Bolsonaro vs. Haddad: guerra santa na segunda volta

Candidato do PSL tem o apoio oficial dos evangélicos, mas o concorrente do PT não está disposto a entregar um terço do eleitorado de mão beijada. Deus entrou nas eleições, para ficar.

Uma camisa amarela com a inscrição "Meu Partido é o Brasil" a verde e uma mancha encarnada na zona do abdómen é o item mais vendido na maioria das igrejas evangélicas brasileiras, logo a seguir à Bíblia. A cor da camisa, amarela e verde, identifica um eleitor de Jair Bolsonaro, assim como identificava há três anos os manifestantes pró-impeachmentde Dilma Rousseff. A frase, por sua vez, é um dos slogans informais da campanha do deputado do PSL. E o borrão simboliza o sangue jorrado após a facada que o candidato sofreu, num evento em Juiz de Fora, no dia 6 de setembro.

Entretanto, raras vezes de acordo, desta vez os líderes neopentecostais Edir Macedo, Silas Malafaia, Robson Rodovalho e J.J. Soares juntaram-se no apoio público a Bolsonaro. E, segundo sondagem Datafolha, pelo menos metade dos evangélicos - 32% dos brasileiros - votaram no número 17 no domingo.

Há qualquer coisa de religioso nas eleições do Brasil. Ou muita coisa, de acordo com especialistas como Christina Vital, coautora de quatro livros sobre a relação entre a Igreja e política no Brasil. "Depois da aposta no legislativo, de 2014 para cá os evangélicos movimentam-se no sentido de conquistar o poder executivo a nível municipal, estadual e federal, ou seja, a Presidência da República", dizia em entrevista ao DN em novembro de 2016, logo após a ascensão de Marcelo Crivella, bispo da IURD e sobrinho de Edir Macedo, à prefeitura do Rio de Janeiro.

Bolsonaro, oficialmente católico, que já antes dessa eleição se fizera batizar pelo pastor Everaldo, outra liderança protestante, no rio Jordão, é a lança que o setor quer vincar no Palácio do Planalto.

Nas últimas semanas, notícias sobre Fernando Haddad, do PT, a maioria delas falsas, tentaram minar as suas possibilidades dentro do eleitorado de fiéis evangélicos. NoWhatsApp foram espalhadas imagens de páginas de jornal em que supostamente o candidato defendia que a partir dos 5 anos as crianças passassem a ser controladas pelo Estado, que então decidiria qual o seu sexo. Numa fotomontagem, Haddad surgia sorridente, ao lado de umbiberão em forma de pénis a ser comercializado para, lia-se na legenda, "combater a homofobia".

Como as fake news surtiram efeito no eleitorado evangélico com menos estudos, sobretudo na região nordeste, o candidato do PT inverteu o último dia de campanha: em vez de desfilar pelos arredores de São Paulo, como previra, viajou para Feira de Santana, na Bahia, um bastião petista. Lá, pregou união entre católicos e evangélicos. E sublinhou: "Sou casado há 30 anos e com a mesma mulher", numa clara indireta aos três casamentos de Bolsonaro. No último tempo de antena do PT antes das eleições, o candidato despediu-se, pela primeira vez ao longo da campanha, com um "que Deus abençoe a todos".

Na segunda volta, o tom religioso de Haddad vai intensificar-se: segundo a coluna de bastidores Painel, do jornal Folha de S. Paulo, o presidenciável vai apresentar-se como homem de fé, marido e pai, e reverente aos patriarcas, desde logo ao avô Cury Habib Haddad, sacerdote da Igreja Ortodoxa, cuja fotografia traz na carteira.

Haddad sabe que parte com larga desvantagem no segmento evangélico neopentecostal face ao candidato oficial Bolsonaro. Mas mesmo assim terá o apoio velado ou explícito da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, movimento criado em 2016 contra o impeachment de Dilma, que reúne dez mil evangélicos de diferentes denominações. Para essa frente, o presidenciável do PSL "nega valores básicos do evangelho". "Armar a população é estimular a barbárie, atribuindo ao cidadão a responsabilidade pela sua defesa pessoal", lê-se em manifesto do movimento. "O evangelho de Jesus Cristo defende a vida de todas as pessoas, especialmente a dos mais fracos, física, social, económica, educacional, racial e moralmente, foi entre essas pessoas que Jesus andou, tendo sido, ele mesmo, uma delas (...) a candidatura de Bolsonaro é alimentada pelo ódio, sendo o oposto à proposta do evangelho".

O Brasil pode estar dividido politicamente entre esquerda e direita; socialmente entre mais ricos e mais pobres; geograficamente entre sul e nordeste; mas é religiosamente que a guerra, santa portanto, se pode revelar mais vigorosa.

Em São Paulo

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