Faltas

E tu, o que te falta para seres feliz, perguntou ele, e para ti o que é a felicidade, respondeu ela, antes de se atravessarem na chuva de Lisboa, que parecia a de Londres, disse ele, com um quarto de Airbnb entre uma semana de turismo tecnológico e o resto da vida na terra de cada um; quarto dele ou dela, ainda não tinham decidido, e nenhum queria ser o primeiro a falar disso. As ruas estavam desertas - nas histórias de amor, as ruas não estão sempre desertas? - até ao quarto dele na Graça, que nenhum conseguia pronunciar. Acabou por ser no quarto dele, que ele lhe tinha dito que era o apartamento com a vista mais amazing de Lisboa, e ela fingiu acreditar, e disse que queria ver essa vista, fazendo um gesto com a mão de tentar cortar a neblina como se se visse alguma coisa, ou como se fossem ver a vista, e ele riu-se e disse que até lá ia resolver a neblina, que ia inventar uns óculos de VR para isso, não estavam na Web Summit?, não era ele o fundador de uma empresa tecnológica?

Ela lembrava-se vagamente de ele lhe ter explicado o que fazia, um silo digital que guardava dez boas memórias para sempre, partilháveis com cinco pessoas, não mais de cinco, mesmo depois de o dono das memórias morrer; mas não era só por causa da vista que ela tinha deixado que ele escolhesse o apartamento dele - junto do dela, no mesmo prédio, estava mais gente da empresa e não era bom que se soubesse, lá na terra dela, que ela tinha levado alguém para o quarto, pelo menos para já. Não trazia mal, mas também não trazia bem, e preferia assim, tinha ido jantar já com tudo na mochila, e ia dizer no grupo de Telegram que ia ter com eles ao aeroporto, que não se preocupassem, que era mais fácil, e ninguém ia perguntar nada, até porque a resposta já estava dada.

Era a terceira vez que se encontravam, mas tal como da segunda fingiam de novo que era a primeira. Ela disse-lhe, da segunda, que parecia o filme da marmota, e ele riu-se como se ria sempre que não percebia uma referência; depois procurou no telemóvel o que era, demorou um bocado mais porque ela não usou uma palavra diferente para marmota, e quando descobriu riu-se outra vez, mas agora como se ria sempre que percebia coisas que não tinha percebido antes. De que te ris, perguntou ela, que gostava de o ver ir e não queria saber da resposta, de nada, lembrei-me da marmota. A segunda vez tinha sido melhor do que a primeira, e até há pouco não sabiam se ia haver uma terceira; não sabiam, mas sabia quem os tivesse visto, ela a falar no palco, ele no meio da plateia, indistinto menos para ela, os dois como se fossem só os dois, a moderadora a ter de repetir a última pergunta, Rachel, quais são os teus próximos investimentos. Um silo digital dos momentos felizes, é nisso que vou investir, disse sem deixar de olhar para ele. Numa empresa? Não, nos momentos felizes, respondeu. A moderadora rindo-se como se fosse uma piada, mas percebendo no fundo dos olhos dela que não era.

Ele já se tinha esquecido, mas não tinha, dos pulsos dela, de os morder, de os beijar e agarrar. Ela já se tinha esquecido, mas não tinha, das mãos dele, do cheiro dele no pescoço junto ao queixo, na linha onde a barba acaba e a pele começa. Tinham-se esquecido, mas não tinham, de como os corpos tinham sido desenhados para encaixarem um no outro, de como tudo era como se sempre tivesse sido e como se nunca tivesse deixado de ser. Durante este ano, tal como durante o primeiro, não tinham falado, nem escrito, cada um na sua terra, cada um na sua vida, que era uma vida de várias cidades, algumas vezes a mesma, tinham estado em Berlim ao mesmo tempo em janeiro, para outra conferência. Não se falaram porque só existiam em Lisboa. Durante o ano, não se viam, não falavam, não escreviam mensagens, mas ouviam-se; seguiam-se no Spotify e iam ouvindo as mesmas músicas, que era mais forte do que se se vissem, pensava cada um deles, pensando se o outro pensaria o mesmo.

Quando o Uber dela chegou à rua, abraçaram-se dois minutos. Não se despediram porque nunca tinham deixado de se despedir, mas olharam a cidade por uns segundos. Ele disse safe journey home. I no longer know where home is, respondeu ela. Enquanto o Sol nascia e o carro arrancava lá em baixo, ele lembrou-se de onde vinha a frase dela, da canção Homesick, dos Kings of Convenience, que tinham ouvido durante o mês de janeiro, e riu-se com o tal sorriso de quando percebia as referências.

No Uber, num semáforo, ela chegou a escrever, mas apagou, só tu me faltas para ser feliz.

Advogado