Ainda bem que a Europa não é um espetáculo

No meio da atenção mediática gerada pelas eleições americanas, houve quem lamentasse que as eleições europeias não provocassem o mesmo entusiasmo e excitação. E quem defendesse o fim do colégio eleitoral americano e, eventualmente, da igualdade dos Estados no Senado. Não lamento um, nem defendo o outro.

Há duas importantes lições que os europeus podem tirar das eleições e do sistema eleitoral americano.

A polarização, democrática e legítima, põe à prova a unidade das organizações políticas. Quanto mais recentes, menos enraizadas e menos entrelaçadas, maior o risco que correm. Se os Estados Unidos são diversos, a Europa é muito mais. Quem hoje defende a eleição directa do presidente dos Estados Unidos, amanhã quererá o mesmo na Europa, seguido da legitimação exclusiva do Parlamento Europeu, porque no Conselho a representação dos Estados deturpa a ideia de um homem, um voto.

O complexo sistema eleitoral americano responde a um contexto e à ideia de igualdade entre Estados membros da mesma federação. Se o tempo pede reforma, é questão interna.

O complexo sistema europeu corresponde à ideia de que a par dos povos da Europa, há Estados que pré-existem aos quais a ideia de pertença é mais forte. Tornar a escolha de quem preside à Comissão Europeia uma eleição directa serviria certamente para tornar esse processo mais combativo e entusiasmante, mas não tornaria a Europa mais unida. Pelo contrário. As divisões entre vencedores e vencidos seriam divisões europeias que oporiam povos e regiões cuja pertença à União Europeia é, mesmo entre os fundadores, recente e frágil.

A tentativa frustrada de escolha de quem preside à Comissão pelo sistema de cabeça de lista dos partidos europeus foi já um sinal da debilidade de um processo polarizador. Apesar de haver quem tivesse ganho, houve uma coligação no Parlamento para recusar a sua posse (que resultou numa escolha bem melhor, diga-se), em nome de, afinal, o sistema ser parlamentar.

O complexo sistema político europeu, em que se mistura a legitimidade eleitoral direta com a indireta, o peso ora igual ora diferente dos Estados, fazendo com que nem no Conselho nem no Parlamento exista maioria e oposição, apela a compromissos. Difíceis, demorados, limitadores de algumas grandes iniciativas, mas agregadores.

A Europa não excita, e isso é uma virtude. O que não quer dizer que não possamos nem devamos prestar mais atenção ao que propõe e faz. Não ser conflitual não quer dizer que não é importante. Ser consensual não quer dizer que não deve ser participada. Há maneiras de fazer a discussão europeia mais interessante sem a tornar numa batalha espetacular.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG