete anos...

7. Revisão dos estatutos

A alteração dos estatutos está outra vez na ordem do dia depois de o primeiro tumulto, que redundou nas eleições de ontem, ter sido desencadeado precisamente devido a uma assembleia geral com esse propósito. Devido ao inusitado número de candidatos, um dos temas da moda no que concerne a esta questão tem muito que ver com a introdução de uma segunda volta em eleições - inclusivamente Dias Ferreira julgava que essa alínea já era contemplada pelos atuais estatutos leoninos. Mas há mais situações que vão merecer futuramente a atenção, como a estrutura de governação do clube, que para muitos sócios não é totalmente clara, e eventuais conflitos de interesses entre os órgãos sociais e entre o clube e a SAD. A criação de uma comissão eleitoral também é um tema a merecer a atenção para impedir que uma mesa de assembleia geral possa organizar e supervisionar eleições nas quais pode ser candidata. E veremos se a lista única não será objeto de reclamação. Ontem, os sócios votaram num boletim único e quando meteram a cruz estavam a escolher o conselho diretivo, a mesa da assembleia geral e o conselho fiscal e disciplinar associados de uma só lista. É a primeira vez que acontece desde 2011. Nesse ano, Godinho Lopes foi eleito presidente, mas o seu presidente da mesa da assembleia geral, Rogério Alves, perdeu para Eduardo Barroso, que concorria na lista de Bruno de Carvalho.

Notícia atualizada com o nome do novo presidente do Sporting, Frederico Varandas.

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