Do que falamos quando nos estamos a indignar?

Nunca vi a Tânia Ribas de Oliveira a comentar a Chechénia, problema geopolítico bastante complicado sobre o qual, não me lembro mas é possível que sim, eu talvez já tenha dado uns bitaites. Talvez eu tenha mesmo escrito uma crónica inteira sobre a Chechénia. E provavelmente não disse nada. Que querem, não sou o Rubem Braga, cronista brasileiro sobre quem o poeta Manuel Bandeira, seu patrício, dizia: "O Rubem é sempre bom, e quando sem assunto, então, é ótimo."

A Tânia Ribas de Oliveira apresenta um daqueles programas televisivos da tarde, aliás o seu chama-se A Nossa Tarde, na RTP, programas do tipo que acontecem também de manhã. Enfim, em horas simples, portanto sobre coisas simples, indignas de chegaram ao primetime, quando todos os nossos canais televisivos, todos, se dedicam às coisas graves. Como: o Pizzi não devia entrar mais nas equipas do Lage? Como: o que tem o Tondela que faltou ao Rosenborg?... Enfim, grandes temas tratados lá fora pela Foreign Affairs ou Le Monde Diplomatique, com as Chechénias respetivas, por cá adaptados ao nosso nível.

Então, no programa da Tânia, ela sorri, quase sempre comove-se, tudo levezinho. Deduzo, porque eu sou mais os nossos primetimes arrelvados e as Chechénias afins. Mas dizem-me que numa destas tardes desembarcou em A Nossa Tarde um grandalhão com tatuagens agressivas, tivesse ele as mangas arregaçadas teria mostrado uma ou outra suástica, mas tudo amenizado por três bebés que ele e a mulher portavam nos seus braços. A Tânia tratou de tudo com a habitual simpatia.

Estes programas da manhã e da tarde parece que só têm velhos alheios às novas tecnologias, mas desta vez deve ter havido um telespectador que tresmalhou da Web Summit, ou nem entrada conseguiu nela, o facto é que ele pousou os olhos em A Nossa Tarde. E o seu telemóvel, munido quiçá de uma aplicação dessas com funções exóticas, no caso, que fareja nazis, se pôs a alertar. E estava certo: o latagão, além da aparência, tinha a essência. Era um racista que tinha sido condenado por ter matado um jovem com o azar de ter compaginado a hora e o lugar com o tal bruto e a chusma dele.

Um programa da tarde, como os da manhã, não é para companhias destas, tal como a duquesa de Sussex, ex-atriz Rachel Meghan Markle, preferia não ter o seu impróprio pai a dar tanto nas vistas. A RTP desatou a desculpar-se, a equipa do programa A Nossa Tarde fez um penitente comunicado e todos os outros programas da tarde e os da manhã arrastaram o dedo indicador pela testa e sacudiram um inexistente pingo de suor, património imaterial da nossa maneira de suspirar de alívio.

Entretanto, saltara uma efémera indignação (juntar isto vai ter de acabar, efémera indignação já se tornou pleonasmo), descobriu-se a tal cruz suástica escondida na manga, insistiu-se, e provavelmente de forma avisada, sobre as convicções contumazes do homem. Enfim, já estávamos todos conscientes, e justamente, sobre a pornografia que era aquele tipo, e com aqueles álibis nos braços, estar naquele programa vespertino feito para ser singelo. A indignação deslizava para a sua vocação natural, amainar, não fosse a Tânia Ribas de Oliveira.

Ela resolveu ir para o seu Instagram dizer. Quer dizer, dizer diz-se em qualquer rede social como nos elevadores do nosso prédio passamos olhares distraídos pelo vizinho, ou quando se escreve sobre a Chechénia sem lá ter posto os pés, mas a Tânia conseguiu dizer. Disse: "Abraço a família e amigos de Alcino Monteiro." Ah, foi dito!

Percebíamos lá o que era, até então, dar-se corpo ao assunto, toda aquela efémera indignação sobre as tatuagens brutas do bruto... Faltava dizer de forma a sabermos: Alcino, 27 anos que não chegaram aos 51 que teria hoje, um jovem lisboeta cabo-verdiano, numa noite de Bairro Alto, escuro de mais e com carapinha a pedir pontapés. Estava sozinho e outros não, eram a matilha mais as cruzes gamadas enfiadas nos cornos. Tânia Ribas de Oliveira pegou no não assunto até então, e fez de Rubem Braga. Foi ótima. Estávamos pois a falar de Alcino Monteiro. Respeito, pois.

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